17. Sendax CO.

84 34 6
                                        

II

 Após a prova, os candidatos foram divididos em pares para a primeira atividade, na segunda foram divididos em dois grupos de cinco, na terceira, todos eles tinham que entrar em acordo para resolver um problema. Basicamente, todas as atividades eram voltadas para favorecer o aparecimento de características básicas de um bom funcionário: cooperação, criatividade, liderança, etc.

A seu favor, Ethan sempre apreciou desafios que não incluíssem risco de vida, já teve o suficiente disso por uma vida, mas era justamente aquela vivência que fez com que ele percebesse que todas aquelas provas, atividades e entrevista, não eram absolutamente nada comparadas ao que já passou em sua vida.

Quando se deu conta daquilo ainda na primeira atividade, ao olhar para o lado e ver as outras duplas visivelmente desesperadas e irritadiças para resolver uma dinâmica, Ethan quase riu de si mesmo por ter estado tão nervoso até então. Uma calma pesou sobre ele, fazendo-o perceber que seus músculos estavam rígidos, olhou para seu colega e começou a argumentar a melhor forma de concluírem aquilo.

Algumas horas depois, ele estava mentalmente exausto, sua entrevista durou quarenta minutos. Havia ficado diante de uma banca com mais duas pessoas além da Dra. Foster, cada uma delas perguntando algo ridiculamente diferente da anterior, uma sobre a profissão, outra sobre a prisão dele, outra sobre o que ele pensava da última crise no país. Somente agora Ethan havia percebido que a entrevista tinha um objetivo muito além de colher informações gerais sobre o candidato, ela também avaliava como ele se comportaria perante uma pressão direta de um superior. Inteligente, ele admitia.

Foi em direção ao elevador enquanto massageava os músculos do pescoço, que estavam doloridos pela tensão e postura rija que ele esteve nas últimas horas. O departamento entraria em contato em alguns dias para o resultado, havia pelo menos dez pessoas concorrendo a uma só vaga.

Max e Dan estavam sentados nas escadas, havia embalagens de salgadinhos ao lado deles. Eles simplesmente não conseguiam passar um par de horas sem enfiar algo cheio de sódio e açúcar nas veias?

Sorriu quando lhe ofereceram um refrigerante e foram andando em direção ao carro. Ethan percebeu que eles estavam se segurando com todas as forças para não perguntar nada e riu quando entraram no carro.

— Sério caras, podem me bombardear. — Brincou ele.

Perguntas explodiram ao mesmo tempo e Ethan contou todos os detalhes da seleção, terminando com a informação de que teria de aguardar alguns dias.

— Você acha que tem chance? — Perguntou Dan.

— Honestamente? Sei que fui pelo menos razoável na prova e nas atividades, mas na entrevista eu não fazia ideia do que era esperado que eu fosse ou soubesse responder, faz muitos anos que não tenho contato com esse mercado.

Os caras o deixaram no prédio, mas não ficaram para almoçar pois Dan iria trabalhar no horário da tarde. Agradeceu e despediu-se dos caras, pescando as chaves na bolsa e fazendo uma nota mental de deixar o terno para lavar a seco antes de devolvê-lo a Jason. Subiu o lance de escadas e abriu a porta do apartamento, cheiro de molho de tomate e manjericão encheu seus pulmões, franziu o cenho se esticando para olhar do outro lado da porta, em direção a cozinha.

Aly estava com fones de ouvido e o cabelo em um rabo de cavalo desgrenhado, fios rebeldes molduravam a coluna do seu pescoço pálido, a luz da janela da lavanderia iluminava a cor acobreada, dando-lhe o aspecto de chamas e ouro derretido. Ethan entrou sem fazer barulho e fechou a porta o mais suavemente possível, colocou a bolsa em cima do assento ao lado da bancada e encostou-se na parede ao lado dela, fechando a passagem para a cozinha e colocando-se alguns metros atrás de Alyssa.

