I
Havia sangue entre suas coxas, Alyssa tremia, enrolada como uma bola, escondida no banheiro. Ouviu risadas do lado de fora da cabine e sufocou um soluço, sabendo o que iria acontecer. As cabines não tinham trancas por motivos de segurança, de modo que um chute facilmente fez com que a porta batesse na parede, quase atingindo-a nas pernas.
- Achei Mary blood! - Gritou Jenna.
Suas três amigas riram com ela, enquanto Alyssa encolhia-se mais ainda no canto, ao lado da privada. Mãos puxaram suas pernas brutalmente e unhas pintadas de rosa e azul cravaram dolorosamente em sua pele.
- Vamos Mary, não seja tímida. - Disse Carla, puxando seu cabelo e forçando-a a ficar de joelhos diante delas.
- Faça ou você sabe o que vai acontecer. - Jenna falou, estava na frente das outras.
Como uma porra de uma chefe de gangue, pensou vagamente.
Raiva passou por Alyssa, quem elas pensam que são para achar que mandam em mim? Jenna ergueu uma sobrancelha diante de seu olhar furioso.
- Segurem-na. - Ordenou.
As garotas a cercaram, Alyssa ficou tensa, mas calculadamente quieta, preparando-se para o momento certo, a única brecha que teria para atacar. Sabia que não tinha a menor chance contra todas as outras, mas ela jamais faria com que isso fosse mais fácil para elas.
Quando duas delas vieram por trás para segurar seus braços, Alyssa virou-se para a da esquerda, acertando um soco no nariz da garota, fazendo com que sangue espirrasse em seu rosto.
Sabia como fazer isso depois de apanhar de seu irmão adotivo na segunda família, ele fazia aulas de boxe e resolveu praticar nela, seus pais adotivos não se importaram muito com os hematomas que apareciam nela. Alyssa aprendeu a revidar e foi devolvida no quinto mês da adoção, depois de fazer o garoto perder dois dentes.
Carla gritou de dor e segurou o nariz com as mãos. Anya paralisou com a situação por tempo o suficiente para que Alyssa a atacasse também, torceu o corpo o máximo que pôde e deu um tapa com as costas da mão, fazendo com que o rosto de Anya virasse para o lado de forma brusca. A garota caiu no chão, gritando.
Alyssa olhou para Jenna, que era mais velha e maior que ela, Jenna devolveu o olhar com um sorriso distorcido e Alyssa soube que não duraria muito.
Vinte minutos depois, seu rosto estava inchado pelos socos e tapas que recebeu, as garotas rasgaram sua roupa, deixando-a apenas com a calcinha branca e manchada de sangue, seus braços também doíam e ela não estaria surpresa se tivesse quebrado algo.
Embora lágrimas de dor se derramassem por seu rosto, fazia a maldita questão de não fazer nenhum barulho de choro ou reclamação.
Alyssa tentou com todas as forças permanecer em pé enquanto apanhava e assim que caiu, começou a receber chutes em vez de socos e tapas. Chutes doíam mais.
As garotas riam enquanto arrastavam-na pelo banheiro, em direção ao corredor, Alyssa apenas tentava cobrir-se como podia.
Disse para si mesma que ter vergonha de estar quase nua não fazia o menor sentido naquela situação, mas a humilhação era pior que a surra para ela.
Aquelas garotas a odiavam desde que a primeira família a adotou. Não interessava para elas que Alyssa tivesse sido devolvida, o fato de as famílias se interessaram nela, fazia dela um alvo para um grupo de garotas mais velhas que sabiam que não seriam adotadas, seja porque eram velhas demais, seja porque suas notas eram ruins, seja porque as pessoas diziam que Alyssa era uma menina linda e famílias adotivas queriam crianças bonitas. Alyssa odiava isso, era como se passeassem pelo orfanato em busca de um jarro para decorar a casa.
