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Seattle, Washington - 2013

Eu fazia uma coisa quando era criança.
Gostava de desmontar coisas.
Qualquer coisa.

Brinquedos, rádios velhos, controles quebrados. Eu tirava cada parafuso com cuidado, separava as peças em pequenas pilhas na mesa e observava tudo como se fosse um quebra-cabeça.

Eu queria entender como funcionava.
Depois eu montava tudo de novo.
Ou pelo menos tentava.

Mas quase sempre acontecia a mesma coisa.
No final... sempre sobrava uma peça.

Pequena.
Esquecida na mesa.
E eu ficava olhando para ela, tentando lembrar de onde tinha saído.

O que se faz com a peça que sobra?

A gente desmonta tudo outra vez tentando descobrir onde ela se encaixa?
A gente força ela em algum lugar esperando que funcione?
Ou a gente aceita que talvez... aquilo ainda funcione mesmo sem ela?

A vida é um pouco assim.
A gente passa anos montando tudo com cuidado.

Amor. Família. Casa. Filhos.

E então alguma coisa quebra.
Alguém vai embora.

Alguém morre.

E de repente você está ali... segurando uma peça que não sabe mais onde encaixar.

O ar frio de Seattle recebeu as três assim que atravessaram as portas do hospital.

O cheiro era o mesmo de sempre.

Antisséptico.
Café velho.
Pressa.

Alina empurrou a porta de vidro enquanto Hannah e Carolyn caminhavam a frente de mãos dadas, com passos pequenos e rápidos.

O saguão do Grey Sloan Memorial Hospital estava cheio como sempre.

Internos correndo.
Macas sendo empurradas.
Enfermeiros atravessando o corredor com pranchetas nas mãos.

Era estranho como alguns lugares conseguiam permanecer exatamente iguais, mesmo quando tanta coisa na vida mudava.

— Olha só quem voltou.

A voz familiar veio do balcão da recepção.

Alina levantou o olhar e encontrou Alex encostado ali, os braços cruzados, observando a cena com um sorriso preguiçoso.

Ao lado dele estava Jackson, folheando distraidamente um prontuário.

Alina parou diante deles.

Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca.

— Quem é vivo sempre aparece. — ela olhou pras filhas e fez um pequeno gesto com a cabeça. — Meninas, digam oi pro dindo e pro tio Jack.

As duas olharam para cima ao mesmo tempo.

Oi! — disseram juntas.

Jackson fechou o prontuário e sorriu imediatamente.

— Sentimos falta de vocês.

— Também sentimos falta de vocês — Alina respondeu. — Como tá a April e o bebê?

— Estão ótimos. — Jackson sorriu.

Alina apoiou as mãos no balcão por um segundo.

— Que bom, fico feliz. — ela sorriu tocando o braço de Jackson antes de se virar para Alex. - Cadê a Meredith?

Código AzulOnde histórias criam vida. Descubra agora