Marilia me levou a um barzinho superbacana. Havia pouca gente naquele inicio de noite de segunda-feira, o que achei ótimo. O ambiente era acolhedor, com mesas de madeira e bancos estofados. Havia uma infinidade de plantas na decoração, e a meia-luz e a música ambiente deixavam tudo com um ar mais íntimo. Marilia pediu chope e uma porção de batatas fritas. Eu adorei. Comida de boteco sempre fez minha cabeça. Cerca de uma hora depois, já havia uma pilha considerável de discos de papelão em nossa mesa. Marilia ficava muito falante quando bebia.
- Onde você aprendeu aquela manobra? A Camila parecia sentir muita dor – comentou calmamente.
- Quando se viaja sozinha e sem destino, é importante saber uma ou duas coisinhas, caso apareça algum engraçadinho.
Ela sorriu.
- Você conheceu muitos lugares, imagino.
- Muitos. Eu me sentia livre dessa forma, como se nada me prendesse, mas era apenas.... Um jeito de me colocar á prova. Uma espécie de desafio, eu acho. Eu morria de saudades e acabava voltando pra casa depois de dois meses.
- Saudades da sua avó ou tinha alguém que te prendesse? – me encarava, mas senti o interesse real em seu tom de voz.
- Da minha avó, claro. Ninguém nunca me prendeu. Eu nunca quis ficar em algum lugar por alguém que não fosse à vó Mercedes – até agora.
- Como é isso? Ser livre? – ela tomou um engole sua bebida.
- É... Como se não existisse corpo, apenas alma. Permanecer num lugar por determinado período, depois seguir em frente sem criar raízes... – então me ocorreu que isso não era liberdade. Era falta de algo. Algo que eu procurara e não havia encontrado em nenhum lugar do planeta. Algo precioso que eu encontrava em Marilia, toda vez que ela sorria para mim.
- Parece bom – ela sorriu.
- Na verdade, não. Perdi um tempo precioso que poderia ter passado com a vovó.
Senti uma onda de calor quebrar sobre mim quando ela tocou minha mão e a apertou gentilmente.
Assenti
- Ela era tudo que eu tinha. Toda a minha família. Claro que um pouco de grana seria bom, não vou mentir, não tenho gostado muito dessa condição de... Privações. Mas é dela que eu sinto falta realmente. Era ela que eu queria de volta.
Ela me encarou fixamente, os olhos quentes e moles.
- Acho que você ainda não aceitou a morte da sua avó. Parece que ainda espera que ela volte. – comentou.
Marilia não podia ter acertado mais. Eu esperava a próxima visita da vovó em meus sonhos como uma criança espera a chegada da noite de natal.
- Você tem razão. Eu espero por ela. Sempre vou esperar. Não sei bem como viver sem ela.
- Mas vai ter que aprender – ela comentou com os olhos nos meus – Um dia desses.
Não respondi, desviei o olhar e brinquei, com a mão livre, com o descanso do copo.
- E eu queria que você soubesse que, quando isso acontecer, estarei aqui – ela continuou – Não precisa se sentir sozinha, se não quiser. Você entende o que eu quero dizer, Maiara?
Olhei para ela, para as esmeraldas brilhantes que quase me cegavam.
- Acho que sim – murmurei.
- Entende mesmo? – Marilia insistiu com tanta intensidade que fiquei tonta.
- Hã eu acho que sim, mas agora fiquei na duvida...
Não aguentei e encaixei ambas as mãos no seu queixo eu sabia que ali ninguém iria nos interromper como naquele dia no escritório. Inclinei levemente a cabeça e me aproximei sem pressa. Meus lábios roçaram sua bochecha, depois deslizaram por seu pescoço extremamente cheiroso, fazendo ela estremecer, até alcançar sua orelha. Nós arfávamos alto demais, todas as células do meu corpo vibravam, os arrepios eram incessantes. Eu queria tanto beija-la e que ela correspondesse....
- Eu fiz uma promessa no dia em que nos casamos, Maiara – ela passou as mãos pela minha cintura. Elas são tão macias.... – Uma promessa que não posso quebrar ainda que eu queira desesperadamente fazer isso.
Virei o rosto dela levemente, até que meu nariz encontrou a ponta do seu. Nossos olhares se prenderam, e havia tanto calor em seus olhos que senti como se estivesse derretendo.
- Me beija logo, Marilia – sussurrei.
