Capítulo 56

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Maia

Desci do carro com as mãos úmidas de suor, os dedos apertando a alça da bolsa como se isso pudesse acalmar a tempestade no meu peito. O céu estava nublado, mas o ar abafado me fazia sentir que algo prestes a desabar não era só o tempo.

Atravessei a rua devagar, avistando o enorme prédio onde ficava o escritório do Peter. Mesmo de longe, as letras douradas ainda me passavam a impressão de algo distante, formal demais... quase inacessível.

Era algo bem chique, não que eu não combinasse com àquele lugar, mas naquele momento parecia ser diferente.

- Olá, vim ter com o Peter Herman. _ falei com a recepcionista.

- Nome?

- Maia, Maia De Luca. _ olhou para mim. Era como se o De Luca fosse alguma expressão em latim que quando a pessoa o dissesse estaria invocando algum demónio.

- As visitas com o Dr. Herman têm que ser agendadas um dia antes. O seu nome não está lista.

- De certeza? Pode ver novamente, talvez tenha lhe escapado.

- Acredite, se tivesse um De Luca na lista, teria reparado.

- Olhe novamente.

Na força do ódio ela checou, com um sorriso forçado mostrou-me a agenda dela. De facto, não tinha nenhuma Maia De Luca.

- Pode abrir uma exceção?

- Apenas sigo as regras.

- Pode pelo menos ligar-lhe a avisar que estou aqui?

- Tem uma reunião importante. Não posso interromper.

- Tudo bem, eu mesma ligo.

Afastei-me do balcão. Sentei e a vadia observava-me como se me conhecesse de outra vida. Feita a ligação, aguardei pela orientação do Peter, desceria em cinco minutos.

O elevador abriu-se e ele apareceu. Só naquele momento consegui o encarar de outra forma, era um homem muito elegante e bonito. Era alto, olhos azuis, moreno e com uma presença intimidadora.

Olhava para mim de um jeito estranho...Como se estivesse desiludido ao ver a minha barriga que parecia crescer a cada momento que respirava.

- Bom dia. _ disse ele esticando sua mão.

- Bom dia. _ apertei. Segundos depois desfaz o aperto e com um gesto, indicou que tinha de segui-lo.

- Parabéns.

- Obrigada. _ involuntariamente acariciei minha barriga.

De lá até ao seu escritório foi um completo silêncio. Muito gentilmente deixou-me entrar primeiro, seu escritório era perfeito, cheia de livros.

- Pode sentar. _ sentei-me na poltrona de couro, tentando parecer menos ansiosa do que realmente estava. - Vai querer beber alguma coisa?

- Não, estou ótima. Obrigada. Como está o Ethan? _ foi o único motivo que me fez ir aí. Eu precisava saber como tudo estava correndo.

- Está saudável.

- Mas?

- Não tem mais, ele está bem.

- Ele está em abrigo ainda?

- Está, mas num espaço mais acolhedor agora. Transferi o processo para um centro com menos crianças e mais acompanhamento emocional. Ele precisa de rotina, de carinho.

- Eu sei...Tudo parece correr tão devagar, credo.

- Vou fazer uma questão, não entre em pânico, apenas responda.

- O que foi?

- Já pensou e se não conseguir a adoção...O que fará?

Olhei para ele com medo.

- Porquê? Por que está me perguntando isso?

- Você entende a minha função no meio de tudo isso? _ Não respondi. - Eu sou o advogado do Ethan, o seu representante legal. A minha função é garantir a melhor para ele, melhor família, melhor abrigo, acho que me entende.

- Acha que não darei tudo isso à ele?

- Foi aberto um pedido de revisão de perfil na sua candidatura à adoção do Ethan. Isso veio da Vara da Infância, mas também de uma pressão mais acima. Uma autoridade federal entrou em contato.

- Federal? _Franzi a testa. - Por quê?

Ele hesitou na sua resposta.

- Por causa do seu marido.

- Eu não entendo.

- Entende sim. _ disse ele, com gentileza e firmeza ao mesmo tempo. - Você é esposa dele e isso levanta bandeiras vermelhas em qualquer processo de adoção.

- Mas eu não estou sendo investigada. _ insisti. - Eu não sou ele.

- Eu sei. Mas para os órgãos de proteção à criança, tudo conta. E o nome dele... está em dossiês delicados. Há suspeitas, envolvimentos e, infelizmente, você está no raio dessa tempestade.

- Não importa o que esses órgãos acham. A Polícia prometeu-me que eu ficaria com ele.

Ele suspirou e levantou.

- Vou lhe dizer algo sobre o Sistema Judicial, tudo é a base de interesse. Mesmo se isso significa criar mentiras.

- O que está dizendo? Que a Polícia mentiu para mim?

- Não. Estou lhe dizendo que a Polícia está pouco se interessando pelo futuro do Ethan, eles só querem uma coisa, prender o seu marido. Esse é o foco deles, mas eu, foda-se o seu marido, eu só quero arranjar uma boa família para ele.

- Eu não...Eu não sei o que dizer ou o que você quer que eu diga.

- Só estou dizendo que mesmo a Polícia tenha prometido a você, se eu não aprovar, você não ficará com ele.

- O quê? _ com àquele discurso dele, eu não sabia o que ele queria.

- Não me interprete mal, Maia. Eu só quero o melhor para o garoto.

- Meu Deus..._ recebi o lenço de papel que ofereceu para mim. - Você acha que eu não serei uma boa mãe para ele?

- Você será uma boa mãe para ele. Como disse inicialmente, foi aberto um pedido de revisão de perfil na sua candidatura à adoção do Ethan. Alguns membros da comissão acham-te um risco para ele e outros não. Por isso, estou aqui, para te defender e mostrar que sua ligação com o Ethan não pode ser ignorada. Mas Maia, preciso que entendas, se esse processo escalar, pessoas poderosas vão tentar interferir.

- Isso não me assusta. Farei tudo e enfrentarei todos para ter o meu filho comigo.

- Que bom._ levantou-se novamente. - Espero que tenhas pensado também no divórcio.

- Estou trabalhando nisso.

- Formaliza isso. Prova, com tudo o que tiver, que tua vida e a do Ethan não têm nada a ver com ele. E acima de tudo, continua fazendo o que já fazes: sendo mãe. Eles vão observar tudo a partir de agora. Embora admita que será algo bem difícil.

- Porquê?

- Bom, está carregando um filho dele, é algo que vos unirá para sempre.

Olhei para a minha barriga. Naquele momento desejei que não fosse dele, mas do Noah.

- Isso resolve-se. Quando é que poderei vê-lo?

- Se quiser mesmo hoje p...

- Quero. _ ele sorriu com o meu entusiasmo.

- Ótimo, vamos então.

Ele pegou no seu casaco e abriu a porta para mim. Não tínhamos muita coisa para dizer um ao outro, afinal de contas, a única coisa que nos unia era o Ethan. Mas não foi tão constrangedor, ele não era assim tão intimidador.




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