Em uma pequena cidade do Tennessee, Ruby Mae Caldwell busca um recomeço, deixando para trás a vida agitada da cidade grande. Lá, ela conhece Elijah Walker, um fazendeiro reservado e determinado, que a contrata para trabalhar em sua fazenda, mesmo du...
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
ELIJAH
Eu estava encostado na cerca do pasto, observando o sol descendo no horizonte e tingindo o céu com tons alaranjados e dourados. Ruby estava ali ao meu lado, em silêncio, encarando o mesmo cenário, com os cabelos soltos e um olhar perdido, como se ela estivesse em outro mundo. Gostava desses momentos com ela. Com o tempo, fomos construindo uma amizade verdadeira, mas, para ser sincero, eu sabia que havia algo mais ali. Algo que ia além de simples amizade ou companheirismo de trabalho. E talvez fosse o cansaço do dia ou só a calmaria do entardecer, mas senti vontade de falar.
— Sabe, Ruby, ser fazendeiro não é exatamente a vida que eu imaginava pra mim — comecei, com um tom mais sério.
Ela se virou para mim, surpresa, mas sem me interromper. Eu quase nunca falava sobre esses assuntos, mas com Ruby, parecia que era fácil se abrir, mesmo sobre as partes mais duras.
— Muita gente pensa que é simples, que é só acordar cedo, cuidar dos animais, plantar e colher. Mas... essa vida tem muito mais por trás. Tem sacrifícios que poucos enxergam. — Suspirei, buscando as palavras certas. — Minha família sempre esteve na fazenda, de geração em geração. Meu pai costumava dizer que a fazenda era o coração da nossa família. Mas, ao longo dos anos, vi ele se desgastar, envelhecer antes do tempo, tudo por conta da pressão de manter as coisas funcionando.
Ruby ouvia atentamente, seus olhos azuis transmitindo uma compreensão silenciosa.
— É um peso que nunca some, sabe? Sempre tem algo quebrando, uma conta atrasada, uma tempestade que ameaça destruir o trabalho de meses. — Sorri, mas era um sorriso amargo. — E, no fim das contas, a gente se sacrifica. Sacrifica tudo. A liberdade, os sonhos... até as relações.
Ela pareceu entender, como se sentisse o peso das minhas palavras.
— E você? — perguntei, curioso. — Você fugiu de casa,mas como se sente?
Ela desviou o olhar, mordendo o lábio como se estivesse pensando se deveria ou não se abrir. Mas depois de alguns segundos, suspirou e começou a falar, a voz um pouco mais baixa e hesitante.
— Quando decidi ir embora, não foi uma escolha fácil. Sair da cidade era como romper com tudo que eu conhecia, tudo que eles esperavam de mim. Fui chamada de ingrata, de rebelde... mas, ao mesmo tempo, eu sabia que, se ficasse, acabaria perdendo quem eu realmente era.
Ela desviou o olhar, mas eu pude ver a tristeza e a dor escondidas ali.
— Tive que vender praticamente tudo o que eu tinha pra juntar o dinheiro e vir pra cá. Não sabia o que me esperava, mas... o Tennessee parecia ser um lugar onde eu poderia recomeçar. Só que esse recomeço, Elijah... ele foi mais difícil do que eu imaginava. Passei noites em lugares que preferia esquecer, dormi em quartos de aluguel apertados e muitas vezes pensei em voltar atrás, em pedir desculpas e retomar a vida que minha família queria pra mim. Mas no fundo, sabia que isso seria um erro. Que eu precisava desse passo pra me encontrar.
Ela fez uma pausa, engolindo em seco, como se lutasse contra as lágrimas. A dor nas palavras dela mexeu comigo de um jeito inesperado. Ruby não era só uma garota da cidade que veio pra fazenda em busca de trabalho. Ela tinha uma história cheia de marcas e feridas que não eram fáceis de curar.
— Sabe... eu não sei se algum dia vou realmente pertencer a esse lugar — confessou, com um sorriso triste. — Sempre fico com medo de que, no fundo, o Tennessee seja só mais uma fuga. Que, talvez, o problema seja eu.
Eu me aproximei um pouco mais, tentando encontrar as palavras certas.
— Eu entendo esse medo, Ruby. De certa forma, a fazenda é a minha fuga também. Não sei se estaria aqui se não fosse pela responsabilidade com minha família, pela promessa que fiz ao meu pai antes de ele partir. Às vezes, sinto que tô vivendo mais pelos outros do que por mim mesmo.
Ruby assentiu, como se compreendesse cada palavra. Havia algo especial na forma como ela ouvia, como se cada frase fosse importante. E aquele silêncio entre nós, enquanto trocávamos esses pedaços de nossas histórias, era quase mais forte do que qualquer conversa.
Depois de um tempo, ela me olhou nos olhos e, com uma voz suave, perguntou:
— Mas e agora, Elijah? Ainda sente que a fazenda é só uma responsabilidade?
Pensei por um momento, antes de responder.
— Não mais. De alguma forma, acho que aprendi a encontrar algo meu aqui, algo que me faz querer continuar. Não sei se é o jeito que as coisas funcionam ou as pessoas que conheci pelo caminho. Mas, desde que você chegou, Ruby... eu comecei a ver as coisas de uma forma diferente. A pensar que talvez eu possa viver algo além da fazenda.
Ela sorriu, um sorriso tímido mas sincero, que aqueceu meu peito de um jeito inesperado. Era um sorriso que mostrava esperança, que mostrava que, talvez, nem tudo estivesse perdido.
— Obrigada por dividir isso comigo, Elijah — disse ela, baixinho. — Eu sei como é difícil se abrir, e... eu me sinto um pouco menos sozinha sabendo que você entende o que é carregar um peso assim.
O sol já estava quase se pondo por completo, e o céu acima de nós brilhava em tons de rosa e laranja. Por um momento, não havia mais nada além daquele instante, daquela conexão que havíamos construído.
E, enquanto a observava ali, ao meu lado, percebi que Ruby não era apenas uma funcionária na minha fazenda. Ela era muito mais que isso. Ela era alguém com quem eu poderia compartilhar minhas dores, alguém que me compreendia de um jeito que ninguém mais conseguia. E, naquele momento, soube que, de alguma forma, nossas histórias estavam entrelaçadas.