Meu despertador tocou na segunda-feira de manhã, ouvia o som alto da guitarra daquela música do Paramore enquanto rolava de um lado par o outro na cama, tentando me lembrar de onde estava e o que estava acontecendo. Aos poucos, enquanto abria os olhos, começava a entender que precisava me arrumar para ir a escola. Finalmente achei aquele celular e desliguei aquele barulho todo, podia amar aquela música, mas, naquele momento, aquele som estridente era a última coisa que eu queria ouvir.
Arrastei-me para o banheiro enquanto as lembranças do final de semana apareciam em minha mente, lentos flashbacks que me faziam sorrir de forma inesperada. Sentia uma corrente elétrica passar pelo meu corpo sempre que a imagem de Tessa aparecia, seu cabelo ruivo que parecia fogo, seus olhos cinza como o céu antes de uma tempestade e seu sorriso capaz de iluminar uma cidade inteira.
Lavei o rosto, escovei os dentes e me troquei. Juntei meu material e coloquei a mochila nas costas logo depois de amarrar os tênis. Olhei o relógio e percebi que estava muito adiantada para o meu horário habitual, mas não me importei, sai de casa mesmo assim e andei até a escola.
...
Entrei na sala de Isabelle e dei bom dia a turma, como de costume. Entretanto, dessa vez, assim que entrei a primeira coisa que meus olhos viram foram ela, como um ato reflexo, como se meu cérebro não conseguisse mais controlar isso, esse sentimento já estava acima de seu entendimento.
Izzy olhava para mim também, seus olhos azuis claros como o céu com a aquele brilho, seu sorriso genuinamente feliz. Ela estava acordada de verdade, não era apenas a sombra de uma menina como antes, mas o mais impressionante foi perceber que não tinha mais profundos círculos negros envolta de seus olhos, como se pela primeira vez ela tivesse conseguido dormir e descansar.
Sentia um sorriso de ponta a ponta em meu rosto e desviava o meu olhar para o chão, com receio dos meus sentimentos estarem estampados demais em meu rosto. A aula se passou mais rápida do que eu esperava, sentia pequenas explosões no estômago sempre que meu olhar cruzava com o de Isabelle, sempre me fazendo sorrir, por mais que eu tentasse evitar.
O sinal bateu e enquanto eu saia da sala, Izzy me acompanhou com o olhar de longe, acenando discretamente. Sorri e acenei de volta, de forma tímida, mas sem me importar muito com as pessoas em volta, o sinal já tinha batido, nenhum deles prestava mais atenção. A única pessoa com a qual eu me preocupava era Isabelle, será que meu cabelo estava bom? Será que ela tinha percebido minha camisa? E a maquiagem? Será que estava tudo muito óbvio?!
Fui até minha próxima aula, mas Isabelle continuou roubando meu foco, deixando aquele sorriso bobo estampado na minha cara. Mesmo quando tocou o sinal mais uma vez e todos os alunos sumiram para o lanche, eu ainda fiquei congelada no lugar, me lembrando de como Isabelle me beijou no final de semana, ou dela acordando ao meu lado toda amassada e com sono.
Respirei fundo e sai da sala já vazia, andando pelos corredores já quase vazios, quando alguém chamou minha atenção. Indo contra o fluxo de alunos, uma pessoa pequena com cabelos escuros e cacheados andava sorrateiramente para o outro andar do prédio, onde tinha as salas das aulas extras. Não podia acreditar no que estava vendo, Isabelle realmente estava indo matar aula?!
Não fazia sentido em minha mente, ela aparentava estar tão melhor. Arrumei minhas coisas em minha bolsa carteiro no ombro e, sentindo os livros baterem em minha perna conforme eu acelerava o passo, fui atrás dela. Isabelle já estava muito a frente, mas, quando terminei de subir as escadas e olhei para o corredor, consegui vê-la entrar na sala de figurinos do teatro.
Sem hesitar, continuei andando e abri a porta:
- Eu não acredito que você está matando aula de novo, Isabelle!
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A Anatomia do Cacto
RomanceEm algum cemitério da capital de São Paulo, uma menina despede-se pela última vez de sua melhor amiga, o amor de sua vida. Seu coração está quebrado, vazio. A culpa a consome. Izzy não sabe o que fazer, para onde ir, de repente ela está completament...
