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22 de fevereiro de 2015.

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Jeremias nunca pensou que cairia tão rápido.

Por anos, ele construiu seu domínio, teceu alianças, espalhou o terror e manipulou o tabuleiro para que tudo girasse ao seu favor. Ele organizou toda a roconha, fez todo mundo dançar, fez o morro entrar em guerra. Pensou em tudo. Fez as facções acabarem com a paz, deu instruções para que Pedro fosse sequestrado. Ele organizou tudo. Cada detalhe dos últimos acontecimentos ele havia orquestrado. O tabuleiro era dele. Ele se achava intocável.

Cada morte, cada traição, cada pedaço de chão conquistado o fazia acreditar que sua soberania nunca seria questionada. Mas ali, caído no chão imundo da favela que tentou tomar, sentiu o gosto amargo da sua própria insignificância.

O tiro doeu, mas não tanto quanto a humilhação.

Seu corpo gritava em agonia, mas sua mente gritava ainda mais alto. Como? Como tinha chegado a isso? Ele, Jeremias, o estrategista, o comandante, reduzido a um pedaço de carne ensanguentado no chão? Não conseguia aceitar. Não conseguia processar. Seu próprio sangue se misturava à terra batida, e a fumaça dos tiros ainda pairava no ar.

Pedro.

Aquele moleque maldito. Afilhado de Louis no crime.

O garoto que ele caçou com tanta fúria, que ele quis esmagar antes que se tornasse um problema, não só sobreviveu como se tornou maior do que ele. Pedro não hesitou, não titubeou. Não precisou de discursos, não precisou de ameaças. Apenas atirou.

E os irmãos viram.

E os irmãos entenderam.

Jeremias percebeu o silêncio ao seu redor. Não havia revolta. Não havia ninguém gritando por vingança. Os homens que antes o temiam agora apenas olhavam, impassíveis, como se já tivessem aceitado seu destino antes mesmo dele perceber que estava derrotado.

O poder nunca esteve com Jeremias. Nunca esteve com um só homem. O crime não tinha dono. O crime só servia a quem mostrava força. E, naquele momento, Pedro se provou mais forte do que ele. Mesmo sendo menor e mais novo.

Jeremias foi deixado para morrer.

O ardor na perna era insuportável, a bala alojada pulsava como se tivesse vida própria, enviando ondas de dor que reverberavam por todo o seu corpo. Mas nada doía tanto quanto o ódio.

Um ódio que queimava como lava, que o corroía de dentro para fora.

Louis.

Era tudo culpa dele.

O rosto dela voltou à sua mente como uma maldição. A mulher que ele amou, que ele desejou com um fervor doentio, que ele nunca aceitou perder. Ela estava morta. Morta. E ele sabia exatamente quem tinha que pagar por isso.

Louis ia pagar.

Ia sofrer. Ia perder tudo.

Mas primeiro, Jeremias precisava se recompor.

Seu último capanga, o único que ainda o seguia, o arrastou para longe do morro. Foram horas de fuga, sangue pingando pelo caminho, um silêncio sufocante acompanhando cada passo. Ele perdeu a noção de tempo até que sentiu o chão duro sob suas costas e o cheiro de mofo invadindo suas narinas. Um esconderijo sujo, um buraco qualquer, onde passou dois dias oscilando entre delírio e rancor.

A infecção na perna se espalhava rápido. O ferimento pulsava com uma febre que fazia sua visão oscilar, e ele sabia que, se não tratasse logo, talvez nem tivesse chance de vingança. Mas não podia se render. Ele não ia se render.

Faroeste Caboclo L.SHistórias para pegar e não largar. Descubra agora