II
Sentiu ser sacudido, Ethan abriu os olhos ofegando de surpresa, enrijeceu o corpo, pronto para lutar. Em sua mente ainda sonolenta, pensava estar dormindo na rua, alguém iria ataca-lo, talvez o dono de alguma loja cujo toldo ele usava para se proteger da chuva, talvez algum grupo de adolescentes bêbados que concluíram ser divertido espancar mendigos até a morte.
Instintivamente preparou-se para atacar, dois pares de braços seguraram seus membros enquanto uma mão cobriu sua boca. Escutou uma voz familiar cochichando próximo ao seu ouvido.
— Calma, somos nós, a gente só quer conversar.
Ethan relaxou imediatamente, ficando aliviado de maneiras imensuráveis. Sempre que acordava precisava de um tempo para entender que não estava dormindo na rua, um dos motivos de porque insistia em acordar antes de Alyssa. Não queria que ela presenciasse o quanto viver nas ruas o havia afetado, o outro motivo era óbvio, acostumara-se a acordar tão logo o sol nascia, para não precisar ser expulso por alguém que não quer um mendigo sujando sua porta.
Levantou-se quando o soltaram, estavam vestidos para sair.
— Veste e segue a gente. — Jason pediu, jogando um casaco em Ethan.
Saíram pela porta, levando consigo uma chave reserva do apartamento de Alyssa. Tudo estava escuro, Max e Dan usavam os celulares para iluminar o caminho.
Começaram a subir as escadas para o andar de cima, Jason usou uma chave para abrir a porta de metal que dava para o terraço. Estava malditamente frio do lado de fora, as luzes da rua iluminavam fracamente o lugar. Nuvens de vapor saíam da sua boca.
Ethan havia esquecido que conhecia aqueles homens apenas horas antes, era fácil sentir-se acolhido em volta deles, suspeitava o que queriam levando-o para fora do apartamento, mas não se sentia ofendido.
Dan e Jason encostaram na parede que os protegia do vento, formavam um semicírculo onde Ethan era o foco central.
— Pretendo ser direto. — Começou Jason. — Queremos saber quais são as suas ambições.
A pergunta pegou Ethan de surpresa, até mesmo se tivessem dito algo como "dê o fora", estaria menos surpreso.
— Minhas ambições... — Repetiu Ethan. — Bem, uma fonte de renda o mais rápido possível.
— Desempenhando qual função? — Perguntou Max.
— Qualquer uma, apenas preciso de um trabalho que me permita condições de me estruturar.
— E depois que você conseguir um trabalho? — Questionou Dan.
— Vou dividir as despesas com Alyssa e pagar tudo o que ela gastou comigo, e assim que possível, me mudar para um lugar que eu possa manter.
Os três ficaram em silêncio por algum tempo, Ethan avaliou suas expressões, mas não sabia o que estavam pensando.
— Alyssa nos contou sobre sua história de vida. — Recomeçou Jason.
Ethan assentiu, não se sentia traído por isso. Os três homens diante dele eram toda a família que ela tinha, Alyssa parecia ter uma confiança inabalável neles e nada mais normal compartilhar aquela informação depois de ter recebido um estranho em sua casa.
— Você não pensa em se vingar? — Interferiu Dan.
— Honestamente? Nada me traria mais paz que acabar com a raça deles até não sobrar mais nada. Mas... — Ethan coçou a barba, buscando palavras para explicar. — Muito tempo meu foi roubado por causa deles, eu poderia passar o resto da minha vida planejando uma vingança que jamais vai acontecer, tenho muito tempo ocioso na rua e é muito fácil ter raiva...
"Mas Alyssa tá fazendo mais do que eu jamais poderia pedir ou desejar, não quero desperdiçar essa oportunidade me prendendo a coisas que quase me consumiram no passado".
— O que você pensa sobre a Aly? — Jason o estudou com astúcia.
— Ela é a mulher mais incrível que conheci na minha vida. Pra falar a verdade, ela é o ser humano mais incrível que eu jamais poderia ter a sorte de conhecer.
