24. À rigor

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II

O peito de Ethan se comprimiu. Suspeitara de algo quando a viu pondo as garrafas no carrinho de compras. Porra! Deveria tê-las tirado. Ela teria saído para comprar se ele tivesse feito isso?

Mil situações passaram pela cabeça dele.

— Eu vou voltar. — Anunciou ele.

— Vá. Eu e os caras não vamos conseguir ir amanhã porque vamos trabalhar a noite toda, mas estaremos lá no domingo.

Ethan assentiu, olhou pela última vez o salão de eventos do hotel cinco estrelas, que fora reservado apenas para aquele evento beneficente e algo no meio de todas aquelas pessoas finamente vestidas, chamou sua atenção. Ethan parou, olhando atentamente o que fizera sua mente clicar. Não tendo encontrado nada demais, girou, pegou seu sobretudo com o atendente e saiu pelas portas ornamentadas de madeira.

Na frente do hotel, informou seu nome e que estava de saída, o carro que o levara até ali apareceu pouco tempo depois, alguém abrindo a porta para que ele entrasse. Ethan estranhava profundamente todo aquele comportamento em volta de si. Mas não pensou nisso enquanto o carro entrava na pista.

Levou quase uma hora para ele chegar ao prédio, ainda estava nevando, de forma que era impossível que o carro fosse mais rápido que quarenta ou cinquenta quilômetros por hora. Agradeceu ao motorista e desejou feliz natal a ele.

Pescou as chaves no bolso e subiu as escadas de dois em dois degraus. Abriu a porta da frente e um vento frio o saudou. Franziu o cenho, por que estava frio dentro do apartamento?

Fechou a porta atrás de si e esperou sua vista e ligou o interruptor, piscou pela luz repentina, seu olhar foi imediatamente à cozinha, todas as velas haviam sido guardadas, o mesmo parecia ter acontecido com a comida, sentiu brisa em seu rosto e virou na direção da sala, a janela estava entreaberta, de forma que era de lá que vinha todo o vento frio que igualava a temperatura do cômodo à que estava na rua.

Mas não foram os flocos de neve entrando e acumulando-se pelo piso que chamou sua atenção, muito menos a pequena árvore de natal que agora jazia em pedaços pelo chão, muito menos as duas garrafas de álcool vazias, uma caída ao lado da árvore e a outra precariamente pendendo de uma mão.

Ali, aquilo prendeu sua atenção, deitada no sofá e coberta por uma fina camada de neve, Alyssa tremia em um sono alcóolico. Ethan correu até ela e fechou a janela, ajoelhando-se ao lado do sofá, cuidadosamente retirou a garrafa vazia de sua mão pálida e preocupadamente gelada.

Olhou para seu rosto e seu coração se apertou. Imbecil! Xingava a si mesmo.

— Como eu pude deixá-la sozinha logo hoje, entre todos os dias? — Sussurrou a si mesmo.

Seus olhos lacrimejaram, ele não merecia o amor daquela mulher, falhou com ela. Enquanto ele forçava um falso sorriso no rosto e conversava ausentemente com pessoas que ele não conhecia e não se importava. A única pessoa com quem ele queria estar, estava bebendo sozinha e no escuro, sozinha com seus medos, mágoas, tristezas e frustrações.

— Como eu pude ser tão imbecil? — Sussurrou a si mesmo, novamente.

Com cuidado, tocou seu rosto. Sua pele estava anormalmente pálida e gelada demais para seu gosto, sua roupa estava parcialmente molhada, provavelmente pela neve que derretera com o calor do seu corpo. Ela poderia ficar doente por ter ficado por tanto tempo exposta à baixa temperatura.

Enfiou uma das mãos debaixo de seus joelhos e a outra em suas costas, Alyssa choramingou no sono. Ethan parou.

— Aly? Sou eu, Ethan. — Ela não respondeu.

