Capítulo 38

489 61 77
                                        

— Nosso trabalho é perigoso, sabemos disso quando entramos. Quando um bombeiro morre em serviço, ficamos chocados — Owen fez uma pausa, engolindo em seco — ficamos arrasados. Mas nas partes mais obscuras da nossa mente, nos preparamos para essa possibilidade.

Arizona não conseguia prestar atenção em nada que acontecia ao seu redor, inclusive às palavras do seu capitão. Ela estava inconsolável.

Todos aproximavam-se para abraçá-la, enquanto ela observava o rosto sereno da mulher da sua vida deitada sobre o caixão.

A loira sentia que nenhum abraço mais importava.

"O seu abraço é o único capaz de me recarregar", lembrou-se da vez em que Callie lhe disse, ao chegar na porta do seu apartamento com uma caixa de pizza, os olhos cansados e olheiras tão fundas que a loira arriscaria-se a dizer que a tenente estava na sua terceira noite sem conseguir dormir.

O que ela faria se o abraço de Callie também era o único capaz de reiniciá-la?

O sanduíche que a loira havia feito para Calliope ainda estava pela metade dentro da geladeira há exatamente uma semana e Arizona não queria se livrar dele porque parte de si acreditava que se livrar do sanduíche seria tentar seguir uma rotina sem o amor da sua vida e ela não queria e não conseguia.

"Oi, meu amor, ahn... droga, ok pode passar, mal educado. Perdão, vida... Um infeliz tentou me ultrapassar, quando essa cidade passou a ser assim? Tão cheia de mal educados filhos da... Enfim, tentei ligar, desculpa eu queria muito ter ido conhecer o seu sobrinho... Me perdoe por isso, na próxima irei sem falta. Eu te amo e dirija com cuidado, preciso de você de volta. Ao chegar me avise, beijo."

A loira havia escutado esse recado na caixa postal tantas vezes que havia memorizado de trás para frente. Calliope era a motorista mais mansa que já havia conhecido. Sempre dava preferência, ela nunca tinha pressa e até quando tinha pressa ela sabia ter paciência e apesar de xingar, nunca tratava ninguém com desrespeito, a forma de ela xingar soava até dócil porque nunca era em tom de ofensa.

Arizona estava com todos os pedaços do seu coração no chão, por várias vezes ela quis abrir os olhos e se dá conta de que era tudo um pesadelo.

A loira sentia como se todo o tempo fosse insuficiente, era assim e ela sabia. Quando se ama nenhum tempo é suficiente, não há tempo que dê conta de viver tudo o que ela gostaria de ter vivido. Não havia tempo suficiente para ela viver tudo o que havia planejado com Callie.

Arizona olhou pela janela, havia uma sensação horripilante pairando naquele ambiente, uma sensação indescritível. Ela via todos se movimentando ao seu redor e não sabia dizer há quantas horas estava sem comer ou beber e nem como ainda conseguia se manter em pé.

Ela viu a neve cair lá fora e repentinamente sentiu tanto medo e preocupação. Ela esfregou uma mão na outra e pousou-a sobre o rosto frio do amor da sua vida, ela queria esquentá-la. A ideia de Callie está sentindo frio a fez sentir uma dor imensamente profunda que fazia doer até seus ossos.

A sensação da pele gélida de Callie em contato com a sua mão quente seria algo que ela jamais esqueceria.

A loira fez círculos no dorso da mão da tenente e esperou ansiosa pela repreensão acompanhada dos risos de Callie, lhe dizendo que aquilo fazia cócegas.

Mas não houve nada e Arizona não sabia o que fazer com o vazio em seu peito. Vê-la deitada, sem vida causava em si uma espécie de inquietação torturante.

Como se pretendesse aquecê-la com seu corpo, a loira debruçou-se sobre o corpo imóvel de Callie e chorou, um choro inicialmente silencioso, o que era tão contraditório comparado ao barulho que havia dentro de si. Ela fechou os olhos com força e os abriu pensando que talvez fazendo dessa forma ela acordaria daquele pesadelo que estava vivendo.

