Capítulo 4

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← Maia →


A cabeça latejava, como se tivesse levado um soco, ou bebido demais.

Ainda estou sentada na cama, tentando juntar os pedaços da noite anterior, mas as lembranças chegam em fragmentos.

Àquele homem, o meu novo motorista.

Lembrava-me dele no carro, firme, preocupado, segurando-me enquanto eu quase desmaiava.

A corrida até o hospital, os médicos cuidando de mim… tudo se misturava em tensão e alívio que ainda pulsava dentro de mim.

Era breve, mas intenso.

Ele não me deixava sozinha por um instante sequer, e mesmo agora essa lembrança me dava um estranho conforto.

Olhar ao redor lembrava-me onde estava agora: em casa. O choque da realidade se misturava à sensação de segurança que eu tivera na noite anterior.

Era confuso, quase impossível de processar.

Então percebia algo sobre mim mesma: estava usando um casaco que não era meu.
Era grande demais, confortável, quente mas definitivamente não era meu.

Ainda assim, ficava com ele.
De algum modo, era um refúgio silencioso, como se carregasse comigo um pouco da proteção que Noah me dera naquela noite, mesmo que apenas pelo tecido cobrindo meus ombros.

Olhei para as horas.

Era tarde.

A porta foi aberta e com muito receio entrou a Mila após pedir minha permissão.

- Boa tarde, senhora. _ ela disse.

- Oi. _ ajeitei-me melhor no casaco.

- Como está? Sente-se melhor?

- Sim, obrigada.

- Vou preparar o banho da senhora.

- Não há necessidade, eu mesma preparo.

- Eu não me importo...

- Eu já disse que não há necessidade.

Sentia-me cansada, não do corpo.

Cansada por dentro.

Um pensamento insistente atravessava-me a mente: talvez ninguém me amasse de verdade.
Talvez tudo ao meu redor fosse apenas obrigação.

Tratavam-me bem porque eram pagos para isso.

Porque fazia parte do trabalho.
Porque era o que se esperava.
Se não fossem pagos, talvez eu não significasse nada para eles.
Essa ideia não me revoltava.

Apenas me entristecia.

Apertava o casaco contra o corpo sem perceber.

Era estranho como aquele pedaço de tecido me dava um conforto que eu não encontrava em mais lugar nenhum naquela casa.

Fechava os olhos por alguns segundos, respirando fundo.
Não queria chorar.

Mas sentia-me terrivelmente sozinha.

- Me deixe sozinha. _ sem olhar para ela pedi.

Triste, ela saiu do quarto.

Fiquei ali sozinha, sentada na cama, sentindo o silêncio me envolver como um peso.

Olhei para a bancada e vi uma foto.
Era eu, vestida de noiva, ao lado de Greco.

Fiquei encarando aquela imagem, tentando juntar os pedaços do que aquilo significava. Já estava casada com ele há um bom tempo.

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