Ele a ergueu, alarmado por quão frio seu corpo estava, deu dois passos quando ela começou a se mexer furiosamente em seus braços, Com medo derrubá-la, Ethan sentou-se no chão e a repousou em seu colo. — Calma Aly. — Sussurrou em seu ouvido.

Alyssa fez um barulho rasgado do fundo de sua garganta, Ethan percebeu que ela estava tentando gritar e a segurou com mais força, falando palavras suaves em seu ouvido. Ela não se acalmou, foi ficando cada vez mais agitada, até que suas pernas e braços começaram a acertar Ethan, mesmo assim, ele recusou-se a soltá-la.

Com medo de que ela se machucasse, segurou seus braços junto ao corpo, a preocupação dava lugar ao medo. Alyssa não estava acordando daquela vez, não importava o quanto Ethan a chamasse. Tentou acordá-la, chamou seu nome, até mesmo a sacudiu um pouco, nada. Lágrimas deslizavam pelo rosto de Alyssa, rasgando o coração de Ethan.

O pânico cresceu dentro de Ethan, Alyssa agora lutava agressivamente em seus braços. Embora fosse mais forte. Tinha medo de Alyssa se machucar de alguma forma.

— NÃO! — Gritou.

— Aly, se acalme! Sou eu, Ethan. — Tentou novamente. — Você está segura, está tudo bem.

— NÃO! — Gritou novamente.

Soluços irromperam de Alyssa, os sons angustiando Ethan de uma forma que ele jamais soube ser possível. De repente, Alyssa arregalou os olhos, Ethan sentiu-se imediatamente aliviado, até que ela o empurrou com força o suficiente para empurrar a si própria para fora do colo dele.

— Aly? — Chamou Ethan.

Alyssa se arrastou para longe, pavor em seu rosto. Parecia estar desesperada para pôr espaço entre os dois.

— Voc-cê n-não podia. — Sussurrou quase inaudivelmente.

— Não podia o que, Aly? — Ethan perguntou suavemente.

Não voltou a se aproximar de Alyssa, respeitando o espaço que ela queria.

— Mentir pra m-mim... — Alyssa soluçou. — E-ela não me amava... eu doía ela... — Soluçou novamente.

Alyssa não falava de forma coerente, alternava entre murmúrios e soluços. Ethan percebeu que não era dirigido a ele, que Alyssa falava de seus pais. Não sabia se era um ataque de sonambulismo, reação do álcool ou as duas coisas, mas sentia-se rasgado por dentro a cada palavra carregada de dor.

— Aly? Querida, sou eu, Ethan.

— Ethan? — Alyssa franziu, sua voz se quebrando.

— Isso mesmo. — Encorajou ele.

Alyssa assumiu uma expressão triste, o que fez com que Ethan se sentisse pior do que já estava.

— A árvore — Confidenciou tristemente, com a voz arrastada pela bebida e pelo sono.

— Não se preocupe com a árvore Aly, era só um objeto sem importância. — Ethan tentava tranquilizar Alyssa.

Alyssa abraçou os joelhos, olhava para o chão de forma sonolenta.

— Sozinha de novo.

Não havia tristeza na voz de Alyssa dessa vez, apenas uma ausência, como se ela estivesse meramente constatando os fatos.

— Eu sei querida, fiz coisas imperdoáveis com você.

— E a Ana! — Alyssa arregalou os olhos. — E porr-que a gente não tem NADA INFERNO! — Alyssa voltou a chorar.

Ethan franziu, tentando entender o que Alyssa queria dizer.

— Aly, eu não tenho nada com a Ana, nem nunca tive, jamais faria isso com voc...

— Não! Eu não quero saber, voc-ê devia ter me visitado! — choramingou ela. — PENSEI QUE VOCÊ TINHA MORRIDO!

Ethan estagnou.

— Do que você está falando Aly?

Alyssa não respondeu mais. Ethan sacudiu a cabeça, não conseguiria falar com ela no estado em que estava. Precisava livrá-la das roupas molhadas, secá-la e cobri-la para aquecer o corpo.

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Onde as lágrimas repousam [Concluído]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora