Quando a capitã lhe entregou a caneca com o chocolate e seus dedos se encostaram, Arizona sentiu seu coração bater forte dentro do peito.
Se essa era a sensação de quase morte, Calliope sempre seria a responsável por fazê-la chegar tão pertinho assim de morrer.
— Obrigada — agradeceu gentilmente.
— De nada — Calliope arrastou o corpo para cima da cama. A capitã arrumou o travesseiro e a loira lhe passou mais um, sabendo que Callie gostava de dormir com dois.
Calliope mexeu no cabelo, passando-o para um lado, depois pegou o celular e o desligou, em seguida tirou os brincos e colocou-a ao lado da cama e por último puxou a coberta acima da cintura.
Arizona sabia de todo esse ritual de cor e a observou fazê-lo atentamente, havia sentido falta disso.
A loira sorriu e antes de levar a caneca até a boca, Callie a olhou embaraçosa.
— O quê?
— Está quente, cuidado.
— Tudo bem.
As duas ficaram em silêncio, de vez em quando Callie a olhava e Arizona a olhava em seguida. Às vezes as duas tinham a sorte de se olharem no mesmo instante e os cantos de seus lábios se viravam para cima, em um sorriso impossível de ser contido.
Quando Arizona terminou, pôs a caneca na escrivaninha.
— Obrigada, estava ótimo.
— Não tão bom quanto o seu, mas obrigada — sorriu.
— Eu não acho que seja verdade, mas aceito o elogio.
Callie afirmou com a cabeça e em seguida direcionou o olhar para outro ponto do quarto, se perguntando quantas horas ainda lhe restava até amanhecer e Arizona ir embora. Ela ficou séria e uma sombra de tristeza perpassou seu rosto.
— O que foi? — perguntou Arizona, ao percebê-la distante.
— Nada.
— Pode falar.
Calliope virou o corpo totalmente para ela, tentando de alguma maneira iniciar essa conversa.
— Eu só estou me perguntando.
— Sobre o quê?
— Quantas horas ainda faltam até amanhecer.
Arizona ficou calada, pensando no que ela havia dito.
— Não sei se quero que vá embora.
— Callie...
— Eu sei que fui eu quem quis assim — revelou, com a voz trêmula — mas não há nada que me faça ignorar o que nós tivemos.
— E você quer ignorar?
— NÃO — disse, percebendo que havia soado desesperador — desculpa, eu quis dizer que eu não quero.
— Por que não me procurou? Uma mensagem, uma ligação — disse Arizona, relembrando o processo doloroso de sentir falta — Por dois meses achei que EU estivesse sentindo sozinha.
— Mas não sentiu, eu estive a ponto de abandonar tudo e ir até você.
— Por que não veio?
— Imaginei que não quisesse me ver e... — ela desistiu de falar.
— E...?
— Soube que você está conhecendo outras pessoas — havia decepção em cada palavra.
— Eu? — Arizona deu uma risadinha.
— Em dois meses você não esteve com ninguém?
— Estive.
— Como queria que eu a procurasse se você estava com outras pessoas? — Callie inquietou-se na cama, fechando a cara — pensei que tivesse dito que também havia sentido a minha falta.
— Não quer dizer que eu não tenha sentido.
— Faz todo sentido: vou sair com outras pessoas, várias pessoas porque estou sentindo falta de Callie.
— O que você esperava que eu fizesse? Que eu ficasse esperando a sua boa vontade de ir me procurar? — esbravejou — Você quem quis ir embora.
— Pelo visto você sempre vai jogar isso no meio de nós duas.
— Vou, em todas as oportunidades que eu tiver, pode ter certeza que eu vou — revelou, com a voz levemente embargada.
— Se isso sempre vai ser motivo pra brigarmos, não vejo como vamos nos resolver.
— Você quer que nós nos resolvamos?
— Eu pensei que também quisesse, mas pelo visto não. Nem sei por que veio me procurar — Callie estava calma e Arizona odiava a maneira como ela conseguia controlar a raiva, porque a loira sabia: Callie estava com muita raiva mas de uma maneira inexplicável a capitã conseguia canalizar esse sentimento e isso a deixava a ponto de socar a parede.
— Como pode ser tão... — Arizona passou a mão pelo rosto.
— Tão?
— Egoísta! — esbravejou.
— Não sou, tenho certeza.
— Por pensar assim eu tenho certeza que é.
— Pensar assim como?
— Esquece — Arizona virou-se para o lado da cama, com os olhos cheios de lágrimas.
— Fala.
— Foi uma péssima ideia ter vindo aqui.
— Também acho.
Arizona deixou as lágrimas escorrerem pelo rosto.
Callie virou-se para o lado da cama, sentindo-se horrível por ter dito isso. Após alguns segundos ela sentou-se na cama, com as costas na cabeceira.
As palavras saíram de sua boca num atropelo.
Como podiam ter se perdido tanto? Em que momento elas deixaram de se alcançar? Em que momento esse abismo havia se formado entre elas ?
Arizona realmente achou, em algum momento, que a história das duas ainda teria alguma salvação. Ela queria que tivesse, ela precisava. Mais que tudo, ela precisava que esse reencontro fosse uma luz e uma bandeira de paz, ao invés de um "tiro no escuro" e mais caos.
Ela podia jurar que essa era a única coisa que importava no momento: poder tê-la novamente. A loira havia guardado toda a sua insegurança, vulnerabilidade e egoísmo no bolso. Havia se despido de qualquer armadura, havia se permitido leveza. Descarregou o seu coração de qualquer mágoa que pudesse ter se escondido porque queria continuar a sua história com a mulher da sua vida.
Admitia que tinha agido impulsivamente ao jogar certas coisas no meio da discussão. Estava cansada. Um misto de saudade e talvez tristeza por terem seguido esse rumo tomava conta de todo o seu corpo.
Pela primeira vez estavam em sintonia diferente e temia que não conseguissem mais encontrar a conexão que possuíam.
Apesar disso tudo, mesmo que chegassem a uma conclusão, mesmo que todo o esforço não fosse suficiente para que permaneçam na vida uma da outra, a loira tinha isso muito claro: "algumas pessoas nos ajudam a nos tornar quem somos e podemos ser gratos a elas, por mais que não fiquem na nossa vida pra sempre"
~.~
Qualquer erro será arrumado em breve!
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Broken - Calzona
FanficQuando Calliope Torres ficou viúva, sentiu uma nuvem nublada pairar sobre sua cabeça. A bombeira jamais se perdoou por não ter conseguido salvar a vida de Penelope Blake, sua esposa, desde então tornou-se uma pessoa enclausurada em culpa e amargura...
