Capítulo 46

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Quando Calliope atravessou o corredor que a levaria até a sala do presidente do sindicato, não conseguiu deixar de sentir o nervosismo percorrer todo o seu corpo. Sentia como se um nó tivesse se formando em sua garganta e temia que não conseguisse sequer se defender do que estivesse prestes a ouvir.

Talvez fosse isso que a estivesse deixando tão tensa. A jovem tenente sentia seus músculos rígidos e só se alimentou até o tão temeroso dia em que fora marcada a reunião porque Arizona estava sempre a espreita, obrigando-a a se alimentar.

Quando chegou até a sala do pai de Eliza, Calliope parou em frente a porta, como se o simples ato de inspirar profundamente e expirar lentamente fosse ajudá-la a criar coragem para bater à porta e girar a maçaneta.

— Bom dia, senhor — disse formalmente prestando continência.

O senhor de fios grisalhos e semblante abatido meneou a cabeça e indicou com um olhar para que Callie se sentasse.

— Não tomarei muito do seu tempo, tenente — disse o presidente, olhando para o relógio em seu pulso. Ele suspirou — Preciso ficar com Eliza.

Calliope quis perguntar como Minnick estava, mas não achou que seria uma boa ideia.

— O motivo dessa reunião é para lhe dizer que estarei eternamente em dívida com você — pela primeira vez Calliope viu um sorriso se formar no rosto dele — por ter salvado a minha menina — ele levantou-se e se inclinou sobre a mesa, esticando o braço para tocar a mão de Callie, ao fazê-lo ele pousou a outra mão livre sobre a mão dela ainda segurando a sua.

Calliope sorriu e sentiu-se aliviada pela primeira vez naquela semana. Havia se torturado por dias por pensar que seria punida por amar uma mulher do seu próprio esquadrão. A ideia de perder a sua permissão para atuar como bombeira era ruim, mas pensar que talvez pudesse ser transferida para longe de Arizona era três vezes pior e ainda doloroso.

— Senhor, eu não fiz mais do que a minha obrigação — foi a única coisa que Callie conseguiu dizer, ainda sob efeito da sensação aliviante que estava sentindo.

Após sentar-se novamente, o presidente do sindicato continuou sorrindo, dessa vez mais despojado e por um instante foi como se ele fosse uma pessoa comum, sem uma patente tão alta e até cruzou as pernas e girou na cadeira, com os braços no apoio do assento.

— Sabe, tenente... — ele estava pensativo — talvez você seja a primeira pessoa para quem vou dizer isso — o pai de Eliza uniu as mãos em frente ao peito e a encarou — há uns dias dei entrada nos papéis para minha aposentadoria e o capitão Hunt foi a minha indicação para assumir a presidência e você foi a minha outra indicação para assumir o batalhão ao qual a minha filha fez parte.

Calliope não conseguiu esconder o quanto ficou surpresa com aquela revelação. Seus olhos arregalaram-se, ela nunca pensou que um dia seria capitã, talvez seria a primeira em décadas, pelo menos nunca havia ouvido falar de uma figura feminina assumir um posto tão alto em um ambiente ainda tão machista.

— Infelizmente eu não posso mudar as normas — havia um resquício de tristeza no que ele disse — essa foi a única solução que encontrei para você poder amar quem você deseja — o presidente sorriu novamente, dessa vez um sorriso acolhedor como se ele estivesse ciente de todo o romance entre ela e Arizona — Eliza, assim que acordou e percebeu a condição em que estava, não reclamou, não lamentou e muito menos desejou não estar viva, ela disse que deve a vida dela a você e que seria injusto você não poder amar o amor da sua vida.

— Presidente eu... — Calliope parou a frase no ar.

— Dessa forma, eu pensei em muitas maneiras para vocês conseguirem ficar juntas no mesmo batalhão e a minha aposentadoria foi a única solução — ele a olhou nos olhos — eu já estava mesmo pensando em descansar de tudo isso — ele olhou ao redor — passar mais tempo com Eliza e agora ela realmente vai precisar de mim — seu olhar se distanciou por um instante — Eliza tenta parecer forte, mas eu sei a filha que tenho, algumas vezes a encontro com os olhos vermelhos e eu sei que para ela tem sido difícil mesmo que não demonstre — ele voltou a olhá-la — Eliza precisa de mim.

Calliope queria ter algo para dizer, mas apenas balançou a cabeça, imaginando como tudo deveria está sombrio para Minnick.

— No que precisarem, estarei por perto — ele sorriu gentilmente, ah — disse ao se levantar para despedir-se de Callie — Eliza disse que seria uma honra vocês irem visitá-la no Grey Sloan, você e Arizona.

O presidente do sindicato, ao invés de um simples aperto de mão, a abraçou como um pai abraça uma filha e sussurrou mais uma vez um obrigado que Callie teve a certeza de que veio do fundo do coração pois ao se afastarem seus olhos estavam marejados.

[...]

— NÃO BRINCA — disse Arizona, andando até o sofá de Callie, tentando equilibrar duas xícaras de chá — Sério? — perguntou, ainda incrédula.

Calliope estava no sofá, tirando as botas — Sério, fiquei tão assustada quanto você — respondeu, ao pegar a xícara de chá. Elas deram um beijinho singelo antes da loira acomodar-se ao seu lado, sentando-se com os joelhos colados ao peito. Estava frio e Arizona gostava de esquentar as mãos na própria xícara enquanto esperava o chá esfriar para então poder tomá-lo.

— É uma pena que para alguns corações amolecerem seja necessário passar por situações tão rígidas, duras... — disse, ao tomar um gole do líquido em sua xícara — ela olhou para Callie, levantando uma sobrancelha e com um sorriso travesso se configurando em seu rosto — Então você será capitã, huh?

A loira viu um sorriso desconcertado surgir nos lábios de sua namorada.

— O capitão Hunt precisa aceitar.

— Amor, claro que ele vai aceitar. Um dia desses ele estava falando sobre uma vontade antiga de mudar as coisas, fazer uma mudança significativa não apenas no seu próprio batalhão, mas em todos. Melhorias, melhores condições de equipamentos, mais qualidade, mais treinamentos realmente necessários, oportunidades, enfim... — ela bebericou o chá — não tenho dúvidas de que será uma ótima capitã e, ahn... Por algum motivo desconhecido isso me excita.

Callie riu alto, ela deixou a xícara sobre a mesinha e depois pegou a xícara da mão de Arizona, debruçando-se sobre o corpo dela em seguida — Tenho certeza de que não há motivo desconhecido algum, você não aguenta me ver fardada.

— É um equívoco sem tamanho isso que você disse — ela jogou os braços por cima dos ombros da tenente — eu não aguento vê-la sem a farda — levantou a sobrancelha, se divertindo com as feições desconcertadas de sua namorada.

Elas deitaram no sofá tão confortavelmente, com a loira fazendo carinho no cabelo da tenente que a mesma adormeceu.

Sem dúvida, Arizona era o colo acolhedor, o abraço casa, a paz que Calliope tanto precisou tinha o rosto de Arizona.

~.~

Qualquer erro será arrumado em breve!


Broken - CalzonaOnde histórias criam vida. Descubra agora