Capítulo 20

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Estou indo em direção a minha nova casa. Mochilas nas costas. Nervosismo no peito. Pernas tremendo. É assim que eu me sinto.

— A viagem durará a madrugada inteira. – Avisa Frederic Luotto. Ele transmite simpatia, elegância e é bastante amigável. – Nosso transporte é o que chamamos de Bolhax. Elas chegarão em cinco minutos. Atravessaremos o lago Dantes e a floresta sul. O clima é frio, então, por favor, coloquem estes coletes especiais que darão calor perfeito a você. – Frederic está mostrando um coleto preto, com listras vermelhas que brilham. Ele aponta para uma grande caixa e nós retiramos nossos coletes de lá.

Quando eu coloco em meu corpo, rapidamente o colete acende e eu posso sentir um calor na dose certa para o momento. O céu está estrelado e um vento frio vem do matagal do lado de fora.

Olhando melhor, posso ver três colinas bastante altas com luzes no topo. A mais distante é o meu destino.

Escuto um som e olho para ver se identifico. E vejo grandes bolhas de vidro flutuantes vindo em nossa direção com uma velocidade assustadora. Elas iluminam por onde passam. Espantam pássaros e insetos. E em pouco tempo estarão aqui,

— As instruções são claras. Vocês poderão dormir se quiserem, estaremos em nossa casa às nove da manhã. Cada Bolhax pode transportar até três pessoas. – Frederic nos separa em grupos de três, eu fico com Abe e um menino tímido chamado Robson. Frederic prossegue, assim que as Bolhax estão em nossa frente. – A partir de agora nenhum de vocês pode ser chamado de Capturados, e sim de Filhos.

As Bolhax são brancas com listras cinzas, elas tem leds espalhados por toda a esfera. As portinholas abrem-se e todos os novos Filhos podem entrar. Posso sentir o clima frio dentro da Bolhax. Rapidamente meu colete pisca e sinto-me aquecida. Estou sentada em uma poltrona muito confortável. Dentro da Bolhax, existe uma placa informando que preciso colocar os cintos de segurança. Prendo-me. Em minha frente Robson está, e ao meu lado Abe. Ao lado de Robson existe uma placa com muitos botões. Frederic disse que não precisaríamos pilotar, pois os nossos veículos estão em modo automático.

Olho pelo vidro e vejo os outros Filhos subindo em suas bolhas flutuantes. O campo em que estamos é muito grande e cercado por florestas. Abe me explica que as árvores são do plástico mais fajuto já fabricado. A artificialidade tomou conta da verdadeira floresta que havia antes aqui, o Governo esgotou até a última folha. A clareira se finda nos grandes muros que nos cercam. Há algumas torres de concreto espalhados pelo redor com lâmpadas que iluminam fracamente o local.

Atrás de mim, vejo a Entidade. Luzes acesas, muitas janelas e outro grande muro ao seu redor. Alguns Capturados estão olhando das grandes janelas de vidro do prédio. Uns dão tchau, outros parecem estarem tristes por não estarem conosco.

O motor liga. Um som similar ao vento natural é produzido pelo veículo. Informa uma voz feminina robótica vinda de uma pequena caixa de som.

"Próximo destino: Casa de Espionagem Luottos".

Estou aquecida, mas sei que está frio aqui neste lugar, minhas pernas ainda sentem. Nosso veículo nos transporta com uma velocidade assustadora. Ao nosso redor posso ver as outras Bolhax indo em direção as colinas. Em instantes estamos longe da Entidade. O campo é grande o suficiente para todas as dezenas de bolhas de vidro espalhadas. A escuridão se dissipa com a nossa iluminação.

— Veja aquilo! – Robson se solte de seu cinto e encosta seu rosto no vidro.

— Não solte seu cinto, pode ser perigoso. – Alerta Abe.

Robson está atento para algo que está acontecendo lá fora. Estou curiosa.

Então também solto meu cinto e vou até o vidro. Vejo uma bolha parada atrás de todos nós. A um movimentação dentro delas, de repente a porta se abre e os passageiros descem. Posso ver claramente seus coletes brilhando sendo acobertados com uma espécie de casaco com capuz. Eles empurram a Bolhax para o meio do matagal e ela some. Em seguida pegam mochilas, colocam nas costas e saem correndo em direção à floresta. Eles estão fugindo.

— Perigoso! – Comenta Abe.

— Eu queria poder estar lá. – Digo.

— Eu também. – Comenta Robson ao sentar-se novamente em sua poltrona.

— Em breve irão descobri-los e eles serão perseguidos, com certeza. – Diz Abe.

— E se eles se perderem na floresta? – Questiono.

— Não sei o que é pior Vale.

Fugir da Entidade é bastante difícil. Alguns conseguem, lembro-me da garota que fingiu desmaio logo quando chegamos ao prédio. Não escutei mais noticias dela. Será que ainda está viva? Vou procurar por Tess em minha nova casa e pedir mais informações, ela deve saber de alguma coisa. Creio que ela até facilitou a fuga da garota.

A minha bolha para. Onde está Abe e Robson? Preciso procura-los. Desço da Bolhax e olho a minha volta. Estou perdida em meio a uma floresta fechada e artificial. Escuto passos.

Olho para trás e vejo um homem. Ele não tem face. Estou com a respiração ofegante, isso não ajuda em nada. Respiro fundo e começo a correr pela grande floresta. Desvio de árvores. De vez em quando eu olho para trás e ele continua no mesmo lugar.

Incessantemente continuo correndo. Ele não poderá me alcançar desta forma. Estou assustada e com medo. Um cansaço começa a surgir, e mais lento estou correndo. Preciso de água. Vejo um lago e decido beber um pouco de água. Apenas sinto uma dor em minhas costas. Uma dor ardente persegue meu corpo e eu só consigo dar um grito.

— Vale tudo bem? Vale, acorde! – Me sacode Robson. Ainda estou na Bolhax. Ainda está escuro.

— Acho que você teve um pesadelo, acalme-se. – Diz Abe. Porque será que quando alguém nos mandar acalmar nós ficamos mais irritados?

Respiro lentamente e olho em meu relógio. O tempo não passou e nós ainda estamos para entrar na floresta.

— Ainda falta muito para chegarmos. – Comenta Robson.

— Estamos apenas duas horas neste veículo. – Digo. Então tiro meu cinto de segurança e vou até o Painel. Uma pequena tela surge quando eu chego perto. Nem Robson e nem Abe decidem falar algo. – Desligue a luz! – Digo imperativamente. Então uma moça azul surge na pequena tela e diz.

Aperte ao botão com ícone lâmpada.

Eu aperto e as luzes diminuem. Volto ao meu lugar e sento.

— Assim está bem melhor. – Após eu dizer isso, a Bolhax fica em silêncio. Elevo meus olhos ao céu e posso ver muitas estrelas. O céu de verdade é lindo. Quando eu era menor, perguntava a minha Mãe para onde as crianças que nasciam em segundo iriam se matassem elas. E ela respondeu: "Elas viram estrelas.". Prefiro acreditar que isso ainda é verdade. Se os céus estão cheios de estrelas, quantas crianças realmente morreram? Não consigo olhar para uma criança e cometer algum mal a ela. Creio que o ser humano que consegue fazer isso está totalmente negro por dentro. 

FILHOS - [COMPLETA]Onde histórias criam vida. Descubra agora