Parte 3

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Seis meses antes, Ohm tinha pedido para que seus funcionários limpassem o ateliê da esposa. Ninguém era autorizado a entrar lá há muitos anos, mas eles desconfiavam que o telhado estava com problemas e convenceram Tia Godji a falar com o chefe.

De fato, o dano no telhado era maior do que eles supunham quando entraram, o cheiro era insuportável. O local tinha alagado e secado várias vezes ao longo desse período e os móveis e outras coisas guardadas estavam estragadas e emboloradas pelo tempo.

Muitas das telas e pinturas que sua esposa tinha deixado estavam deterioradas e se esfarelavam quando ele as tocava.

Era um milagre o piano ainda estar inteiro. Ele o tinha tirado da sala da casa principal no segundo ano após o falecimento dela, porque era uma memória dolorosa de ser encarada dia após dia. Ele não tocava e Marie se recusava a aprender, era como se o som e a vida tivessem sumido um pouco de dentro deles.

O piano estava bem embalado e isso o protegeu da umidade.

Na época, ele sentia como se estivesse apagando a memória de sua mulher, mas Tia Godji disse que seria bom para que ele seguisse em frente.

“Não é desta forma que o senhor honra a memória dela. Qual a imagem que você quer preservar da sua esposa, filho?” Com estas palavras Tia Godji o convenceu a desocupar aquela edícula.

“Como eu disse, você pode ficar aqui.” Ohm apontou para a pequena casa ao lado da casa principal.

Nanon reparou que as duas construções eram antigas e a casa menor parecia ter passado por uma reforma recente. As duas casas ficavam acima do nível do terreno, suspensas sobre toras de madeira, como era costume da arquitetura do local. A casa maior tinha dois andares, com telhados pontudos e de beiradas curvas.

A casa menor ficava distante poucos metros e Nanon pensou que não saberia o que fazer com tanto espaço, afinal, durante toda sua vida, ele morou dentro de trailers, em carroças, nas épocas mais difíceis, e em um pequeno quarto de pensão, que dividia com um amigo, na época da faculdade.

“O espaço é pequeno” Ohm abriu a porta e eles entraram “Vou pedir para o encarregado trazer um colchão e um mosquiteiro para cá. O encanamento é precário, então você pode usar a cisterna para pegar água. O banheiro fica ali e você pode esquentar água, se precisar, neste fogão. A lenha fica no galpão que te mostrei quando chegamos.”

Nanon olhava para cima, a casa era tão grande, ele não estava habituado a morar em um local onde sua mão não tocava o teto. Ele sentiu seu coração disparar, inseguro sobre suas qualidades para estar ali. Isso era muito mais do que ele tinha sonhado em toda sua vida. Nanon inspirou profundamente e soltou o ar tentando se acalmar, na verdade, há muito tempo ele já não sonhava mais, somente sobrevivia.

“Há quanto tempo sua esposa morreu?” Nanon estava curioso sobre isso há algum tempo.

“Como você sabe que ela morreu?” Ohm não gostava de falar sobre isso com estranhos, mas a pergunta dele vinda de maneira tão aleatória e espontânea o pegou desprevenido.

Nanon achou engraçada a reação de surpresa de Ohm e teve que se conter para não rir, afinal não seria um comportamento educado ao ter esse tipo de conversa.

“Você foi ao circo três vezes e sua esposa não o acompanhou em nenhuma delas. Você… o senhor… é… sabe… bonito e rico demais para ter sido abandonado. O senhor disse que só havia espaço para sua filha em seu coração, então, eu pensei que essa era a única possibilidade.”

“Talvez eu não tenha errado em contratá-lo.” Ohm disse, sobressaltado, tentando esconder seu constrangimento pelo elogio que fez indiretamente “Ela morreu há sete anos.”

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