Five

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RUBY

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RUBY

A manhã começava como todas as outras, o sol mal aparecia no horizonte, e o silêncio da fazenda tomava conta da vastidão. Os sons do gado e o vento suave nas árvores eram a única coisa que quebrava a calmaria. Era a tranquilidade que eu mais gostava, e, ao mesmo tempo, a que mais me assustava. Afinal, ainda estava em uma terra estranha, longe de Massachusetts, longe da minha família, e da minha vida antiga. Mas, por mais que o começo tivesse sido difícil, eu sentia que ali, ao lado daquelas pessoas e daquelas terras, havia algo que me fazia querer ficar.

Nos últimos dias, o trabalho havia ficado mais puxado. Os outros funcionários estavam arrumando uma cerca em uma parte mais distante da fazenda, o que me deixou sozinha com Elijah, mais uma vez. Eu, que ainda não me sentia completamente parte do time, e ele, que parecia sempre tão seguro e autocontido. No fundo, isso me deixava nervosa, mas ao mesmo tempo, também me dava uma chance de mostrar a ele que eu realmente podia fazer aquilo.

Elijah parecia não se importar muito com o silêncio, mas eu sempre sentia uma necessidade de preencher aquele espaço, especialmente quando ele estava por perto. Havia algo nele que me fazia querer saber mais, me fazia querer falar. Talvez fosse o jeito dele, tão calmo e resoluto, algo que eu ainda não conseguia entender completamente. Ou talvez fosse o fato de ele ter contratado alguém como eu, sem saber o que esperar, e me dar a chance de provar que eu podia fazer algo mais.

Hoje, Elijah parecia mais disposto a me envolver no trabalho, e a cada passo, eu me sentia mais conectada àquele lugar, mais conectada a ele. Estávamos indo até o campo para cuidar do gado, e eu estava animada, apesar da exaustão dos últimos dias.

— Como você está se saindo com o trabalho? — Elijah perguntou enquanto caminhávamos até o curral. Ele estava com o chapéu de palha abaixado, como sempre, e a voz dele tinha uma suavidade que eu ainda não estava acostumada a ouvir.

— Está sendo mais difícil do que eu imaginei, mas estou indo bem, acho — respondi, tentando esconder o cansaço que já se acumulava em minhas pernas. Desde que comecei a trabalhar aqui, meus músculos estavam constantemente doloridos, e os dedos das mãos tinham calos, mas eu nunca iria admitir isso para ele. Ele já sabia que eu estava começando a me acostumar, mas não podia parecer fraca demais.

— Eu posso ver que está se esforçando. Não é fácil para alguém sem experiência, mas você tem mostrado que pode lidar com as coisas — ele disse, com um tom que, pela primeira vez, parecia mais pessoal.

Eu olhei para ele, um pouco surpresa, mas ao mesmo tempo, uma sensação boa se espalhou por mim. Aquele tipo de elogio vindo dele significava algo. Ele era exigente, eu sabia disso, mas também era justo.

— Obrigada, Elijah. Eu realmente estou tentando. Quero que as coisas funcionem por aqui — disse, ajustando meu boné, tentando esconder a sensação de nervosismo que estava começando a crescer dentro de mim.

Continuamos a caminhar, e o campo de gado logo apareceu à nossa frente. O som dos animais se aproximando foi o suficiente para me fazer voltar à realidade. Esse era o trabalho que eu estava fazendo, e, mesmo com os desafios, eu estava feliz por estar aqui. Ao lado de Elijah, parecia que tudo ficava mais fácil. Ele tinha uma maneira de falar que me fazia confiar nele, e eu sabia que, de algum modo, ele via algo em mim que nem eu mesma via.

O trabalho com o gado começou a fluir naturalmente. Eu já estava mais familiarizada com os animais e, apesar de não ser uma especialista, eu sabia o suficiente para ajudar. Elijah observava em silêncio, mas não demorou muito para que ele começasse a interagir mais.

— Está indo bem, Ruby — disse ele enquanto eu ajudava a guiar o gado para o cercado. Sua voz, firme como sempre, parecia mais amigável do que o normal. — Eu estava começando a achar que você não ia aguentar o ritmo, mas você me surpreendeu.

