Capítulo 2 - Bryan

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Bryan - Preconceito

O flash brilhante e a luz branca era tudo o que Bryan lembrava. Mesmo com o improviso de seu último show ontem a noite, ele foi um sucesso. Todos lhe aplaudiram de pé e lhe aclamaram: Ginger Fox! Ginger Fox! Ginger Fox! As palavras ainda pareciam ressoar em sua mente. Porém todo o poder e glória acabaram, cedo demais, pensou ele.

Mais uma jornada se iniciava hoje.

Bryan já estava de pé e se arrumava, tentando tornar-se o máximo possível um homem, simples garoto de Nova Iorque para trabalhar. Aceitável aos padrões da sociedade. E é claro que Bryan não se oprimia ou se deixava levar, mas ele tinha que sobreviver de alguma maneira e só as apresentações lhe garantiam um extra, além do trabalho para viver em um apartamento, mesmo pequeno.

Trancou a porta e saiu, seus sapatos AllStar e o jeans surrado, uma camisa qualquer e uma camisa de flanela por cima. Andou os quatro quarteirões como sempre fazia e sendo gentil e alegre com todos os conhecidos, cumprimentando-os e conversando. E lá estava ele atrasado para o trabalho. Abriu a porta do restaurante, correu direto para o armário, colocou um avental, protegeu os cabelos e trabalhou.

–  Bom dia, Luce –  exclamou ele e olhou para saber como ela reagia.

–  Oi –  respondeu ela de mau-humor e Bryan sorriu.

–  Sabia, sabia que você não resistiria, eu sou irresistível! Mas eu sinto muito pelo que eu te falei ontem, muito mesmo –  afirmou ele enquanto pegava pratos e colocava sobre o balcão.

–  Não resisto, mas sabe que nem sempre é legal, não é? Quero dizer você magoa as pessoas e pede desculpas achando que vai ficar tudo bem, mas não fica Bryan. Não fica.

Ela olhou para ele e ele abaixou a cabeça. Não havia o que responder.

–  Eu sei, vou consertar, prometo! –  ele sorriu e Luce não resistiu sorriu também.

O sino da porta indicou a chegada de clientes e os dois, Luce e Bryan levantaram os olhos e viram três garotos entrarem e se sentarem.

–  Vai lá, atendê-los! Hora de trabalhar –  Bryan assentiu e pomposamente saiu detrás do balcão com os menus na não. Se aproximou dos garotos e percebeu os risos contidos.

–  Bom dia, o que vão querer? –  perguntou ele.

–  Nós vamos querer três refrigerantes e o lanche da casa, oh frutinha –  falou um dos três, garotos vestidos de jaquetas e bonés.

–  Certo? Mais alguma coisa? –  ignorou o comentário e se manteve forte.

–  Não, por enquanto é só, viadinho. Talvez, você esteja querendo pegar aqui –  e Bryan o assistiu segurar a mão no volume da calça.

–  Okay, já trago o pedido.

–  Viado –  brincou o outro garoto e os três riram. Bryan olhou diretamente para Luce que o encarava, ela sabia que Bryan não era de engolir esse tipo de comentário, mas ele não podia responder.

–  Quer que eu os atenda? –  sugeriu Luce enquanto Bryan depositava os pedidos na bancada

–  Não, eles farão pior se você for... Deixa que eu aguento. Preciso do emprego e já enfrentei coisa pior. Vamos lá.

Bryan atendeu os outros clientes, geralmente casais e homens indo para o trabalho e no geral não havia incidentes, mas as vezes um ou outro tropicão e trapalhada, garotos preconceituosos ou certos casos de pessoas querendo confusão. Luce tentou o acalmar e Bryan depositou os lanches na bandeja e inspirou profundamente.

–  Aqui está, quer a conta agora ou...?

–  Se eu comer sua bundinha tenho desconto viadinho? –  exclamou o garoto sem se segurar.

–  Não, não tem –  Bryan se virou e o outro garoto da ponta colocou o pé para que Bryan tropicasse e caísse, mas anos de salto alto durante a noite o treinaram para qualquer coisa e ele saltitou por sobre a perna estendida e continuou o caminho se sentindo triunfante e ouvindo os outros exclamarem e urrarem como um bando de animais.

Hora do almoço, Luce procurou por Bryan e o encontrou sentado escondido atrás do restaurante, não estava chorando, ele raramente chorava como Luce percebeu mas estava com uma cara bastante triste e fumava, o odor conhecido, maconha. Luce sabia que não era fácil ser gay, afinal ela era mulher e lésbica, assediada por vários homens e oprimida por outros. Ambos estavam no mesmo barco, na mesma direção.

–  Não fique triste Bryan, esses caras você sabe, eles são filhos da puta –  comentou ela

–  É, eu sei, já passei por coisas piores você bem sabe. Deixa pra lá, você quer? –  ofereceu ele e sorriu. Sua característica mais forte e marcante lembrou Luce.

–  Não. E hoje a noite você vai se apresentar? Eu não poderei te acompanhar.

–  Sim, eu vou, tudo bem, te espero numa próxima –  e ele ergueu o braço acolhendo Luce em um semi abraço.

E a noite de apresentação, Bryan não saiu de perto de suas coisas, estava assustado e temeroso de que acontecesse o que aconteceu no clube do Vallety noite passada. Ele se arrumou e subiu ao palco, apesar das baladas LGBT significarem pegação e música pop e eletrônica, os shows das drags eram muito queridos e procurados nos melhores clubes, sem contar que alguém sempre queria ficar com Bryan porque ele fazia shows.

E no final da noite, o dono da boate, este um homem mais simplório e menos brilhante do que Vallety, conversou com Bryan o que ele já esperava.

–  Bom, está aqui a sua parte, espero que entenda, não é muito, eu sei. As coisas não estão indo bem, bom, é isso –  disse ele e se levantou já saindo após entregar um pequeno envelope para Bryan.

–  Cinquenta dólares? Cinquenta dólares é tudo? Com isso, meu querido, eu limpo a minha bunda! Espero que entenda, meu show é artístico, eu não faço de graça!

–  Bryan não seja assim. Foi o que deu para pagar –  falou ele e parou na porta olhando para Bryan.

–  A casa estava lotada, pela terceira noite seguida é o que eu fiquei sabendo! Não ligo se estava vazia, esse nunca foi o nosso trato! –  vociferou Bryan e ajeitou as coisas na bolsa.

–  Trato? Nós nunca tivemos um trato! Não me venha com isso, foi o que deu para pagar!

–  Tínhamos sim, bom, esquece! Saiba que eu não me apresento mais aqui... –  E Bryan deu as costas, saindo porta afora...

–  Ótimo –  exclamou o dono da boate.

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