Parte 4

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Geralmente, não era este o percurso que Ohm costumava fazer; em suas corridas de todas as manhãs, ele nunca passava pelo ateliê. No começo, a lembrança da esposa na janela, sorrindo para ele, era devastadora. Depois de um tempo, ele não conseguia mais lembrar de como ela costumava ficar, de como era seu sorriso quando acenava, nem de como seus cabelos balançavam com o vento e isso foi ainda pior.

Ela tinha optado por passar as noites lá quando sua doença ficou mais agressiva e dizia que pintar a acalmava, mas suas dores eram tão fortes, que várias vezes Ohm a ouviu gritar. Ela não aceitava que o marido  entrasse ali, por isso ele corria em volta da residência para se sentir perto dela e poder sondá-la.

Quando ele se vestiu naquela manhã, Ohm agia no automático e, ao pisar no gramado em frente a casa, olhou em direção ao ateliê.

Ele tinha mudado a cor e o formato do telhado, não era mais a casa onde a esposa tinha morrido. Agora era um lugar diferente e tinha um desconhecido ocupando o espaço. Ele começou a fazer seu trajeto usual, indo em direção ao estábulo, andando cada vez mais rápido, se culpando por ter agido por instinto e colocado um estranho dentro da sua propriedade. Os pés de Ohm batiam forte contra o chão conforme sua corrida ficava mais intensa.

Sua filha tinha treze anos e Ohm não deveria ter sido tão imprudente, ainda mais pela forma como ela se comportava perto de Nanon. Não, Marie era inteligente e não faria nada que a desonrasse.

Nanon era charmoso, era óbvio que ela se encantaria por ele, mas isso era passageiro. Além disso, ele parecia ser um bom rapaz.

Ohm fechou os punhos, irritado. Como ele pôde ser tão leviano? Quais informações ele tinha a respeito deste garoto? Rapaz? Homem! Nanon não parecia muito mais novo do que ele. Ohm se esforçava para lembrar o que ele havia dito: Ele cursou dois anos de faculdade, depois voltou para ficar com os pais e cuidou da mãe doente por cinco anos e então assumiu o circo. Provavelmente ele tinha menos de 30 anos. Ohm tinha 34, faria 35 anos em poucos meses e se considerava jovem ainda. Sim, ele não era muito mais velho que Nanon.

“Por que você está fazendo contas?” Ohm se recriminou em voz alta.

Ele viu Nanon debruçado na janela e balançou a cabeça ao ver o cigarro em sua mão. Em que momento ele tinha desviado de rota e tomado aquele caminho? Ele não olhou de lado e seguiu em frente. Será que ele o tinha visto? Ohm contornou a casa maior e desceu novamente em direção ao ateliê.

Nanon continuava na janela e já não segurava mais o cigarro e Ohm sorriu satisfeito e ergueu um pouco a manga da camiseta. As pessoas do seu convívio mais íntimo costumavam dizer que ele tinha ombros bonitos e definidos.

Estava um pouco mais quente nessa manhã, não estava? A chuva, que ele tinha pensado que viria na noite anterior, não apareceu e o tempo tinha ficado  mais abafado e úmido. Pelo menos essa era sua impressão, visto que ele suava mais do que o habitual.

Na terceira volta, ele acenou para ter certeza de que Nanon o via. Após o aceno em retorno, Ohm voltou para casa e foi tomar banho.

“De novo!! Faz de novo!!”

Ohm ouviu a filha gritar no andar debaixo e se sentiu feliz pela alegria em sua voz. Ao entrar na sala, Ohm viu Nanon agachado e movia uma moeda entre os dedos. Marie observava a moeda sumir de uma mão e aparecer na outra e o aplaudiu junto com Tia Godji. As duas estavam visivelmente encantadas. Ele era bem melhor do que o Mágico do seu antigo circo.

“Bom dia!” Ele disse sério.

Nanon, que estava com um joelho apoiado no chão, se levantou e o saudou.

“Bom dia, senhor!”

Ohm sorriu ao ouvi-lo nesse tom subserviente.

“Você já está pronta para ir ao colégio, meu amor?” Ohm afagou a cabeça da filha, que acenou dizendo que sim “Você já tomou café da manhã?”

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