20. Quando a neve cai

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II

— Já avisei. — O cortou.

Ethan a olhou como se não tivesse entendido o que havia dito.

— Preciso de outra roupa social, ainda não tenho dinheiro para comprar, Aly, me empreste seu telefone, preciso ligar para o Ja...

— Também já fiz. — O cortou novamente, com um sorriso maior.

— O quê?

— Já pensei em tudo, querido, Max vai trazer a roupa amanhã, vai pegar o carro de Jason para vir te buscar, ele vai chegar cedo. Não vou poder ir com vocês e Max não vai poder te trazer de volta, mas o resto já tá coberto.

Ele a encarou sério.

— Mulher incrível. — Murmurou, enquanto a puxava para um beijo de tirar o fôlego.

Um grupo de adolescentes que passava começou a assoviar e a ovacionar o beijo, de forma que Aly e Ethan romperam, rindo.

...

Dra. Foster havia pedido que Ethan esperasse em sua sala, quase meia hora atrás. A sala era bem decorada, mas algo nela lembrava a Ethan um hospital, talvez as cores, a luminosidade pálida, o cheiro de álcool gel de um recipiente em sua mesa. Ele não sabia dizer se faltava personalidade no ambiente ou aquela decoração refletia a personalidade da mulher.

A porta atrás se abriu e Ethan levantou-se por educação. Os saltos do scarpin vermelho veludo clicavam no piso até serem abafados pelo tapete branco em volta da mesa. A mulher sentou-se do outro lado, com uma pasta nos braços, pousando-a de uma forma enfática demais sobre o tampo de madeira escura. Parecia levemente irritada, embora claramente tentasse esconder isso.

— Sinto pela espera, fui chamada de última hora para um... pedido um tanto peculiar. — Olhou para o teto por um breve segundo antes de voltar os olhos a ele. — O chamei aqui hoje para falar sobre seus resultados.

A medida que ia fazendo uma recapitulação da prova e exames que Ethan havia feito quase uma semana atrás, seus olhos foram suavizando e seu tom adquirindo um timbre mais animado e simpático.

— Por fim, é inegável que você, Sr. Gauthier, obteve um dos melhores resultados nas avaliações, entretanto, foi discutida com a banca avaliadora sobre sua passagem pela prisão, de forma que optamos em deixar a decisão final para o COO dessa companhia, que está assumindo as atividades dessa filial. — Ajustou os óculos antes de continuar.

— Como nunca havíamos lidado com um candidato com suas especificações e a política da companhia ainda está sendo... concretizada, basicamente, recorremos ao chefe. — Ela deu um riso curto, parecia um pouco desconfortável com a situação.

Ethan não sabia se era por já ter sido preso por um crime que garantiria não conseguir nenhum emprego naquele ramo, ou se era por ela admitir que precisou recorrer aos superiores para tomar a decisão, de forma que permaneceu em silêncio, dedicando não mais que um sorriso comedido.

A mulher abriu uma das pastas. Ethan tentou manter-se calmo, mas estava explodindo de excitação por dentro. Depois do que pareceu uma eternidade, ela concluiu.

— Meus parabéns Sr. Gauthier por ser o mais novo membro da nossa equipe, o senhor foi considerado qualificado e apto a exercer o cargo nessa filial da SendaX CO.

Ela levantou-se, deu a volta na mesa e estendeu a mão para parabenizá-lo, um atônito Ethan recebeu os cumprimentos. Ele mal conteve um grito de comemoração quando Dra. Foster retornou ao assento e começou a falar do contrato que ele deveria ler, estudar e devolver em no máximo uma semana, assinado. Após isso, Ethan poderia começar imediatamente a posição, passando por um breve período de adaptação.

Ethan ouviu atentamente cada palavra, pegou todos os documentos, agradeceu a oportunidade e saiu do edifício.

Do lado de fora, Ethan andou em direção ao metrô, mas parou em frente a um vendedor de cachorro quente, pois seu estômago reagiu ao cheiro, pediu um para comer ali e pagou com seu dinheiro, algo que ainda o chocava. Afastou-se na praça e sentou-se em um dos bancos que tinha vista para o lago artificial.

A paisagem não era a mais bonita, as folhas já haviam secado e caído das árvores, os troncos secos e desnudos, balançavam de forma melancólica pelo vento, o mesmo passava por sua pele que o tecido não cobria, dando a sensação de mil pequenas agulhas tocando em sua pele.

Mas tudo isso passava despercebido por Ethan, que deu uma mordida na comida quente e bem vinda, vagamente perguntando-se se estaria vagando por lugares como aquele, revirando o lixo em busca de jornais e papelão que pudesse pôr dentro das suas roupas, em uma tentativa de não congelar de frio naquela noite, sabia que as pessoas na rua morriam assim no inverno, havia vivido isso na pele.

Agora, Ethan fitava os sapatos sociais, que eram emprestados, é verdade, mas isso implicava que havia alguém para lhe emprestar e que havia uma finalidade em usá-los.

Lágrimas começaram a turvar a visão de Ethan e ele não as impediu de cair por seu rosto enquanto dava outra mordida com gosto no cachorro quente, mais lágrimas seguiram a primeira, o vento frio fazia com que o rastro delas queimasse sua pele.

Deu outra mordida e não conseguiu sufocar o soluço, terminou o cachorro quente e pediu outro ao vendedor, que o olhava com um misto de preocupação e estranheza.

Comeu o segundo com uma vontade proporcional às lagrimas que se derramavam. Ele estava tão malditamente feliz! Em meio ao choro soltou um riso curto. Apostava que estava parecendo ridículo para quem o olhasse naquele estado, ele não poderia se importar menos.

Terminou o segundo cachorro quente e ergueu o olhar para cima, puxando a lapela de seu sobretudo para proteger o rosto.

Os primeiros flocos de neve do inverno deslizaram por seu rosto, prendendo-se em seu cabelo.

— Mãe olha, tá nevando! — Gritou animadamente uma garotinha para sua mãe, que sorriu para ela em resposta.

Ethan levantou-se do banco, estava com o estômago cheio e tinha um lugar para o qual retornar.

A neve lentamente começava a se acumular, formando uma fina e translúcida camada em toda a superfície em que tocava. As pessoas não escapavam dessa regra, que impacientes, tratavam de esfregar os rostos e sacudir os casacos pesados.

Mas não Ethan. Ethan aproveitava o contraste frio em sua pele, sabendo que naquela noite, dormiria ao lado de alguém que o receberia calorosamente.

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Onde as lágrimas repousam [Concluído]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora