Reconciliação

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Quando Harry Potter finalmente atravessou a porta secreta para a sala comunal da Grifinória já era noite alta, passado da hora do jantar. Os cabelos estavam úmidos da neve que derretera sobre eles, assim como o sobretudo escuro. A pele estava pálida e fria e o hálito cheirava a álcool.

Ele cambaleou para dentro da sala esperando encontrá-la vazia, então se sobressaltou quando uma figura solitária se moveu, empoleirada numa poltrona em frente a lareira que crepitava fracamente suas últimas chamas.

Os olhos castanhos dela brilhavam, refletindo o dourado do fogo quando os ergueu para encará-lo. Ela esticou as pernas e calçou as pantufas.

- Todos já estão dormindo. Sente-se comigo. – gesticulou para a poltrona ao lado diante da lareira e para o cloche sobre uma bandeja na mesa baixa – Ginny deixou comida para você. Ela estava preocupada, Harry.

Ele se arrastou até lá e deixou-se cair sobre o estofado.

- Desculpe. – murmurou, sentindo a garganta obstruída.

Ela inspirou profundamente.

- Draco me perguntou hoje o que eu faria se você estivesse apaixonado por mim.

As palavras o atingiram como um tapa na cara e Harry encolheu os ombros quando a culpa voltou a corroê-lo. Que direito tinha de querer Hermione quando escolheu estar com Ginny? Que direito tinha de atirar os pecados de Malfoy na cara dele quando ele tinha tantos ele próprio?

- Hermione, eu...

- Eu o amo, Harry. – ela o cortou e Harry sentiu algo se quebrar dentro dele – Eu o amo muito. – ela continuou enquanto ele tentava engolir o bolo em sua garganta – E eu percebi que o que sinto por ele é completamente diferente do que senti por você. Do que o que eu ainda sinto por você. – ela suspirou – Você é importante pra mim. E eu ainda me preocupo com você, se está bem, se está estudando o suficiente, se vai conseguir as notas de que precisa para se tornar um auror. Eu desejo, de todo coração, que você seja feliz. Você é meu melhor amigo.

As palavras dela pesaram sobre seus ombros.

- Não quero perder você. – sussurrou ele.

- Eu sei que pensou que perderia quando Draco e eu ficamos mais próximos. – ela disse com suavidade – Sei que achou que eu voltaria todas as minhas preocupações para ele em vez de você. Que deixaria de estar ao seu lado. – ela umedeceu os lábios, hesitante – Quando você e Ginny começaram a namorar eu senti esse mesmo medo. Mas você continuou lá para mim, me apoiando, se esforçando para me animar, me ouvindo e me consolando. Nós nunca vamos perder isso, Harry.

Ele ergueu os olhos para encará-la e se surpreendeu com as lagrimas que rolavam no rosto dela.

- Sei que ficou confuso. – ela continuou – E está achando que está apaixonado por mim. – ela se levantou e se sentou na mesinha diante dele, perto o suficiente para que ele sentisse o calor e o cheiro que ela desprendia – Mas eu o vi com Ginny, a felicidade e a satisfação que sente quando está com ela, o conforto. Eu vejo o modo como ela brinca e se apoia em você e como você a envolve e protege. Isso é estar apaixonado, Harry, é isso que eu tenho com Draco. Eu me sinto segura com ele, como jamais me senti antes. Quando eu estou com ele é fácil, parece certo e eu não hesito.

Ele baixou os olhos e ela se levantou e ergueu a varinha que esteve segurando na mão. Com um gesto na direção dele, Harry sentiu os cabelos e as roupas secarem e esquentarem. Hermione depositou um beijo em seus cabelos rebeldes.

- Não estrague tudo só porque não entende os próprios sentimentos. – ela e se afastou em direção ao dormitório – Coma e não se demore para dormir. – disse por sobre o ombro enquanto andava.

Harry sentiu um pequeno sorriso brincar nos lábios ao ouvi-la instrui-lo, como se ele fosse alguma criança emburrada a ser cuidada e o nó em sua garganta se desfez, as lagrimas escaparam e ele soltou uma risada baixa de alívio ao sentir o vazio que crescera nos últimos dias se preencher. 

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