- Maiara... – ela gemeu e então nos beijamos.
Na boca.
De língua.
Assim que seus lábios finalmente me tocaram, agressivos e macios, uma explosão de cores, luzes e calor me inundou. Senti como se realmente flutuasse, e a única coisa que me mantinha presa ao chão eram seus braços ao meu redor. Eu não estava esperando esse tipo de beijo. Não que eu fosse reclamar longe disso. Eu estava extasiada com a maneira possessiva e urgente como ela explorava minha boca, os dedos se enroscando selvagemente em meus cabelos, como se ela tivesse medo de que eu fosse fugir. Como eu poderia?
Tive minhas suspeitas confirmadas; os lábios da Marilia eram mesmo muito macios (muito mais do que eu me lembrava), contudo eram vorazes, faziam perguntas, exigiam respostas, me apresentavam uma miríade de novas sensações. Era como se eu tivesse tocando uma mulher pela primeira vez. Éramos terna e ao mesmo tempo ferozes, e eu não queria que acabasse. Seus dedos me acariciavam suavemente, e sua língua ágil, macia e úmida, me levava á beira de um precipício, e a queda parecia ser tão prazerosa quanto assustadora. E tudo que eu queria naquele momento era mergulhar de cabeça e encarar o desconhecido.
- Senhoras – chamou alguém. O garçom – Esse tipo de comportamento não é adequado.
Marilia me soltou (cedo muito cedo) e se desvencilhou das minhas mãos.
- Desculpa – disse ela, enquanto minha cabeça girava. – Não vai se repetir.
O homem baixinho nos avaliou por um momento, parecendo não acreditar que eu partilhasse da promessa de bom comportamento (com toda razão eu não partilhava mesmo) por isso me lançou um olhar de advertência antes de se afastar.
- Eu não devia ter feito isso – Marilia murmurou correndo a mão pelos cabelos escuros.
- Devia – objetei, ainda sem fôlego. – Devia sim
- Não, Maiara. Eu não devia. Não posso me aproveitar de você assim. Você esta fragilizada e eu... – ela sacudiu a cabeça atormentada – Desculpa. Você é linda, mas nós agimos sem pensar.
- Adorei te ver agindo sem pensar. Você devia fazer isso com mais frequência.
Mas ela não pareceu me ouvir.
- Temos um acordo que exclui qualquer tipo de contato físico. Você nunca quis isso. Nós nos excedemos. E eu sou uma cretina!
- Acho que você não entendeu, Marilia. Tudo mudou...
- Nada mudou – ela me interrompeu – Acho melhor irmos para casa. Parece que beber ao seu lado não é uma boa ideia. – ela chamou o garçom e pediu a conta.
Ah, ela não ia escapar assim tão fácil...
- Marilia, acho que você não compreendeu o que eu sinto.
Ela fechou os olhos e suspirou, exaurida. Quando os abriu novamente estavam aflitos.
- Vamos fingir que isso nunca aconteceu, esta bem? – mas ela não me olhava nos olhos. Estava fugindo! Oh, Deus! – Eu devia ter me controlado. Você está tão fragilizada, tem tanta coisa acontecendo, vindo de todos os lados...É imperdoável me aproveitar da sua fraqueza. Eu me deixei levar pelo momento. Não vai acontecer outra vez.
- Mas eu adorei! Se aproveita porque eu quero me aproveitar de v...
- Por favor, Maiara – ela suplicou, perturbada – Não torne as coisas mais difíceis. Já é difícil o bastante me controlar sem você me incentivando. Vamos deixar as coisas como estão.
Olhei para ela chocada. Não porque ela recusava a me beijar outra vez (bom por isso também), mas porque queria me beijar e achava que não devia. Ela sente algo por mim! Algo que ela tenta controlar. Algo que a fizera me corresponder daquele jeito, segurar a minha mão e nos beijarmos daquela forma escandalosa quente e urgente, e depois evitar me encarar.
Era algo que eu queria conhecer mais a fundo. Algo que, quem sabe, precisasse de um pequeno empurrão para vir á tona. E eu estava mais que disposta a empurrar.
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Procura-se Uma Esposa
FanfictionMaiara sabe curtir a vida, já viajou o mundo é inconsequente, adora uma balada e é louca por sua avo, uma rica empresária, dona de um patrimônio incalculável é sua única família. Após a morte de sua vó, ela vê sua vida ruir com a abertura do testame...