A cada família adotante, as coisas pioravam para Alyssa, ser devolvida se tornava um inferno duplo, primeiro porque ela sentia-se usada e descartada, como se apenas não fosse boa o suficiente para aquela família, como se ela fosse um fardo dispensável, como se, para as pessoas a amarem, dependia de quão bem ela fingia adorar toda a mudança brusca, a casa nova, as pessoas estranhas, a rotina diferente, as exigências repentinas, as regras que não faziam sentido e o pior de tudo, o fato de que agiam como se ela fosse da família desde sempre e como queriam que ela agisse como se fosse daquela família desde sempre.
"Eu sou sua mãe agora".
"Me chame de papai".
"Esses são seus irmãos".
"Foi você quem pegou isso, Alyssa? Nós não fazemos as coisas desse jeito"...
Não inferno, não fui eu, foi sua filha que roubou pra poder comprar álcool para o namorado e sim, ele entra quase todas as noites pela janela dela e eles transam.
Alyssa durou dois meses nessa família. Talvez não devesse ter dedurado aquela garota, mas ela sempre fora insuportável, tratando-a como se fosse sua empregada.
Alyssa queria mesmo dizer ao grupo de garotas que a arrastavam pelo corredor em direção a ala dos dormitórios masculinos, que ela odiou ser adotada, que ela, de propósito parou de estudar para não ser adotada, que usava as roupas amassadas e o cabelo bagunçado, para não ser adotada, que falava palavrões e era desrespeitosa, apenas para não ser adotada.
Porque ela odiou toda e cada vez em que foi adotada, odiou ser devolvida, e odiava ser penalizada por aquelas garotas, por algo que ela não tinha o controle.
Quando retornou da quarta família e decidiu dar um fim em tudo aquilo, as garotas a importunaram ao ponto de Alyssa precisar escolher calculadamente sua rotina dentro da instituição. Os horários para ir ao banheiro, para ir ao pátio, para ir ou voltar da escola... Tudo isso para não correr o risco de esbarrar com elas.
Sempre foi grata pelos dormitórios das garotas mais velhas serem afastados, de modo que ela não precisava ter medo de dormir.
Tentava lidar com aquela situação de forma suportável até aquela noite. Havia acordado sentindo-se estranha e ao levantar o lençol, viu um pouco de sangue em seu colchão. Pensando ter se machucado, Alyssa esqueceu-se da sua regra auto imposta de não ir aos banheiros durante a noite, sabendo que as garotas o usavam para fumar e as vezes, ter "encontros" com alguns garotos.
Isso não aconteceria se os cuidadores do orfanato não usassem seu turno de trabalho para dormir ou assistir TV confortavelmente na sala de descanso, de modo que muito raramente faziam uma ronda e/ou verificavam os dormitórios, para garantir que estivesse tudo em ordem.
Alyssa sabia que não adiantava tentar gritar para chamar a atenção de alguém, poderia ser facilmente subjugada e apanhar mais, por tentar. Sentia que poderia acabar apagando se apanhasse mais e entrava em pânico com o mero pensamento de ficar totalmente vulnerável diante de Jenna e suas amigas.
Desde que fora adotada pela quarta família, as garotas lhe fizeram uma promessa, se ela retornasse, elas fariam com que Alyssa jamais pudesse ser uma opção pra a adoção.
A mente de Alyssa criou os piores cenários possíveis desde aquela ameaça, de modo que ela alterou toda a sua rotina para se manter segura. Sabia que contar o que estava acontecendo para os cuidadores ou o diretor, além de não resolver nada, ainda a deixaria marcada como delatora, o que a transformaria em um alvo para mais pessoas.
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Onde as lágrimas repousam [Concluído]
RomanceOs caminhos de Alyssa e Ethan se cruzaram de maneira inesperada. Embora tenham vidas totalmente distintas, possuem algo em comum: traumas que não superaram. Desde que era apenas uma garotinha assustada e tornou-se órfã de forma violenta, Alyssa car...
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