I
Merda, pensou Alyssa. Não queria estar daquele jeito, denunciei o idiota, Ethan esteve comigo e pelo que sei, tudo vai correr a meu favor. Não, não fora o tempo em que passou na delegacia que a abalara, nem contar o que havia acontecido, ela sabia melhor.
O que a deixou com aquele humor foi o caminho por onde seu depoimento a levou depois que puxaram sua ficha. Aquilo a deixou com um humor, dos infernos. Ainda queria socar alguma coisa, apenas para se acalmar.
Deveria ter se preparado melhor mentalmente, mas acolher Ethan a distraiu de qualquer outra coisa.
É fácil pensar que as coisas não são tão difíceis quando se conhece alguém que a vida bota no chinelo meus problemas de merda.
Lembrou-se da forma como Ethan gentilmente a empurrou de lado no brechó quando ela estava prestes a tirar a carteira da bolsa, já preparada para pechinchar e presenciou a postura e até o tom de voz dele mudarem completamente. Ethan parecia meio intimidador em toda a sua altura e constituição. Não fossem seus olhos de filhote de cachorro, aposto que confundiriam ele com um gângster fodão.
Ethan havia assumido um tom cativante e uma postura altiva, iniciando a conversa com a dona do brechó como se fosse um representante de negócios e que ela é quem estaria fazendo um bom negócio ao fornecer um desconto. Depois de poucos minutos, a velha senhora Nancy de bom grado, concedeu um desconto que fez minha conta corrente chorar de alívio.
Alyssa sabia que Ethan sentia-se desconfortável por estar recebendo coisas dela daquela forma. Alyssa não era boa samaritana, não havia feito isso porque queria um lugar no céu ou porque ele a salvou. Fez porque viu a si mesma refletida nos olhos de Ethan. Nem todos possuíam alguém que apoiava e fornecia o básico para seguir em frente.
Alyssa queria fornecer a Ethan o suficiente para que ele pudesse recomeçar sua vida. Na verdade não entendia bem porque simplesmente não o botava para fora e seguia com sua própria vida, sem gastar sua suada poupança com um homem que mal conhecia.
Saiu rapidamente do banheiro, enrolada em uma toalha e correu para o quarto (o que dava exatamente três passos). Uma vez lá, jogou-se na cama e pegou seu celular, hesitando apenas alguns segundos antes de discar para Jason.
O aparelho tocou algumas vezes antes que atendessem.
- Posso chegar em trinta minutos. Quão grande a merda bateu no ventilador, pra você estar, por livre e espontânea vontade, ligando pra alguém?
Antes que Alyssa pudesse ter qualquer chance de responder, Jason emendou.
- Porra, tem alguém com você? - Sussurrou. - Tussa uma vez pra sim.
Alyssa riu, sentindo falta de escutar a voz de Jason e da paranoia ridícula dele sobre tudo que fosse relativo à sua segurança. Alyssa franziu, sabendo que ele iria surtar quando ela contasse o que aconteceu e pior, quando percebesse que ela não ligou imediatamente para ele.
Jason e Alyssa viam um ao outro como irmãos, o que para ela queria dizer muito, mas para ele queria dizer todo o inferno.
Os pais de Jason haviam morrido em um acidente de carro quando ele entrava na puberdade, sua irmã mais velha tinha dezesseis anos quando isso aconteceu. Ela já trabalhava, mas levou tempo até conseguir a emancipação e provar judicialmente que tinha condições de se tornar responsável legal de Jason, de forma que ele foi para o orfanato.
Ele havia dito a Alyssa, em certa ocasião, que sua irmã o visitava sempre que podia e que o atualizava sobre essas questões, prometendo que viria busca-lo.
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Onde as lágrimas repousam [Concluído]
RomanceOs caminhos de Alyssa e Ethan se cruzaram de maneira inesperada. Embora tenham vidas totalmente distintas, possuem algo em comum: traumas que não superaram. Desde que era apenas uma garotinha assustada e tornou-se órfã de forma violenta, Alyssa car...
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