— E ela é bonita também. — Completou Max.
— Ela é linda. — Concordou Ethan.
Como poderia falar diferente? Seria uma mentira ridícula.
— Você sabe que Alyssa é nossa irmã. — Jason parecia escolher cuidadosamente cada palavra. — Nós acabaríamos até com a sua sombra se meramente desconfiássemos que você pretende fazer algum mal a ela.
— Entendo perfeitamente as preocupações de vocês. Eu preferiria arrancar minha mão antes de fazer algum mal a ela. Não consigo definir o quanto eu sou grato por tudo que ela fez e tem feito e pretendo retribuir sempre, mesmo sabendo que ela não fez pensando obter algo em troca.
— Ela sempre foi assim. — Comentou Max sorrindo com orgulho. — Não teve uma vida fácil, sempre se defendeu quando precisou. Sempre fechou os punhos e ia pra cima quando a maioria desistiria e choraria. Mas ela sempre foi ridicularmente bondosa.
Dan riu.
— Isso nos irritou muitas vezes ao longo dos anos, a gente tinha medo que alguém se aproveitasse da bondade dela. — Dan encarou Ethan.
— Mas Aly sempre teve algo especial também. Ela apenas olha nos seus olhos e parece ver a sua alma. Seu julgamento de caráter nunca falhou, todos que a conhecem a adoram e se alguém não gosta dela, desconfiamos de imediato dessa pessoa. — Complementou Jason.
Dan distribuiu cervejas e eles começaram a trocar histórias sobre Alyssa. Fizeram a Ethan algumas perguntas sobre sua antiga vida, sobre como foi viver nas ruas, algumas vezes deram alguns tapinhas em seu ombro para conforta-lo por alguma situação que descreveu.
O céu estava começando a cingir uma cor fraca alaranjada quando resolveram retornar.
— Vamos te ajudar a arrumar um emprego. — Anunciou Jason de repente, quando estavam na porta do apartamento.
Aquela afirmação pegou Ethan de surpresa. Virou para os outros, todos estavam concordando.
— Vocês não precisam... — Começou Ethan.
— Shhhhhhhhhhhh. — Interrompeu Max. — Não comece com essa merda, não é nenhum sacrifício e nós não vamos pedir seu primogênito em troca.
— A menos que ele venha com uma herança de algum bisavô perdido em Dubai. — Assinalou Jason.
— É cara, você meio que agora é um de nós. Depois te enviamos um guia com o código bro. — Brincou Dan.
Ethan ficou em silêncio enquanto os três ocupavam a cozinha, esbarrando constantemente um no outro enquanto pegavam comida e recipientes para o que diziam ser necessário para "o dia da virada", como chamavam sua especialidade de café da manhã.
Ethan viu a cozinha se transformar em um cenário caótico em questão de minutos, os três faziam piadas e falavam sobre assuntos aleatórios enquanto Ethan ria e participava das discussões do lado de fora do inferno no qual eles haviam transformado o pequeno espaço.
Desde o anúncio de Jason e Dan, sentia um aperto morno em seu peito e resistia ao impulso de agarra-lo por cima de sua camisa, na tentativa de amenizar a sensação, sabia o que era aquilo, mas lutava para não encarar a verdade.
Porque naquela madrugada, apenas instantes antes, deu-se conta que talvez, graças a Alyssa, havia recuperado algo que achava ter perdido para sempre em sua vida, junto com todas as outras coisas.
Embora não quisesse nutrir falsas esperanças, não conseguia aplacar aquela emoção sufocante de pela primeira vez em tanto tempo sentir que não estava sozinho.
Talvez... Talvez eu tenha feito amigos.
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Onde as lágrimas repousam [Concluído]
Storie d'amoreOs caminhos de Alyssa e Ethan se cruzaram de maneira inesperada. Embora tenham vidas totalmente distintas, possuem algo em comum: traumas que não superaram. Desde que era apenas uma garotinha assustada e tornou-se órfã de forma violenta, Alyssa car...
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