Eu sorria, um pouco tímida, mas feliz. Elijah não costumava me dar muitos elogios, então, quando ele dizia algo, eu realmente prestava atenção.

— Bem, não seria a primeira vez que me surpreendo, né? — respondi, tentando fazer uma piada para aliviar a tensão. Mas ele apenas olhou para mim, sem sorrir, o que me fez perceber que ele era uma pessoa que nem sempre demonstrava seus sentimentos.

O trabalho continuou e, conforme o dia passava, eu começava a perceber que estava ficando cansada. Os meus pés já estavam queimando dentro das botas, e eu podia sentir o suor escorrendo pela minha testa. Mesmo assim, eu não queria parar. Eu queria mostrar que podia fazer aquilo sem parecer fraca.

Quando terminamos de cuidar do gado, eu tirei as botas para descansar um pouco. Meus pés estavam doloridos e avermelhados. Quando Elijah se aproximou, não pude deixar de notar o olhar dele para os meus pés.

— Ruby, você... — ele começou, hesitante, e eu o olhei, sem saber o que ele queria dizer. — Você vai e volta do trabalho a pé, não vai?

Eu assenti, sem saber o que responder. Não queria parecer que estava me queixando, mas a verdade era que os quilômetros diários estavam começando a pesar. Além disso, o fato de eu estar andando a pé todos os dias não era algo que eu considerava normal. Mas o que mais eu poderia fazer? Eu não tinha dinheiro para pagar por um transporte, e a pensão onde eu estava morando ficava um pouco distante.

— Sim, eu faço isso — disse, tentando não demonstrar a dor nos meus pés.

Ele franziu a testa, como se estivesse calculando alguma coisa.

— Não devia fazer isso, Ruby. Todos os dias, um dos motoristas da fazenda pode te levar e te buscar na pensão. Eu não sabia que estava te sobrecarregando desse jeito — disse ele, com uma seriedade na voz que eu não estava esperando.

Eu o olhei, surpresa com a sua proposta. Não queria aceitar logo de cara, mas sabia que seria um alívio para mim. No fundo, eu sabia que não precisava fazer tudo sozinha, mas, por alguma razão, sempre me sentia como se tivesse que provar algo.

— Eu... não queria causar problemas. Estou acostumada a andar, e não quero fazer você gastar mais do que já está gastando com o trabalho — respondi, um pouco hesitante.

Elijah me olhou por um longo momento, e eu senti que ele estava tentando entender o que eu realmente queria. Depois de alguns segundos, ele falou novamente, com a voz mais suave.

— Não é um problema, Ruby. Eu não quero que você se machuque ou se sinta mal por causa disso. Todos na fazenda têm responsabilidades, e a sua é o trabalho duro. Não quero que se sobrecarregue com mais nada. — Ele pausou, e eu senti uma leveza nas palavras dele. — A partir de amanhã, o motorista vai te buscar e te deixar lá. Não vai mais precisar andar até a pensão.

Eu fiquei em silêncio por um momento, processando o que ele acabara de dizer. Talvez fosse a primeira vez que ele realmente me olhava de uma maneira mais humana, sem o distanciamento usual. E isso, de algum modo, me deixou mais calma. Eu sabia que, de alguma forma, ele estava tentando cuidar de mim, mas sem ser excessivamente protetor.

— Obrigada, Elijah. Eu realmente aprecio isso — falei, sorrindo levemente, ainda sem acreditar no que estava acontecendo.

Ele assentiu, ainda com a expressão séria, mas os olhos dele pareciam mais gentis.

— Não tem de quê. É o mínimo que posso fazer. Agora, vamos terminar por aqui. — Ele deu uma leve olhada para o campo e depois para mim. — E, Ruby, só continue assim. Você está indo muito bem.

E, com aquelas palavras, eu senti uma onda de alívio. Talvez eu estivesse finalmente começando a me encaixar naquele lugar, talvez Elijah estivesse começando a me enxergar de uma maneira diferente. Só o tempo diria.

𝐓𝐄𝐍𝐍𝐄𝐒𝐒𝐄𝐄 𝐖𝐇𝐈𝐒𝐊𝐄𝐘Onde histórias criam vida. Descubra agora