II
Sua memória nublou-se, a próxima coisa de que lembrava com clareza era de uma mulher de cabelos cacheados e volumosos sorrindo para ela e pegando a sua mão, levando-a para fora do orfanato quase um ano depois de começar a morar lá.
— Quero que você me chame de mamãe — Disse ela suavemente, mas com firmeza.
Alyssa soltou-se de seu agarre.
— Nunca. — Respondeu simplesmente.
Oito meses depois, a mulher a empurrou para dento do orfanato, havia enfeites de natal decorando portas e paredes.
Suas costelas doíam e sentia frio, tentou esquentar as mãos e elas estavam sujas de sangue, ela ofegou e correu para o banheiro, abriu a torneira, seu coração martelava em seu peito. De repente tornou-se difícil respirar, sons estranhos soltavam de sua garganta enquanto sua pia ficava vermelha, ela esfregava as mãos mas parecia haver dezenas de camadas de sangue, elas simplesmente não ficavam limpas.
Sentiu umidade escorrendo por seu rosto e ergueu os olhos para o pequeno espelho, seus cabelos estavam diferentes, não ondulados como o habitual, mas sim, desciam em ondas até mais abaixo de seus ombros, seus olhos pretos revelando angústia e dor, um deles coberto de sangue. Alyssa afastou-se do espelho até bater na parede atrás dela, tentou tocar o próprio rosto, mesmo reconhecendo que não era seu, pois ali estava sua mãe, encarando-a, implorando para sair.
Sentiu uma dor aguda em seu peito, uma apunhalada, duas, três, sua camisola começou a manchar em pontos vermelhos que logo tingiam todo o tecido, dor engolfou-a, não conseguia respirar!
Sentiu-se obrigada a olhar para o espelho enquanto a imagem de sua mãe erguia uma arma para a cabeça de Alyssa, um barulho alto feriu seus tímpanos, sua cabeça foi jogada para trás violentamente, dor a fez tremer, mas não conseguia reunir ar o suficiente para gritar. Olhou novamente para o espelho como em transe, como se algo comandasse "OLHE". Sua mãe permanecia com a arma na mão, mas havia um buraco em sua testa, de onde também começou a escorrer sangue.
Alyssa tentou mover o corpo, o calor parecia esvair dela através do sangue, frio tomava conta, começou a engasgar pela falta de oxigênio, seus olhos pesaram e seu corpo começou a despencar bem a tempo de ver sua mãe apertar o gatilho novamente.
Alyssa arregalou os olhos e engasgou, levantando agitada da cama. Mesmo com frio, seu corpo estava ensopado de suor, apalpou o rosto e o peito enquanto jogava os pés para fora da cama de forma insegura, deu um passo e seus joelhos cederam, arrastou-se até o espelho de corpo inteiro ao lado da sua cama.
Soltou uma respiração trêmula, embora seu coração fizesse pulsar seus tímpanos. Apoiou as costas na cama, sentia-se exausta, seus membros pesados. Não tinha certeza de que conseguiria erguer o braço se fosse necessário.
Olhou pela diminuta janela azul que dava para o prédio ao lado, as cortinas estavam fechadas, o vão entre os prédios permitia que luz o suficiente entrasse. Dada a proximidade com o inverno, era uma luz pálida que não a aquecia o suficiente. Algo afastaria o frio que sinto pesar na minha alma? Pensou sombriamente.
Ouviu barulho na sala, os caras já estariam transformando sua cozinha em um inferno para preparar waffles e bacon o suficiente para um batalhão.
Alyssa não tentou levantar-se do chão, não tinha energia o suficiente no momento, permaneceu olhando para a janela, seu coração e sua respiração haviam se estabilizado, sua mente sonolenta já havia despertado. Não queria chama-los, eles sabiam sobre os pesadelos, sabiam sobre a vida dela e ela os amava e confiava sua vida neles, mas ela sentia-se vulnerável demais.
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Onde as lágrimas repousam [Concluído]
RomanceOs caminhos de Alyssa e Ethan se cruzaram de maneira inesperada. Embora tenham vidas totalmente distintas, possuem algo em comum: traumas que não superaram. Desde que era apenas uma garotinha assustada e tornou-se órfã de forma violenta, Alyssa car...
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