Parte 29

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Depois que alguns caminhos são abertos, fica difícil ignorá-los. A noite chuvosa após a aula foi a primeira de muitas que Nanon passou a dormir na casa de Ohm. Não havia necessidade de criar subterfúgios, desculpas ou mentiras. O senhor da casa dizia para ele ficar e ninguém contestava.

Não havia suspeitas sobre esse comportamento, afinal, para Irin e Marie, ambos eram bons amigos e, por mais que o ateliê fosse próximo, ainda era arriscado encontrar algum animal peçonhento no caminho escuro. Este era um risco desnecessário, além disso, Nanon era extremamente respeitoso com as mulheres e Irin não se sentia incomodada com ele.

Na opinião de Marie, tio Nanon poderia se mudar para a casa, afinal todas as vezes que ele ficava lá, ela podia dormir mais tarde e eles se divertiam na aula de piano.

Depois disso, Ohm passou a convidar Nanon para que viesse estudar com Marie. Irin vinha uma vez por semana e Ohm dizia que a filha precisava aumentar a frequência dos estudos.

No começo, a garota até achou que seria uma boa ideia, mas tio Nanon agia como professor e a cobrava das lições passadas por tia Irin e isso era cansativo. Ela nem gostava tanto assim de tocar piano.

“Eu estou tão cansada hoje, tio!” Marie passou a dizer “Eu prometo que faço os exercícios amanhã. Meu pai não vai se importar se você ficar estudando!” Ela sorria com inocência e Nanon sempre ruborizava.

Em uma dessas ocasiões,  Ohm quis levá-lo para o seu quarto, porém Nanon negou, porque, na sua opinião,   seria estranho dormir com um homem na mesma cama em que ele dormiu com a ex-esposa.

“O quarto de hóspedes é mais adequado para mim!”

Essa era a fala comum de Nanon. Ele não sabia categorizar o que eles tinham e nem queria abrir mão disso. Ser um hóspede, alguém de passagem pela vida de Ohm, era mais do que ele poderia sonhar.

Ele queria acreditar que estava sendo bobo, que o relacionamento dele e de Ohm, seja lá qual fosse, era verdadeiro, contudo ainda existia aquela voz irritante que ficava o tempo todo dizendo que ele não deveria se envolver, não deveria se deixar levar por uma paixão que estava fadada ao fracasso.

Sua decisão era deixar para sofrer quando Ohm arranjasse uma esposa. Por hora, ele aproveitaria o momento.

E naquela manhã, Nanon acordou com os indícios de que o sol estava para nascer e, embora soubesse que Ohm deveria ter voltado para o seu quarto, ele sentia uma felicidade imensa crescer em seu peito ao ver que Ohm ressonava baixinho e metade do corpo dele estava deitado sobre o seu. Nanon tirou os cabelos que caíam sobre o rosto dele e o sorriso de Ohm apareceu antes de seus olhos abrirem.

“Bom dia!” Ohm falou, preguiçoso e manhoso, se encolhendo e se espremendo mais perto do corpo de Nanon.

“Bom dia!” Nanon deu um beijo no topo da cabeça dele e Ohm deu uma risadinha sonolenta.

Eles ficaram deitados por mais um tempo em silêncio. Nanon acariciou o braço de Ohm caído sobre seu peito e Ohm o cheirava de tempos em tempos e sorria.

Quando ele se levantou, a cama ficou irritantemente fria.

“Você quer correr comigo?” Ohm perguntou ao vestir a calça do pijama.

“Não!” Nanon franziu o nariz, enojado pela proposta.

Ohm riu por causa da cara de desgosto de Nanon e se jogou sobre seu corpo ainda nu, deitado na cama. Nanon tentava se desvencilhar das cócegas e beijos que eram espalhados em seu rosto, garganta e barriga.

“Mudou de ideia?” Ohm sentou na beirada da cama e segurou a mão de Nanon.

“Você quer que eu vá?” Nanon falou  e seu rosto retratava perfeitamente sua dor e sofrimento.

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