Dias seguintes - 2015
Nos primeiros dias, Jeremias aparecia sempre no fim da tarde.
Trazia comida embrulhada num pano limpo, garrafas de água fresca e, às vezes, cigarros que ele mesmo enrolava, com um cuidado quase cerimonial. Harry não falava muito no início — o corpo retraído num canto da sala, olhos pesados, a barba crescendo sem forma. O silêncio entre eles era uma parede densa, mas Jeremias sabia esperar.
Ficava sentado perto da porta, como se respeitasse uma linha invisível que delimitava o espaço de cada um. Contava histórias curtas, falava do clima, de notícias aleatórias que ele dizia ter ouvido na rua. Às vezes, soltava informações soltas sobre o Louis.
— Dizem que viram ele em São Sebastião. Com um cara que parecia policial, mas sem farda. Só estavam de passagem. Talvez seja mentira, né? — ele dizia, sem olhar diretamente.
Essas palavras, mesmo sem certeza, plantavam raízes dentro do Harry. Por mais que tentasse manter a desconfiança viva, havia algo na maneira calma de Jeremias que o desmontava aos poucos.
No começo da segunda semana, Harry passou a aceitar a comida sem reclamar. Na terceira, perguntou se podia ajudar a limpar o espaço. E quando completou um mês, foi ele quem perguntou:
— Você acha que ele ainda pensa em mim?
Jeremias não respondeu de imediato. Olhou pro chão, depois pro Harry, e disse:
— Eu acho que tem coisas que a gente nunca esquece. Só aprende a calar.
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Os dias viraram semanas. As semanas, meses. E com o tempo, o espaço entre eles se encurtou. Jeremias começou a trazer livros, e deixava que Harry escolhesse o que queria ouvir quando ele colocava músicas baixas num radinho velho de pilha.
Passavam longas tardes conversando. Falavam de música, de infância, de medos que eles não tinham coragem de admitir nem pra eles mesmos. A dor em Harry ainda estava lá, mas agora dividida com alguém.
E foi numa noite comum, sem nada especial, que Harry percebeu que fazia dois dias que não sonhava com Louis.
Ele não soube dizer se aquilo era bom ou ruim.
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Estavam sentados lado a lado, dividindo um prato de arroz com frango desfiado. A janela pequena deixava entrar um pouco da luz alaranjada do fim de tarde.
— Sabe, Jer... às vezes eu penso que talvez eu não precise mais ficar aqui. — Harry disse, sem encarar o outro. — Eu tenho dinheiro. Não muito, mas o suficiente. Podia ir pra outro lugar. Mudar meu nome. Recomeçar... sozinho, talvez.
Jeremias soltou o garfo devagar, limpando os dedos num pano de prato.
— Tá cansado de esperar, né?
Harry assentiu, sem muita força.
— Não é nem isso. É que eu... eu acho que ele não vem. E eu não quero mais viver como um fantasma.
Jeremias olhou pra ele por alguns segundos. O olhar tinha algo suave, mas indecifrável.
— Você tem todo direito de querer isso. De ir. De viver. O que fizeram com você... não te prende mais.
— Você fala como se eu tivesse escolha.
— Tem. E se quiser, eu te ajudo.
Harry virou pra ele, surpreso.
— Você ajudaria?
Jeremias sorriu. Foi um sorriso curto, quase contido, mas sincero.
— Claro. Você não merece apodrecer aqui. E... se for embora, quero que vá bem. Que seja feliz.
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Faroeste Caboclo L.S
Fanfiction"Se estiver passando pelo inferno, continue andando." - Winston Churchi Inspirado na obra original do Legião Urbana. Passar pelo inferno é o que Louis Tomlinson enfrentou por toda sua vida, com a hostilidade e o destino traçado. As coisas mudam qu...
