*Capítulo 64*

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DESCULPA A DEMORAAAAA

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Júlia

Esperei minha mãe dormir pra sair de casa e ir andar pelo morro atoa. Já era de madrugada então a maioria das ruas daqui estavam vazias. Ultimamente, eu tenho feito muito isso. Sempre que eu sinto que preciso de um tempo e respirar, vou caminhar pelo morro tentando esquecer das coisas que aconteceram. Mas nunca funciona, eu consigo uns dez minutos de distração e depois sempre começo a lembrar do meu pai...

Tudo nesse lugar me lembra ele, cada cantinho do morro. Tudo aqui foi ele que ajudou a construir, ou ele que criou. Eu me sinto cada vez mais sufocada aqui, eu só queria poder largar tudo isso e ir pra longe tentar esquecer de todas as coisas que aconteceram.

Eu não consigo dormir porque cada vez que fecho os olhos, a única coisa que me vem a mente é o meu pai me olhando enquanto é baleado várias e várias vezes. Tentando me proteger. Eu fui culpada pela morte do meu pai.

Eu sei que ele não gostaria de ver eu pensando dessa forma, mas é assim que eu me sinto.

Cheguei na pracinha que tinha no alto do morro e sentei, observando a paisagem e tentando desligar a minha cabeça.

Não consegui fazer isso porque em menos de cinco minutos eu ouvi o barulho da moto. Não precisei olhar pra saber quem era, ele só desceu e veio até mim. Não me surpreendi por ele saber que eu estava aqui. Ele me trazia aqui direto no último mês e ficava aqui comigo por quanto tempo eu quisesse, e se eu não quisesse conversar, ele só ficava em silêncio respeitando o meu tempo.

Na maior parte do tempo eu preferia ficar sozinha, mas o Henrique era uma exceção. A companhia dele me ajudava em um nível absurdo.

Ele se sentou do meu lado em silêncio enquanto fumava e pela primeira vez, tomei a iniciativa de falar primeiro.

Júlia: Como você tá? - Olhei pra ele e ele deu um sorriso pequeno.

RK: Tô bem agora que tu perguntou. - Ele me deu uma sacola que tava com um cheiro muito bom. - Come aí.

Abri o hambúrguer e literalmente comi em uns quatro minutos, eu tava morrendo de fome porque ultimamente não consigo comer direito. Então quando realmente me dá fome, eu como tudo de uma vez.

Júlia: Xinguei o meu irmão hoje. - Ele me olhou surpreso. - Ele foi desrespeitoso comigo, aí eu perdi a paciência.

RK: Que bom que tu xingou então. O que ele te disse?

Contei toda situação pro Henrique enquanto ele ficava calado me escutando, a expressão dele parecia que ele tava com raiva pelo o que o Victor disse pra mim, mas quando eu disse a minha resposta, ele se tranquilizou.

RK: VH tá cego. Não leva isso pro teu coração, tá ligada? Acho que ele só tá tentando fazer você reagir de alguma forma.

Júlia: Mas me fazendo ficar mal e com raiva não é uma forma boa.

RK: Mesmo assim tu reagiu. Você tá conversando mais comigo nesses dez minutos que a gente tá aqui, do que conversou com alguém no último mês. Então eu acho que até funcionou um pouco.

Júlia: É, pode ser. - Suspirei.

O Henrique tava um pouco inquieto e eu percebi, isso tava me deixando nervosa.

Júlia: Tem alguma coisa acontecendo com você? - Ele balançou a cabeça assentindo.

RK: Eu vou embora. - Demonstrei não entender o que ele tava querendo dizer. - Não quero mais voltar pra cá, tá ligada?

Júlia: Como assim?

RK: Eu não tenho ficha criminal, ainda. Se eu quiser sair dessa vida e ter uma "vida normal"... - Fez um gesto com as mãos. - Eu tenho que sair agora. Depois não vou conseguir mais sair a não ser morto, ou preso.

Júlia: Mas...mas você vai sair do morro?

RK: Eu não quero ficar em lugar nenhum aqui. Eu nunca consegui ficar quieto em um lugar só. Eu só tô pensando ainda, mas eu acho que é isso. Quero ir embora, levar minha mãe e viver em um outro lugar. Eu vou voltar pra cá as vezes e pá, mas eu não quero mais ficar aqui. Com essas parada que aconteceu, eu percebi que isso não vai me levar pra lugar nenhum.

Eu entendi o que ele quis dizer. Henrique, além de mim, foi o único que tinha uma relação com meu pai e viu ele ali, morto por vários tiros. Eu entendo que ele queira sair dessa vida depois de ver isso, ele tá certo. Ele só não quer ter o mesmo final que o meu pai teve.

Mas, eu sou egoísta. Eu não quero que ele vá embora. Eu não quero que ele me deixe aqui sozinha. Eu não sei o que aconteceu entre nós dois nesse tempo que a gente começou realmente a se relacionar, mas pra mim, o Henrique é uma pessoa importante na minha vida. E eu não quero ficar sem ele. Eu posso ser egoísta e tudo, e quando é sobre ele, eu admito isso.

Júlia: E eu? - Ele só me olhou sem falar nada. - E eu Henrique? E a gente?

Ele ia responder, mas o meu desespero foi maior e eu não consegui parar de falar enquantos sentia meu olho arder só de pensar que ele também ia me deixar.

Júlia: Tu não pode fazer isso. Você...a gente tá junto a meses e até agora eu não sei o que a gente tem, mas eu sei que você entrou na minha vida e eu não quero que você saia dela. Eu preciso de você comigo, cara. Me desculpa se eu tiver sendo egoísta, mas eu não vou deixar você ir embora e me deixar assim, eu sei que não tá sendo nada fácil por causa daquele cara... - Hesitei em falar o nome do cara que matou meu pai, me causava dor física só de pensar nele. - Mas uma hora isso vai acabar e você pode viver aqui normalmente igual sempre viveu e...- Ele me cortou.

RK: Vem comigo.

Júlia: O que? - Reagi surpresa.

RK: Eu já ia te chamar pra ir comigo. Agora que tu deixou claro que não consegue viver sem mim...- Falou em um tom de deboche e eu dei uma risadinha pela audácia dele. - Vem comigo. Eu ainda não sei pra onde a gente vai não, tá ligada? Mas a gente vai parar em algum canto.

Júlia: Mas e a minha mãe?

RK: Ela vai entender. Se ela quiser, ela pode vir junto também, sei lá.

Júlia: Não acho que ela vá querer, ela ama esse lugar.

RK: Mas eu não acho que ela vá te proibir de vir comigo. - Assenti. - Vem comigo, Júlia. Pensa em você uma vez na vida. - Ele segurou meu rosto com as duas mãos e aproximou o rosto dele com o meu. - Se tu vir comigo, eu juro que você nunca mais vau precisar se preocupar com nada. Ninguém vai te machucar, a gente vai ter uma vida boa. Eu juro que eu vou fazer meu máximo pra te fazer esquecer de tudo que tu passou.

Nós suspiramos e ele me deu um selinho demorado.

Eu senti meu corpo todo se arrepiar de novo, como se fosse a primeira vez que a gente se beijava. O Henrique me fazia um bem inexplicável, as sensações boas com ele nunca acabavam e eu amava isso. Amava como ele fazia eu me sentir forte e capaz, ele fazia eu me sentir uma mulher que eu nunca soube que eu seria capaz de ser.

RK: Tu vai vir comigo? - Não demorei pra pensar e responder.

Júlia: Vou. - Puxei o rosto dele e finalmente beijei ele da forma que eu tanto tava com saudade.

...

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Por Nós [M]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora