POV Aléxia
Saímos do hospital e eu liguei pra tia Amália avisando que eu ia passar lá pra falar com ele e com o Rô mas ela me disse que finalmente ela tinha conseguido fazer com que os dois fossem dormir, era melhor eu não ir, pois a noite já tinha sido muito intensa e concordei com ela. Ela me disse também que eles iriam buscá-la, já que não estiveram lá hoje e queriam conversar com o médico também!
_Então mocinha, pra onde vamos agora?- Carlos me pergunta calmamente mas com um certo brilho no olhar...
_Bom, meu carro está lá no restaurante mas está muito tarde pra gente ir lá buscar, provavelmente já está fechado a essa hora.
_Está mesmo mas fica tranquila o estacionamento fica fechado e tem vigia a noite toda.
_Hum, então acho que é melhor você me levar pra casa.
_Lexie, seria muito puxado eu te pedir pra gente conversar lá em casa? A gente tá pertinho, eu não sei você mas eu não vou conseguir dormir tão cedo, tô muito agitado...
_Vou ser sincera, eu também estou, essa movimentação toda com o caso da Cris me fez ficar totalmente agitada e sei que também não vou conseguir dormir.
_Prometo a você que vamos só conversar...
_Tá bom , vamos então! – sei que estou correndo o risco de não ser só uma conversa, mas a esta altura do campeonato eu não quero saber!
Quinze minutos mais tarde estamos parando na garagem da casa dele.
_Vem, seja bem vinda à minha humilde casinha.
Que de casinha não tem nada, desço e olho pra casa que é realmente a cara dele, com a frente totalmente envidraçada e grandes árvores ladeando a casa, dava a ela um misto de rústico e moderno ao mesmo tempo, nos dirigimos à entrada da casa e ele abre a enorme porta de madeira e que ele logo trata de dizer que é feita de madeira reaproveitada, já que ele preza e muito pela proteção do meio ambiente. Ao entrar me deparo com uma sala em tons sóbrios mas bem harmonioso, o chão todo em madeira, a parede onde está um sofá cinza chumbo, metade em madeira e a outra metade pintada também em cinza mas num tom menos escuro, com uma parte em painel artístico com um enfeite vindo do teto feito em vime preto. Ele me leva até o sofá , eu me sento e ele se dirige a um pequeno bar.
_Você quer beber alguma coisa ,mocinha?
_Quero , hoje eu mereço, whisky com gelo- ele me olha espantado mas prepara um pra mim e outro pra ele.
_Não vou te deixar sozinha.- diz se sentando de lado com o corpo virado pra mim e eu faço o mesmo, ficamos por alguns segundo nos olhando e ele diz.
_ Eu não acredito que você está aqui, eu sonhei tanto com isso ao longo desses vinte anos...
_Eu não posso dizer que sonhei porque eu não me permiti sonhar, eu achava que você nunca me quis de verdade então eu tratei de não deixar que nada aflorasse pra não sofrer mais...
_Eu preciso te explicar o que aconteceu, te peço só que você tenha paciência, hoje mais que nunca eu tive que lutar pra não sair correndo de novo mas prometi a mim mesmo que não cometeria o mesmo erro novamente, eu te quero na minha vida e preciso que você saiba disso- ele diz isso e baixa a cabeça puxando o ar com força, como se estivesse sufocando, quando ele levanta o olhar, eu vejo muita dor e angústia.
Fiquei calada esperando ele continuar e quase falei que não precisava ser hoje, que fosse no tempo dele.
_Eu não vou mais adiar isso, eu preciso falar, pôr pra fora, expurgar esses fantasmas da minha cabeça, da minha vida!- ele diz num sussurro, quase que pra ele mesmo.
_Eu perdi minha mãe quando eu tinha seis anos, ela teve um aneurisma que a levou sem qualquer aviso, minha irmã tinha oito pra nove anos na época e como o meu pai não conseguia cuidar de nós, meus avós maternos ficaram conosco. Sofremos com a perda dela mas nossos avós foram muito presentes e eram extremamente amorosos conosco, o que nos ajudou muito a superar a dor da perda . Minha irmã era a princesa da casa, meu avô a mimava , na verdade nos mimava mas ela, além de ser uma criança muito doce era também muito inteligente e cativava a todos, falava pelos cotovelos, não tinha quem não se rendesse a ela. Quando eu estava com doze anos meu avô foi diagnosticado com Alzheimer e a doença avançou mais rápido do que esperávamos, ele cada vez mais precisava da atenção da minha avó e mesmo tendo colaboradores, era ela quem conseguia lidar melhor com ele. Minha irmã e eu fomos nos virando, eu tentava cuidar dela o melhor que eu podia, ela preparava o café da manhã pra nós antes da escola porque vovó passava a noite quase toda acordada com ele. Fomos crescendo e cada vez mais no tornávamos independentes e eu claro, queria curtir, viver as coisas da adolescência, ia deixando-a de lado. Quando ela tinha já seus dezoito anos começou a namorar um rapaz mas nós nunca o conhecemos, segundo ela, ele era um colega da faculdade. Aos poucos ela começou a mudar, parou de sair com as amigas pro shopping , não ia mais ao cinema com os amigos, mudou a maneira de se vestir, eu cheguei a perguntar o motivo, brinquei até, perguntei se ela tinha virado religiosa e agora não podia mais vestir os shortinhos dela. Ela ficou furiosa e gritou comigo, coisa que ela nunca tinha feito mas achei que foi por ter debochado dela.
_Karina simplesmente foi ficando cada vez mais apagada e eu não percebi...
Aí entendi o que ele tanto falava sobre eu ter percebido os sinais, coloquei minha mão sobre a dele por cima do encosto do sofá e entrelacei nossos dedos.
_ Em seis meses ela se tornou outra pessoa, aquela menina cheia de vida, que era a alegria da casa não estava mais ali e dois dias depois dela completar dezenove anos, mais precisamente no dia seguinte ao dia mais feliz da minha vida, eu a encontrei morta no quarto quando fui acordá-la! Ela tomou veneno de rato, nos deixou uma carta dizendo simplesmente que não aguentava mais viver sem ser ela mesma e que não queria nos sobrecarregar com a tristeza dela.
Meu Deus, por isso ele se afastou! Por isso ele sumiu da escola aquela semana e eu fui injusta com ele!- ele apertou minha mão ao perceber que entendi o motivo.
_Eu não percebi, eu não olhei pra ela de verdade e aquilo me matou por dentro, eu não conseguia seguir, eu comecei a mergulhar na busca do porquê, soube que afinal esse tal namorado era um cara de vinte e oito anos, com um histórico de violência e adorava se envolver com meninas novinhas, a melhor amiga dela falou que esse cara a proibia sair com elas, chegou a ameaçar dois colegas delas por estar "perto demais dela". O legista encontrou lesões nela, uma costela que foi quebrada poucas horas antes dela se matar, os pulsos estavam com marcas de que foi agarrada com força, também feito horas antes. Eu e vovó conseguimos todos os dados dele e denunciamos mas naquela época você sabe bem como era, ouvimos da polícia: "não tem provas concretas,ela nunca denunciou, entre outras coisas. Renan e Alê que seguraram minha barra muitas vezes, até que eu passei na faculdade daqui e resolvi mudar e ver se mudava a minha vida também, até porquê meus avós foram para um lar, vovó não tinha condições de cuidar de mais nada, a morte de Karina foi o baque que faltava pra ela desmoronar e eu não tinha saúde psicológica pra lidar com tudo isso, afinal eu também era um garoto que nem tinha feito dezessete anos.
Último de hoje, espero que gostem, votem, comentem e compartilhem, bjo lindonas, até semana que vem!
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Nunca te esqueci
RomanceQuanto tempo um amor pode ser guardado? Por quantos anos é possível lembrar de um aroma, de um sabor ou de um toque? Por quanto tempo os sentidos recordam um amor cheio de promessas não ditas e que não puderam ser cumpridas por causa do destino de o...
