O inferno ato ||
O cheiro de sangue seco se misturava ao couro rasgado do banco do carro, mas Louis mal sentia. A mão esquerda jorrava em pulsos espaçados, como se até seu corpo estivesse cansado de lutar por sobrevivência. O corte atravessava a palma inteira, profundo, até onde a lâmina de vidro da vitrine da joalheria o alcançara. A pele estava roxa, rasgada, pontilhada por lascas de dor que pareciam queimar sob a roupa encharcada de suor e feridas. Tinha cortes nos braços, nas costelas, nas costas, nos joelhos — cortes demais pra contar. Ele se mexia devagar, como se cada movimento exigisse uma negociação com o próprio corpo, como se tudo nele tivesse sido gasto até o fim.
O rosto estava inchado. Um dos olhos quase não abria, o outro via embaçado. Tinha um talho no canto da boca, como se um canivete tivesse tentado apagar o sorriso que ele já não usava mais. O maxilar latejava, um dente do fundo balançava, e a garganta doía por gritar demais, por se engasgar no próprio sangue, por não dizer nada. O mundo ao redor parecia distante. O barulho do motor, o ronco do carro, o farfalhar da roupa colada ao corpo — tudo ecoava como se ele estivesse dentro de um aquário sujo, soterrado no próprio silêncio.
Mas por dentro, o grito ainda estava lá.
Ele havia conseguido. Todas as dívidas estavam pagas. Finalmente, todas. O morro, os contatos, os becos que juraram matá-lo, os nomes que ele devia calar, os homens que ele jurou nunca encarar de novo — tudo tinha sido quitado à bala, à faca, à alma.
Mas não era o fim.
Não ainda.
Tinha uma última coisa.
Os papéis.
Eles estavam onde tudo começou, onde a vida que ele tinha foi enterrada atrás das grades. Na cadeia. Os documentos que poderiam virar o jogo com Azoth, os registros que ligavam ele ao lesado, a chave de tudo. Aquilo ainda estava lá, guardado, sujo, escondido onde ele jurou nunca mais voltar. Mas ele sabia. Sabia que era necessário. Que era agora ou nunca. E ele não ia morrer devendo mais nada pra ninguém.
Antes, no entanto... antes, ele precisava ver o Harry.
Precisava encarar aquele olhar de novo, ver se ainda restava alguma coisa ali. Precisava saber se ele ainda era alguém ou só mais uma cicatriz nos olhos do Harry.
Ele se despediu do Lucas no escuro do estacionamento de um posto em São Paulo. Lucas ainda tentou convencê-lo a parar, a cuidar dos ferimentos, a esperar pelo menos até o sol nascer. Mas Louis não respondeu. Só jogou a mochila ensanguentada no banco de trás, apertou o curativo improvisado no punho e entrou no carro.
Lucas segurou a porta, firme, o olhar grave, mas resignado.
— Você não vai voltar igual, Louie. Lá vai mexer com coisa que você enterrou. Tem certeza?
Louis soltou uma risada vazia, um sopro de ar que doía até no peito.
— Enterrar nunca adiantou nada. A merda sempre volta com cheiro pior.
E girou a chave.
A estrada de São Paulo até Brasília foi longa, seca, silenciosa. Ele não parou pra comer, não atendeu o celular, não ligou o rádio. Só abasteceu duas vezes e seguiu. Os faróis recortavam a madrugada como navalhas, e o volante parecia escapar das mãos suadas, doloridas, machucadas demais pra segurar qualquer coisa por muito tempo.
Mas ele segurava. Porque ainda restava uma coisa a fazer. E um amor que ele precisava encarar, pela última vez, ou pela primeira de verdade.
As luzes de Brasília surgiram no horizonte como brasas numa noite morta. Era como se a cidade estivesse esperando por ele — silenciosa, imóvel, com seus postes amarelados e seus prédios frios, iguais a quando ele chegou pela primeira vez, anos atrás, carregando um corpo cansado e uma alma ainda mais perdida.
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Faroeste Caboclo L.S
Fanfiction"Se estiver passando pelo inferno, continue andando." - Winston Churchi Inspirado na obra original do Legião Urbana. Passar pelo inferno é o que Louis Tomlinson enfrentou por toda sua vida, com a hostilidade e o destino traçado. As coisas mudam qu...