George aproximou-se, tinha os olhos vermelhos, carinhosamente pousou a mão sobre os ombros da loira que se desmanchou em seu colo, molhando todo o terno do rapaz. O'Malley a abraçou tão amorosamente que por um instante ela teve a impressão de que Callie o tivesse mandado abraçá-la dessa forma, pois a sensação era de estar sendo abraçada pela tenente. Ele deslizou uma das mãos pelas costas da loira, a confortando, enquanto ela tremia e soluçava em seu peito e ele não precisava dizer nada, apenas a apertava um pouquinho mais em seus braços.

— Nós... — ela fungou — nós íamos à noite de jogos...ela estava... estava feliz. Tínhamos tantos planos, George, ela queria que todos, que todos soubessem de nós duas — choramingou, escondendo o rosto no peito do amigo — eu não devia tê-la deixado sozinha, não devia. Ela estaria comigo agora, eu não sei... não sei o que vou fazer sem ela, George. Não sei o que fazer, não quero perceber que estou esquecendo a voz dela, o cheiro...os beijos. Meu coração está doendo tanto.

O'Malley não tinha palavras para dizer naquele instante e sentia que qualquer coisa que falasse não seria suficiente. Ele inclinou a cabeça na curva do pescoço de Arizona e chorou como nunca havia chorado na vida.

— Arizona — Karev se aproximou e abraçou a amiga, nunca a havia visto tão frágil quanto naquele momento — eu sinto tanto que tenha que passar por isso — ele sussurrou, ainda abraçando-a.

Arizona não tinha nada a falar, em sua garganta havia um nó e todas as vezes em que ela pensava e ensaiava dizer algo, as lágrimas se encaminhavam de interrompê-la.

Após o que pareceu a eternidade, uma eternidade lenta e torturante, havia chegado a hora de enterrar o amor da sua vida.

Eles haviam se encaminhado para o cemitério e até o céu estava em sintonia com o que estava acontecendo naquele dia, um dia doloroso e medonho, completamente solitário e escuro, frio.

— Nas vezes em que imaginei falar do amor da minha vida — a voz de Arizona ficou embargada e Karev a abraçou de lado, incentivando-a a continuar. A loira enxugou uma lágrima no cantinho do olho, respirou fundo e retomou — Nas vezes em que imaginei falar do amor da minha vida em público... ela... Ela estava vestida de noiva e não descendo em um caixão para baixo da terra — ela fez uma pausa, chorando por alguns segundos antes de prosseguir — Callie era a pessoa mais linda que eu conheci em toda a minha vida, ela... tinha um coração tão generoso e uma alma tão gentil. Era fácil demais amá-la, eu a amava sem esperar nada em troca e ela me dava tudo. Não havia pressão alguma, nem amarras, era amor do jeito como tinha que ser, era o ideal — a loira fungou — Ela frequentemente pegava um trânsito infernal só para comprar os chocolates que ela mesma me viciou em comer — Arizona sorriu fraco — Callie sempre chegava na porta do meu apartamento carregando ou uma caixa de pizza, ou pote de sorvete, caixa de chocolate e ela sempre falava a mesma coisa "trouxe algo pra deixar você um pouquinho mais feliz que ontem" mesmo eu dizendo que não conseguia me lembrar de um dia infeliz desde que ela havia entrado na minha vida — a loira caiu em prantos novamente — Ontem o síndico do prédio apertou minha campainha quase no mesmo horário em que ela costumava chegar e meu coração deu tantas cambalhotas no meu peito, eu... eu nunca quis tanto algo quanto quis que fosse ela na minha porta.

Ela olhou O'Malley sentar-se, meio tonto e viu quando o capitão Owen o socorreu, levando uma garrafa de água e entregando ao bombeiro.

—... nunca imaginei que um dia eu teria uma vida leve, agradável... que na maior parte do tempo fosse repleta de momentos felizes e prazerosos, agora que eu acostumei — a loira respirou fundo — não sei mais como vivera se você não estará mais aqui, se você era a leveza, se era com você que eu criava os meus melhores momentos, os momentos felizes e prazerosos.

Quando o caixão de Callie começou a descer, O'Malley se levantou e se posicionou ao lado de Arizona, a abraçando-a.

Os dois choraram silenciosamente, com a cabeça apoiada uma na outra, Arizona desejando por tudo que tudo aquilo não fosse real.

~.~

Qualquer erro será arrumado em breve!


Broken - CalzonaOnde histórias criam vida. Descubra agora