+ Bônus

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Alguém pediu bônus? Dois anos depois de acabar a fic tá aí, só pra matar a saudade! Espero que gostem, agora definitivamente o final kkkakkaka

Ainda se lembravam do momento em aquilo era só um sonho molhado de champanhe nacional, lágrimas e risada bêbada da Bethânia gritando "viva os noivos!". Um delírio bonito de quem ainda morava num apartamento barulhento na Zona Sul do Rio e precisava fechar as cortinas para poder se beijar sem medo.

Mas promessas feitas entre lágrimas de felicidade têm mania de se realizar.

A casa no litoral da Bahia começou a ser desenhada em guardanapos de restaurante em 1989. Virou planta baixa em 1990. Ficou pronta em 1991. E, em 1993, quando o Rio já parecia grande demais para o amor que eles carregavam, eles fecharam o apartamento, colocaram na caminhonete o violão, o rádio de válvulas e as roupas.

A caminhonete já estava carregada. Só faltava fechar o apartamento de vez. Eles tinham marcado de sair às cinco da manhã, mas eram quase quatro da tarde e nenhum dos dois conseguia dar o último giro na chave. Ficaram ali, na sala vazia, ecoando passos, olhando as marcas mais claras na parede onde antes tinham quadros, o risco na porta onde Chico media a altura de Silvinha (uma adulta com sua própria família agora), a mancha de vinho no chão que ninguém nunca conseguiu tirar (da noite em que comemoraram o fim da ditadura).

Caetano estava na sacada, de costas, olhando o Pão de Açúcar como quem olha uma fotografia antiga. Chico se aproximou devagar, passou os braços pela cintura dele por trás, encaixou o queixo no ombro. Ficaram assim um tempo, sem falar, só ouvindo o barulho da cidade lá embaixo: buzina, vendedor de mate, criança gritando gol no campinho da praça.
Caetano falou primeiro, voz baixa, quase engolida pela brisa.

"Chico... como você tá se sentindo agora? De verdade."

Chico respirou fundo, apertou um pouco mais a cintura dele.

"Com medo."

Caetano virou o rosto só um pouco, surpreso.

"Medo?"

"É. Medo de não sentir saudade. Medo de olhar pra esse morro, pra essa praia, pra essa bagunça toda... e descobrir que eu já não caibo mais aqui. Que eu já virei outra pessoa e nem percebi."

Caetano ficou quieto. Virou-se de frente, encostou as costas na grade, segurou o rosto de Chico com as duas mãos. Os fios de cabelo brancos começavam a ficar bem evidentes agora.

"E aí? Você vai sentir saudade?"

Chico olhou pra além dele: o Cristo de braços abertos, os barquinhos no porto, a favela brilhando no sol da tarde. Olhou como quem se despede de um amor que foi importante, mas que já não cabe mais no peito.

"Eu sinto... alívio."

Caetano ergueu uma sobrancelha, meio sorriso.

"Alívio?"

"É. Alívio de saber que tudo que eu precisava levar dessa cidade eu já tô levando agora, nos meus braços. O resto... as melhores lembranças... elas vão comigo também. Mas não precisam mais de endereço aqui. Elas moram com a gente."

Caetano sentiu os olhos marejar. Beijou devagar a testa de Chico, demorado, como quem sela uma carta.

"Você tem certeza que não vai olhar pra trás daqui a cinco anos e pensar 'puta merda, o que foi que eu fiz'?"

Chico sorriu, aquele sorriso de canto de boca que Caetano amava desde 1967.

"Eu já olho pra trás todo dia, Caetano. Olho pra trás desde o dia que te conheci. E nunca, nenhum dia, eu pensei 'puta merda, o que foi que eu fiz'. Eu só penso: 'ainda bem que eu fiz'."

Amor Mais Que DiscretoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora