Capítulo 27 - Ohm

105 21 1
                                    

Eu fico olhando para o Nanon que está tentando me explicar pela terceira vez a história.
- Nanon, não importa de quantas formas diferentes você diga isso, você é pai do Dew.
- Eu já falei que anjos não tem parentescos. A nossa criação não funciona assim.
- Mas ele foi feito de você?
- Da minha essência.
- E você deveria ter criado ele, ensinado tudo até ele ter idade e maturidade para viver sozinho.
- Eu deveria ter treinado ele.
- Nanon, você é pai do Dew.
Ele suspira frustrado e passa a mão pelo cabelo.
- Se te ajuda a entender melhor assim, que seja.
- Então foi assim que ele nos encontrou, ele foi mandado para você?
- Sim.
- Nós vamos ficar com ele?
Ele olha para o Dew e não responde.
- Ele é sua responsabilidade, Nanon.
Ele suspira mais uma vez e concorda.
- Até eu terminar de treinar, depois vemos o que vamos fazer.
- Você não pode abandonar ele.
- Ohm, leva anos para passar todos os ensinamentos, não é algo que precisamos nos preocupar agora.
Viro para o Dew que nos olha assustado.
- Vem aqui, Anjinho.
Ele vem até mim e senta no meu colo.
- Você está bem? Entendeu tudo que o Nanon contou?
Ele acena uma vez, mas continua assustado.
- Está tudo bem, anjinho, ele é seu pai.
- Eu não sou pai dele, Ohm.
- Ele é o seu pai anjinho, você vai ficar com a gente por muito muito tempo.
- Vou mesmo?
Ele fica esperando o Nanon confirmar e dá pra ver que ele está com medo da resposta.
- Eu já falei que vou te treinar, então você vai ficar com a gente.
O Dew sorri e me olha com aquelas covinhas fofas idênticas as do Nanon.
- Vai lá estudar agora, anjinho.
Ele vai para o quarto e eu seguro a mão do Nanon.
- Você está bem? Não deve ter sido fácil ir para o céu e voltar.
- A única coisa que eu quis desde que cheguei lá foi voltar, Ohm, não importa o lugar, se você não estiver comigo eu não quero estar lá.
Eu fico aliviado e triste ao mesmo tempo, porque a nossa história começou justamente porque ele queria voltar para o céu, mas agora ele está tendo que escolher entre o seu lar e eu.
- Me conta o que mais você descobriu.
- Muita coisa vaga e sem sentido.
Na verdade ele que parece estar sendo vago, conhecendo ele deve ter algo que não quer contar para me proteger.
- E o que nós faremos agora?
- Vamos para outro lugar, ficamos tempos demais aqui e vocês ficaram expostos sozinhos, eu confio no Rael, mesmo assim não quero arriscar.
- Tudo bem, para onde nós vamos?
Ele pensa por um momento, leva a minha mão que ainda segura a sua até a boca e beija.
- Eu já volto.
Ele levanta e desaparece, eu fecho os olhos e tento não me desesperar, mas cada segundo só faz eu lembrar de dor que eu senti esperando ele um dia após o outro sem saber o que tinha acontecido. Se ele imaginasse as várias loucuras que passaram pela minha cabeça para tentar encontrar-lo ele me mataria.
- Cadê o Nanon?
Eu abro os olhos e o Dew está parado na porta do quarto tão nervoso quanto esteve durante a última semana.
- Ele já volta, anjinho, ele foi preparar tudo para partirmos.
Ele anda na minha direção e eu abro os braços, quando senta no meu colo eu abraço ele.
- Ele vai voltar mesmo?
- Vai sim.
Ele fica olhando para a porta como se o Nanon fosse entrar por ela e não se materializar na nossa frente como sempre faz, mas eu também tenho esse hábito, talvez ele tenha aprendido comigo.
- Porque o Nanon não quer ser meu pai, Ohm?
Essa pergunta repentina me surpreende, eu viro ele ainda sentado para olhar pra mim.
- Não é que ele não queira, como anjo ele não consegue ver as coisas como um humano, são apenas pontos de vista diferentes.
- Tinham algumas crianças que eu brincava no céu que sempre contavam sobre os pais delas... Elas sentiam falta deles... Parece algo bom... ter pais.
- Você quer isso?
Ele levanta os ombros e olha para a porta mais uma vez.
- Vamos fazer assim, anjinho, nós seremos os seus pais, eu e o Nanon. O que você acha?
Ele me olha e os seus olhos brilham como duas estrelas.
- Vamos fazer assim, anjinho.
Eu o abraço e esperamos em silêncio até o Nanon voltar, quando ele aparece, levanta a sobrancelha.
- O que aconteceu?
O Dew olha para ele sorrindo.
- Nanon, o Ohm disse que vocês vão ser os meus pais!
O Nanon me olha sério e eu tiro o Dew do meu colo.
- Vai lá arrumar as suas coisas que nós vamos sair.
Ele concorda e sai, eu levanto e abraço o Nanon.
- Vai ser mais fácil quando estivermos em público se ele nos chamar de pai, Nanon e nós não podemos viver presos, temos que viver as nossas vidas independente de toda essa loucura.
- Ohm, eu não quero manter você preso, você sabe que nunca foi minha intenção, mas não é seguro.
- E pelo jeito não vai ser por muito tempo, não dá pra continuar assim, temos que enfrentar o que vier. Não estou dizendo para sair por aí arrumando briga, mas podemos sair como fizemos no Japão e na Austrália, não precisa ser nem local, você pode nos levar para qualquer outro lugar, isso vai até ajudar a despistar, porque se alguém nos ver no Japão, vai ficar nos procurando no Japão e não onde quer que você vai nos levar.
Ele pensa um pouco e concorda.
- Mas não vamos fazer isso todo dia e não vamos ficar mais do que algumas poucas horas.
- OK! Nesse caso, vai ser melhor se o Dew nos chamar de pai.
- Ohm, isso vai acabar te deixando confuso e vai confundir ele também.
- Não se formos pais dele de verdade.
Ele suspira e passa a mão pelo rosto.
- Ohm, anjos não tem pais, eu não sou pai dele!
- Mas ele quer um pai e eu quero ser pai dele.
Ele me encara surpreso.
- Como assim ele quer ter pai?
- Foi o que ele disse.
- Esse querubim tem alguma coisa muito errada!
- Ele é seu filho.
- O que?
- Você também não me parece um anjo normal, ele é assim porque puxou você.
Ele mais uma vez suspira e se afasta.
- Essa conversa não vai chegar a lugar nenhum, vamos pegar as nossas coisas.
- Para onde nós vamos?
- Munnar, fica nas montanhas da Índia.

A lendaOnde histórias criam vida. Descubra agora