Tempestade

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Já era madrugada quando bati freneticamente na porta do quarto da Marilia. Levou séculos para que ela abrisse.

- Que foi? A barata voltou? – perguntou, os cabelos ligeiramente amassados e bagunçados, os olhos sonolentos.

- Não. Quer jogar xadrez?

- Agora?

- Por que não?

- Maiara, são quase três da manhã! –ela apontou um pouco confusa.

- Eu sei, mas... – o estrondoso ruído seguido pelo brilho assustador ecoou pelas paredes. Estremeci e entrei em seu quarto sem esperar pelo convite. – Podemos fazer outra coisa. Qualquer coisa. Quer ajuda para arrumar seu guarda-roupa?

- Hã... Não, obrigada. Minhas coisas estão bem organizadas. – ela disse, parada ao lado da porta. – E isso não é hora de arrumar nada. O que deu em você?

Eu já estava abrindo portas e gavetas de seu guarda-roupa impecavelmente organizado.

- Nada. Mas deve ter alguma coisa aqui para arrumar. Você não pode ser tão organizada. - o som–grave se repetiu, e o flash brilhante invadiu o quarto. Gritei, dando um salto para a cama da Marilia.

As gotas da tempestade furiosa começaram a açoitar a vidraça, e eu me encolhi sob o lençol ainda quente.

- Você tem medo de trovão? – ela perguntou com um meio sorriso no rosto.

- Medo, eu? – mais um grito de fúria da natureza ressoou. Eu me encolhi como uma bola, cobrindo a cabeça com o lençol.

Ela riu baixinho. Subiu na cama e senti o colchão ceder um pouco sob seu peso. Retirou o lençol da minha cara.

- O que eu posso fazer para te acalmar? – quis saber encostando-se na cabeceira da cama.

- Nada. Eu não tô com medo. Só... Achei que você podia estar entediada.

Ela assentiu pensativa.

- Talvez eu esteja.

- Ah, isso é ótimo! Quer ver um filme ou talvez jogar pôquer? Adoro pôq... Oh, Deus! – o clarão invadiu o quarto novamente, bem como seu estalido ensurdecedor. Agarrei-me ao corpo da Marilia, subindo em seu colo antes que pudesse me dar conta. Minhas mãos estavam frias como gelo.

- Tudo bem. Tudo bem – ela murmurou, uma mão subindo vagarosamente em minhas costas. – Estou aqui.

Fechei os olhos á medida que a tempestade ganhava força e se tornava mais e mais ruidosa. Eu tremia, tentava respirar normalmente e fiz um esforço terrível para não chorar. Eu era uma mulher adulta, pelo amor de Deus!

Marilia me apertou em seus braços. Enterrei meu rosto na curva do seu pescoço e rezei para que aquilo fosse logo embora e eu pudesse parar de tremer.

- O João perguntou por você hoje, quando liguei pra ele – ela contou ainda subindo e descendo a mão em minha coluna.

- Perguntou? – sussurrei de olhos fechados.

- É. Ele adorou você. E isso não é muito comum. O João implicava com todo mundo.

- Também gostei muito dele. Garoto legal.

- É. Ás vezes ele é.

Eu mantinha os olhos fechados e inspirava profundamente, tentando me acalmar. O cheiro da pele da Marilia, já tão familiar, ajuda um pouco.

- Andei pensando – ela continuou – O que você acha de uma lava louças?

- Por quê?

Seus ombros se ergueram num gesto casual.

Procura-se Uma EsposaOnde histórias criam vida. Descubra agora