A redenção - ato |
O cheiro de sangue seco misturado à umidade do mofo era a única coisa viva naquele galpão. Tudo o resto parecia morto — o ar, o tempo, os dois corpos amarrados em cadeiras no centro de um cômodo escuro e sufocante. Harry respirava com dificuldade. O peito subia e descia em espasmos, como se estivesse tentando se manter dentro do corpo à força.
Louis acordou primeiro. Os olhos tentaram se abrir, mas a dor o impediu. Sentia os músculos rasgados, a mandíbula latejando, e um gosto metálico na boca. Uma dor fria cortava sua costela esquerda, como se tivessem deixado um prego ali. Ele mal conseguia pensar, mas reconheceu o som do outro corpo respirando atrás dele.
O corpo de Harry.
Louis ficou em silêncio. Ele se manteve assim por minutos, talvez horas. O tempo ali era uma entidade que não respeitava lógica. Mas ele sabia — pelo modo como Harry respirava, pela fraqueza no som — que ele tava por um fio. Um nada.
E mesmo assim, mesmo com o coração em frangalhos, com a carne aberta, com a alma sangrando pela imagem do que tinha visto — Harry e Jeremias, juntos, cúmplices —, ele não conseguiu pensar em mais nada. Só queria ouvir a voz dele. Só queria saber se ele ainda tava vivo.
Harry acordou pouco depois. Um movimento sutil, um gemido preso na garganta. Ele não conseguia falar de imediato. A dor vinha em ondas tão fortes que quase o afogavam. Mas ele sentia o corpo quente atrás dele. Louis. Estava ali. Ainda estava ali.
Eles não disseram nada.
Ficaram em silêncio, como dois condenados na antessala do inferno. Não tinham luz, não tinham certeza de nada, não tinham nem ódio o suficiente que os fizesse esquecer a dor. Só uma fresta mínima de luz entrava por entre as ripas de madeira do teto, como se o mundo tivesse sido desligado.
Então, finalmente, Harry falou. A voz arrastada, baixa, quase uma súplica:
— Você não vai falar comigo?
Louis apertou os olhos e engoliu seco. O corpo dele inteiro gritava. Mas o que doía mais era a alma.
— Você tava dormindo com o diabo.
A frase saiu como veneno. Crua. Sem explicação, sem rodeio. Harry virou um pouco o rosto, tentando entender se aquilo era real.
— Você acha mesmo que eu sabia quem ele era?
— Você tava com ele — Louis respondeu, seco. — Tava na cama com ele enquanto eu morria por você. Enquanto eu fazia o inferno inteiro virar de cabeça pra baixo pra te encontrar.
Harry respirou fundo. A dor fez ele tremer inteiro. Mas mesmo assim, respondeu:
— Eu tava te esperando.
— Eu morri mil vezes pra chegar até aqui — Louis respondeu, com os dentes cerrados.
A tensão se estalava no ar, como se cada palavra dita fosse uma nova ferida.
— Isso não é problema meu! — Harry explodiu, com a voz quebrada em raiva e desespero. — Você foi embora! Você foi pagar suas dívidas! Você foi atrás dos seus contatos, das suas bancas, das suas merdas! E eu fiquei aqui! Eu fiquei aqui, Louis! Me fodendo, apanhando, preso! Eram suas dívidas!
Louis fechou os olhos. O grito ecoava no galpão, mas não doía mais do que o silêncio entre eles.
— Eu não vou discutir com você agora — ele disse, respirando fundo, com a voz embargada. — Não no nosso leito de morte.
Um passo ecoou.
Depois outro.
Sapatos batendo no chão sujo como um relógio do destino. Passos que traziam uma sombra conhecida, um nome que já vinha sujo antes mesmo de ser dito.
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Faroeste Caboclo L.S
Fanfiction"Se estiver passando pelo inferno, continue andando." - Winston Churchi Inspirado na obra original do Legião Urbana. Passar pelo inferno é o que Louis Tomlinson enfrentou por toda sua vida, com a hostilidade e o destino traçado. As coisas mudam qu...
