Greco De Luca
O cigarro queimava devagar entre meus dedos, mas minha cabeça estava em chamas. O silêncio entre mim e Vin só era quebrado pelo som do motor do carro e o estalo seco da cinza caindo na janela entreaberta.
- Confia nele? - sem rodeios, ele questionou. Olhei para ele, sem piscar, continuou dirigindo, olhos fixos na estrada.
Assenti com a cabeça, jogando o cigarro pela janela. O gosto amargo que ficou na boca não era do fumo, era da dúvida.
- Obviamente não de olhos fechados, mas...Confio. Porquê? Sabe de algo que eu não saiba?
- Não.
- Então?
- Ele é Capitão.
- E corrupto, é rato velho. Já se vendeu tantas vezes que esqueceu pra quem jurou lealdade. Não é burro. Sabe que, se abrir o bico, o próprio túmulo vai ser cavado por ele mesmo.
- E se ele achar que ganha mais se ferrar com a gente?
Dei uma risada seca, sem humor.
- Todo mundo tem um preço. Só temos que garantir que o nosso seja o único que ele consiga pagar.
Fiquei em silêncio por um instante, encarando o reflexo borrado da cidade no vidro. O problema não era só o Maddox. Era o sistema todo, corroído de dentro pra fora. E, no meio daquilo tudo, eu estava apostando minha vida e a dela em gente assim.
- Está entregue. _ ele disse parando o carro.
- Não esqueça de fazer o que mandei.
- Sim, senhor.
A casa estava em silêncio.
Silêncio de lugar abandonado, como se até os móveis tivessem saído para respirar. As luzes estavam apagadas, só a penumbra filtrando pelas janelas. Passei pela sala sem pensar muito, cansado, irritado, querendo um pouco de nada. Mas bastou virar o corredor pra sentir que não estava só.
- Boa noite, senhor. _ com o olhar baixo ela disse.
- Minha mulher ainda não chegou?
- Não, senhor.
Suspirei e olhei para as horas.
- O senhor vai querer alguma coisa?
Olhei para ela da cabeça aos pés.
- Está usando a roupa da minha mulher? _ Curto, fino, quase transparente à luz fraca que entrava pela janela. Um daqueles que ela usava pra dormir, quando queria provocação e silêncio ao mesmo tempo.
Vi aquele vestido dezenas de vezes jogado no encosto da cama, deslizando pelo corpo dela quando vinha até mim com aquele olhar que dizia mais do que qualquer palavra.
- Ela mesma deu para mim, senhor. Disse que está gorda e que não está lhe servindo mais.
Claro que aceitou. Não pelo tecido. Mas pelo simbolismo. Como se, vestindo aquilo, herdasse uma parte dela.
- Como quiser.
- Senhor ainda não disse se vai querer alguma coisa. _ me virei e a encarei mais uma vez.
- Traga um chá, estou no escritório.
- Está bem.
A água escorria quente pelas costas, mas o que eu queria mesmo era apagar o que vi.
O vestido.
O olhar.
A fraqueza.
Fechei os olhos e apoiei as mãos na parede fria do box. O vapor subia como fumaça, mas a sensação era de sujeira. Não física, aquela eu lavei com sabão e descaso. Era por dentro. Um incômodo instalado ali, bem no fundo, difícil de arrancar.
VOCÊ ESTÁ LENDO
INFILTRADO
RomanceNolan é um policial determinado a desmascarar um poderoso empresário, mas para isso precisa se infiltrar como guarda-costas da esposa dele, Maia - uma mulher misteriosa e cheia de segredos. Conforme a missão avança, a linha entre o dever e o sentime...
