22. Pulgas e afins

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II

Ethan optou por não retirar o que Alyssa havia posto, uma vez que era aquela a forma que ela fazia e ele iria respeitar aquilo.

Pagaram uma taxa para que as compras fossem entregues no prédio. No caminho de volta, Ethan voltou a sentir-se distante de Alyssa, fazia dias que ela tinha-o distanciado emocionalmente, eles pararam de dormir na mesma cama, ele voltando para o sofá, estava atribuindo tudo aquilo a seus pesadelos, que pareciam ter piorado. Pelo menos ela não o afastava quando ele a ajudava a passar por aquilo.

Os caras haviam prometido a ele que aquilo passaria, Ethan achou melhor não invadir esse espaço dela até que ela o procurasse, não havia pressa para ele, sabia que ela gostava dela tanto quanto a gostava e ele meramente estava voltando a construir sua vida, de forma que apenas possuía boas perspectivas para o futuro.

Ao chegarem, ele pegou seu celular novo, ainda admirado que tinha um e ainda apanhando um pouco para aprender e deixou mensagens para os caras, perguntando seus planos para o natal. Eles começaram a responder mais tarde, Max iria trabalhar em uma festa beneficente de "gente que limpa a bunda com notas de dez" para pessoas que "nem tinham o que cagar", palavras dele, Ethan supôs que Max não gostava de eventos beneficentes.

Jason disse que estaria em serviço naquela noite. Dan também confirmou que estaria ocupado, fazendo um bico que Max havia descolado naquela festa. Ethan suspirou, olhando Alyssa lendo ao seu lado, e extremamente incomodado com aquela mudança-não-mudança dela, por fora nada havia mudado, mas a cada vez que o olhava ou falava com ele, ele sentia a distância os separando.

A talvez primeira ceia de natal para Alyssa estava indo de mal a pior, deu de ombros, ele faria um jantar para os dois.

Era final e tarde, mas como era inverno, o dia já havia se transformado em noite. Estava nevando do lado de fora e neve acumulava-se lentamente em cada superfície descoberta, as pequenas lâmpadas amarelas que os caras puseram para enfeitar a janela azul sempre ficavam ligadas e davam um ar aconchegante ao espaço, somado a temperatura amena da calefação, era o ambiente perfeito para beber um chocolate quente diante de uma lareira.

Ethan levantou-se, indo para a área de serviço, debaixo da pia, onde Alyssa usava de depósito, estava procurando qualquer coisa que ele pudesse usar como enfeite, quando viu uma caixa ainda lacrada com uma pequena árvore de natal. Aquilo era perfeito. Tendo traçado seus planos, começou a separar os materiais que usaria no jantar, marinar o peito de frango — um peru era caro demais para o orçamento dele e com os caras cancelando, não fazia sentido usar uma ave inteira.

Depois de ter organizado tudo, sentou-se ao lado de Alyssa, quem imediatamente se afastou levemente.

— Aly, tem alguma coisa errada entre nós? — Perguntou antes que pudesse pensar direito.

Ela o observou em silêncio por um momento, aquela mesma sobrancelha levemente erguida, não de forma interrogativa, mas sim como se aguardasse algo. O que ela estava esperando? Como não sabia, ficou em silêncio.

Não há nada de errado entre nós. — Disse, salientando algumas palavras. — Eu estou apenas exausta por não conseguir ter uma boa noite de sono, acho que vou tentar dormir agora, assim posso poder descansar um pouco.

Ela se levantou e foi para o quarto, Ethan soube ali que havia algo profundamente errado entre eles. Depois que ela fechou a porta, ele ficou horas pensando sobre todos os pequenos detalhes que poderia explicar aquele comportamento frio dela.

Ele fizera algo de errado? Não conseguia pontuar nada. Quando isso começou? Voltou vários dias e notou que a percebeu diferente no dia seguinte a noite em que ele recebeu a notícia de que conseguira um cargo na SendaX. Por quê? Tentou analisar todo o momento daquela noite, havia dito algo? Feito algo? Embora sua fronte começasse a pulsar pelo esforço de lembrar e repetir lembranças, a única coisa que havia acontecido de notável havia sido que ele ganhara um monte de coisa cara junto com um emprego de alto nível.

Sua mente, por algum motivo, estagnou nesse momento. Ele passara vários minutos perdido em descrença quando a Dra. Foster desligara o telefone, sua mente um turbilhão, mal registrando que Alyssa segurava sua mão e ficara com ele até que ela tivesse bocejado e ido dormir no quarto.

Quando Ethan finalmente saiu do estupor, foi para o quarto, dormir com Alyssa e percebeu a porta trancada, estranhou, mas ausentemente julgou que ela tivesse fechado por hábito, não querendo acordá-la, ele dormiu no sofá naquele dia. No dia seguinte disse que ela havia fechado a porta do quarto e ela de costas, enquanto colocava café em sua xícara, simplesmente havia dito que precisava de um pouco de espaço.

Ethan estava com olheiras porque não conseguiu dormir de excitação pelo emprego, Alyssa estava com olheiras porque provavelmente teve outro pesadelo, certo?

Algo em sua mente sussurrou, e se ela estava com ciúme por Ethan estar conseguindo estruturar-se melhor do que qualquer um jamais esperava? Quando conseguiu o emprego no café, ela havia lhe mostrado seu melhor sorriso de orgulho, quando havia conseguido o emprego de diretor de operações, ela havia olhado para ele... diferente.

Como Alyssa realmente estava se sentindo sobre sua futura mudança de status? Ela sentia-se feliz por ele ou sentia inveja? Ethan sentou-se peças encaixando-se. Ele reconhecia que havia mudado completamente do tempo em que vivia nas ruas para agora, sua personalidade saíra de um estado constante de alerta ao perigo, para algo próximo a que ele costumava ser antes de tudo aquilo acontecer.

E se Alyssa havia começado a gostar de um Ethan que ele não sentia mais que era? E se ela tivesse se apaixonado pela dependência que ele tinha dela? Afinal ela passara grande parte de sua vida dependendo de outros, teria sido algum tipo de realização pessoal ter alguém em um "nível" abaixo do dela? Dependendo da boa vontade dela?

Não, pelo que havia conhecido de Alyssa, ela fazia o que julgava ser certo, nada mais, nada menos. Mas e se...?

Se coração apertou-se, de repente estava cheio de incertezas sobre as ações e intenções de Alyssa para com ele. Quantas pessoas simplesmente pegavam um morador de rua depois de quase ter sofrido uma tentativa de estupro e o poria sob o mesmo teto?

Indignação agitou-se em Ethan, por que ela havia feito aquilo por ele. Depois de um tempo, sua mente acalmou-se, não seja estúpido, tudo o que você conseguiu até agora é em grande parte, graças a ela e aos amigos dela.

Ethan tinha vontade de bater em seu próprio rosto, por ter delirado coisas tão horríveis sobre Alyssa, mas no fundo, aqueles pensamentos ainda agitavam-se, se não por isso, por que mais ela estaria tratando-o daquela forma.

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Onde as lágrimas repousam [Concluído]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora