10 de Janeiro, 2015.
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O Morro do Recente agora era de Jeremias, mas ninguém o chamava de "dono" como antes chamavam Zayn. A favela ainda sussurrava o nome do antigo chefe, como se ele fosse um fantasma assombrando as vielas que ele conhecia melhor do que qualquer um. Só que agora, o medo tinha outro rosto.
Jeremias sabia que não bastava ter o título – ele precisava do respeito. Mas respeito não se impõe com gritos, e ele nunca foi burro o bastante para achar que seria amado como o Carioca era. Então, onde não havia amor, ele plantou pavor.
O som de tiros à queima-roupa passou a ser o despertador da comunidade. O choro de mãe virando viúva antes dos 40 se tornou trilha sonora da noite. Menino sumindo, boca sendo queimada, corpo amanhecendo estirado na ladeira. Jeremias não queria que gostassem dele. Ele queria que ninguém ousasse desafiá-lo.
E era por isso que Pedro não saía mais de casa.
— Filho, você não pisa mais lá fora. — A voz da mãe dele era baixa, mas cortante. Mãos trêmulas apertavam o crucifixo no pescoço, como se a fé dela ainda pudesse protegê-los de algo. — Já me levaram dois. Dois, Pedro. Eu não enterro mais ninguém.
Pedro não respondeu. Só olhava para o canto da sala, onde ainda estavam os chinelos do Benê, intocados. O irmão mais velho, o mais esperto, o mais querido. O que sabia de tudo, que andava pelo morro como se cada viela fosse extensão do próprio corpo. O homem que, se a história tivesse sido diferente, estaria no lugar de Zayn.
Mas Benê morreu. E com ele, morreu a única ponte entre o passado e o presente.
Ou quase.
Pedro sabia. Sabia o que Benê sabia. Sabia as rotas, os esconderijos, os nomes e os apelidos. Sabia onde o dinheiro dormia e onde os corpos sumiam. Ele cresceu ouvindo Benê contar tudo, achando que era só uma brincadeira de irmãos, um jeito de se sentir grande antes da hora. Mas agora, aquelas histórias eram muito mais do que histórias. Eram peças de um tabuleiro que Jeremias ainda não sabia jogar.
E Jeremias sabia que existia alguém que sabia.
— Eles tão perguntando. — A voz do rapaz do beco, um qualquer que ninguém lembrava o nome, veio baixinha, carregada de receio. Ele encostou perto da janela da casa de Pedro, mas não ousou entrar. — O Jeremias, os cara dele... tão perguntando quem sabia das coisas antes. Quem era o rabo de foguete do Benê.
Pedro sentiu um frio na espinha.
— E aí? Alguém falou?
— Não ainda. Mas vai falar. Tu sabe que vai.
Porque no tempo do Zayn, o silêncio valia mais do que o ouro. Mas no tempo do Jeremias, a única coisa que comprava a vida era a entrega.
Pedro não queria sair de casa. Mas, mais do que isso, ele não queria que Jeremias soubesse que ele era a peça que faltava no quebra-cabeça.
Jeremias não conseguia controlar a favela com amor, então ele estava tentando governar pelo terror.
Pela primeira vez, o Morro do Recente não parecia mais ter dono. Parecia um bicho ferido, se debatendo, esperando para ver quem seria o próximo a sangrar.
O barraco que Jeremias usava como quartel-general estava um inferno. A lâmpada amarelada piscava, os ventiladores mal conseguiam empurrar o ar quente, e os copos de cachaça na mesa tremiam cada vez que ele batia os punhos no tampo de madeira.
— Cadê esse caralho de resposta, porra?! — A voz dele ecoou pela casa, atingindo em cheio os capangas que estavam na sala.
Jeremias andava de um lado para o outro, os olhos fervendo de raiva, os nervos em frangalhos.
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Faroeste Caboclo L.S
Fanfiction"Se estiver passando pelo inferno, continue andando." - Winston Churchi Inspirado na obra original do Legião Urbana. Passar pelo inferno é o que Louis Tomlinson enfrentou por toda sua vida, com a hostilidade e o destino traçado. As coisas mudam qu...
