Perambulei pelo bairro desconhecido por algum tempo. A noite já caíra e eu sabia que deveria voltar para casa, mas não queria enfrentar a Marilia naquele momento. Não tinha forças para isso. Encontrei uma pracinha, dessas com bancos pinchados e a grama tão alta que mais parecia um riacho. Sentei no encosto do banco e apoiei os pés no assento, jogando a bolsa ali. Meu celular tocou mais uma vez. Peguei o aparelho e o encarei. Era a Marilia. De novo. Ignorei a chamada. Não estava pronta ainda.
- O que faz aqui, srta. Maiara?
Virei-me e dei de cara com a ex-secretária da minha avó.
- Inês! – exclamei surpresa – Eu... Desci no ponto errado. Acabei me perdendo.
Ela me avaliou atentamente, de meus olhos inchados a minhas mãos frenéticas, que não paravam de se retorcer.
- Eu moro na próxima quadra. Não quer ir até a minha casa e beber alguma coisa enquanto eu chamo o uber pra você?
- Eu adoraria. Obrigada, Inês. – coloquei-me de pé, jogando a bolsa por sobre o ombro e alcançando uma de suas sacolas de supermercado. – Deixa eu te ajudar com isso.
Ela sorriu e caminhamos caladas até sua casinha, com um lindo jardim na entrada. Por dentro a casa era repleta de detalhes, tapetes e bibelôs infinitos, e um tanto assustadores e flores artificiais. Inês me acomodou no sofá estampado e foi para a cozinha preparar um chá. Olhando em volta, vi diversos retratos dela, em várias épocas da vida. Um homem com um vasto bigode a acompanhava em muitas delas. Não nas mais recentes.
- Meu marido – disse ela suavemente, me fazendo pular no sofá. – Morreu há dez anos, seu chá – me estendeu a xícara. Eu a peguei, provei um pouco e o gosto do rum adormeceu minha língua. Olhei para ela surpresa, que sorriu e se sentou ao meu lado com outra xícara na mão – Achei que poderia ajudar você a se acalmar. Ajudava a sua avó.
- Obrigada, Inês. Era exatamente o que eu precisava.
- O que te deixou nesse estado? – ela perguntou sem rodeios.
Suspirei. De algum modo, eu não achava que pudesse ser coincidência topar com a antiga secretária da vovó num momento como aquele.
- Descobri algumas coisas sobre a Sheron. Coisas ruins – mantive os olhos em minha xícara.
Ela gargalhou tão alto que alguns bibelôs na mesa de centro balançaram.
- Isso nunca seria possível – ela ergueu os óculos para secar algumas lágrimas no canto dos olhos – A Sheron é uma mulher honesta e correta como sua avó era.
- Você está enganada, Inês a Sheron é perversa, sádica, mesquinha e cruel. Coisas que minha avó jamais foi.
Isso fez surgir um pequeno franzido entre suas sobrancelhas.
- Maiara, não sei o que está acontecendo, mas posso garantir que a Sheron é uma mulher íntegra. Sua avó deixou ela a cargo das empresas por confiar cegamente nela.
- Ela também deixou o Simon a cargo da herança. O que me leva a crer que vovó confiava demais nas pessoas e pouco em seu próprio sangue.
- Sabe que isso me incomodou um pouco? – disse ela pousando sua xícara sobre a mesa com delicadeza – Esse testamento não parece coisa da senhora Mercedes.
- Finalmente concordamos em alguma coisa – exalei pesadamente – Não foi ideia dela e sim da Sheron.
- Da Sheron? – ela sacudiu a cabeça – ela nem sabia que sua avó tinha feito aquele testamento. Quando soube do conteúdo do documento, pediu uma reunião com o dr. Simon para entender o que estava acontecendo. Ela achou aquilo um absurdo, até discutiu com o dr. Simon por conta disso.
- Como você sabe disso?
- Eu estava na sala quando aconteceu.
O sinal de alerta voltou a soar na minha cabeça. A luz vermelha piscava incessantemente.
Virei meu chá de uma vez, queimando o esôfago, mas não me importei com isso.
- Fala mais Inês. Me conta o que você viu e ouviu. Desde o começo, por favor.
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Procura-se Uma Esposa
FanfictionMaiara sabe curtir a vida, já viajou o mundo é inconsequente, adora uma balada e é louca por sua avo, uma rica empresária, dona de um patrimônio incalculável é sua única família. Após a morte de sua vó, ela vê sua vida ruir com a abertura do testame...