Cruzou os braços sem conseguir conter um sorriso de divertimento, Alyssa usava  uma legging preta e um suéter rosa bebê que era o dobro de seu tamanho, o tecido fino fazia Ethan ter um mero vislumbre de suas curvas por debaixo do casaco. Um dos ombros de Alyssa estava a mostra, o material folgado descendo por seu ombro enquanto ela balançava suavemente o quadril e mexia algo na panela.

Deus, o corpo dessa mulher!

Ethan esqueceu-se completamente de todo o estresse daquela manhã, que estava com fome, que a gravata ainda apertava seu pescoço e ele sequer sentia o impulso de desfazer o nó, não quando  estava bem diante dele, dançando de uma forma malditamente sedutora e sem nem saber que tinha plateia. Ethan havia percebido duas coisas desde que começara a morar com Alyssa: ela era naturalmente sensual, não precisava se dar o trabalho de maquiagem ou roupas, olhares ou gestos para isso e ela não parecia ter a menos ideia de quão fortemente afetava os homens a sua volta.

Salvo os caras, quando Ethan andava com Alyssa por qualquer canto, via os olhares demorados que ela recebia e tinha quase certeza de que ela receberia muitos convites para sair se não estivesse sempre cercada por homens de um metro e oitenta ou mais.

Alyssa virou-se para pegar algo na geladeira e arregalou aqueles bonitos olhos cor canela, dando um ofego audível. Pôs a mão no coração retirando os fones.

— Você quase me matou de susto, Ethan! — Alyssa semicerrou os olhos para ele em uma expressão acusadora. — Há quanto tempo você tá aí?

Ethan sorriu, incapaz de conter sua diversão.

— Desde "bitch better have my money". — Provocou.

Ela arregalou os olhos e corou de forma adorável.

— Tu só pode estar brincando comigo. Me viu dançando todas as divas do pop e não falou nada? — A última parte da frase assumiu um tom histérico.

Ethan não fazia ideia de quais músicas estava escutando, mas quando usou o notebook dela semanas atrás, acabou vendo suas playlists, de forma que apenas chutou uma das músicas.

— Sim. — Respondeu sem vergonha.

Alyssa pode me bater se quiser, mas valeria o preço de ver ela dançando de forma suave, tinha alguma ideia de que jamais poderia esquecer-se daqueles movimentos.

Alyssa pareceu se recuperar da vergonha quando deu uma boa olhada nele de cima a baixo, o interesse de Alyssa o fez ficar imediatamente excitado. Agradeceu que o paletó cobrisse a armação dolorosa em sua virilha. Ele queria provocá-la, até mesmo sabia que se cobrisse os três meros passos que os separavam, a erguesse do chão e a sentasse no balão ao seu lado para que ela ficasse na altura ideal de um beijo, Alyssa não lutaria contra ele.

Quis gemer quando os olhos dela brilharam de malícia, adivinhando o caminho por onde seus pensamentos levavam.

Mas Ethan havia decidido naquela madrugada, no terraço, que a deixaria vir até ele, no tempo dela. Quem não conhecesse Alyssa jamais conseguiria ver quão machucada ela estava por trás daquele sorriso gentil e acolhedor, todos os traumas e horrores que ela passou quando ainda era uma criança e que a atormentavam até hoje, que talvez o fariam por toda a vida dela.

Ethan já era um adulto quando o chão foi tirado de seus pés, conseguia visualizar perfeitamente aqueles grandes olhos canela em um diminuto rosto infantil, escondendo seu sofrimento dos outros e de si mesma.

Quis abraçá-la, mas invés disso, deu a volta e desabou no sofá, tentando massagear novamente o pescoço, sentia os músculos rígidos ali. 

...........................................................
Votem e comentem ❤
M

e deixem saber se estão gostando da história.

Onde as lágrimas repousam [Concluído]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora