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04 de fevereiro de 2015.

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A favela estava em silêncio, um silêncio carregado, não um silêncio natural. Aquelas ruas que costumavam gritar pela vida, pelos sons de risadas, brigas, gritos de crianças e o som das batidas dos tambores nas esquinas, estavam paradas. Era como se o próprio morro sentisse a tensão no ar. O ar estava denso, pesado. As bocas de fumo estavam vazias, os becos normalmente movimentados estavam desabitados. O único som era o de passos apressados e ecos distantes.

Pedro sabia o que significava aquele silêncio.

A notícia chegou até ele com a frieza de uma faca cortando sua carne. O telefone tocou e, do outro lado da linha, a voz grave do soldado foi direta e seca:

— Jeremias pegou tua mãe. Se tu não se apresentar, ele mata ela.

Pedro não sentiu o medo imediatamente. O medo vinha depois, como uma sombra que se arrasta silenciosamente até alcançar a sua mente. Mas naquele momento, o que ele sentiu foi um vazio. O tipo de vazio que engole o estômago, faz os pés tremerem, mas ainda assim te faz seguir em frente. Ele sabia que não podia esperar mais. Sabia que a favela estava assistindo, esperando alguma coisa dele, qualquer coisa.

Pedro não era mais o menino que corria pelas vielas com Benê ao lado, jogando futebol com os amigos. Não era o moleque que vendia doce na esquina e que ria do próprio reflexo nas poças de água. Agora, ele era a última esperança, o único nome que os moradores do morro sussurravam quando o medo tomava conta. Ele já sabia que não tinha mais como voltar atrás. O futuro não era mais algo incerto. Ele já tinha se tornado a chave da favela. E, como sempre, ninguém mais seria capaz de tomar seu lugar.

Pedro sentou-se na velha cadeira de madeira, dentro da casa de seu irmão. O cheiro de fumaça impregnado nas paredes, as manchas de sangue secas no chão — ele ainda se lembrava daquele dia. O rosto de Benê, o corpo caído, o sangue misturado com o barro, o cheiro de pólvora no ar. E a dor. Uma dor que não se dissipava, uma dor que sempre esteve ali, como uma sombra que nunca se afastava.

Os soldados estavam todos ao redor, deitados, com as armas descansando ao lado, mas todos os olhos estavam fixos nele. Eles esperavam. Eles já sabiam o que estava por vir.

Pedro olhou para cada um deles. O rosto deles estava cansado, marcado pela violência dos anos. Mas ele sabia que, por mais que tivessem sido guerreiros, não poderiam mais tomar as decisões que precisavam ser tomadas. Não como Benê fazia. Benê era o braço direito de Zayn, e Zayn, o grande chefe, o que todos vangloriavam. Mas Benê... Benê era quem segurava tudo. Ele era quem decidia os rumos.

Pedro fechou os olhos por um momento. O peso do nome que ele carregava sempre o fizera hesitar. Ele sabia que o morro precisava dele, mas também sabia o que isso significava. Ele não era o chefe. Ele não tinha feito nada para ser. Era apenas o irmão mais novo, o garoto que brincava nas ruas. Mas o que mais restava para a favela senão ele?

Ele respirou fundo e, com uma calma tensa, disse:

— Eu vou me entregar.

Os soldados reagiram instantaneamente. Eles se levantaram, alguns foram até ele, outros olharam uns para os outros, com medo, com relutância.

— Não vai. Não faz isso. — A voz de um dos mais velhos foi um grito abafado. — Você é nosso futuro, Pedro. Não pode fazer isso.

Pedro olhou para ele, com os olhos carregados de um peso que não estava mais suportando.

— Se eu não for, minha mãe vai morrer. E todos vocês sabem que eu não posso deixar isso acontecer. — Ele falou com firmeza. — Eu sou a única opção que sobra.

Faroeste Caboclo L.SHistórias para pegar e não largar. Descubra agora