Seis meses antes de ela ir embora
Escrevi uma cara em resposta à Valentina. Foi escrita em folha de caderno, com um envelope improvisado e colado com aquela cola branca de escola. Parecia um lixo comparado com a carta que ela havia me mandado, mas fiquei feliz por escrever.
"Olá, primeiramente bom dia. Ou noite. Queria te informar que já inventaram um aparelho incrível chamado telefone, por ele as pessoas conseguem conversar através da fala. Haha. Brincadeiras à parte, estou bem sim, obrigado por se importar e também por não contar a ninguém. Acho então que agora somos amigos, certo?
Aventureiro Impulsivo."
Observei minha obra prima, sentado na escrivaninha. Coloquei a carta contra o sol com as minhas mão: estava horrível. Ri sozinho, até que aquilo era divertido.
— Filho – disse minha mãe da porta. – Pode ir no mercado pra mim?
— Claro – disse eu me levantando da cadeira, aproveitaria para entregar a carta. Ainda não sabia como faria, será que eu deveria entregar em mãos? Acho que não.
— Tome – disse ela me entregando alguns trocados. – Traga pão pro café e um saco de leite, se o dinheiro não der diga à Dona Neusa que anote, pois lhe pago fim do mês. — Ela fez uma cara de preocupada. – Você está bem, Edu?
— Estou sim mãe, já estou indo.
Desci as escadas rapidamente e saí porta afora. O dia estava bonito, o céu estava azul e pássaros voavam livres cantando de um lado para o outro. Caminhei por entre o quintal e pulei a cerca. O mini mercado ficava relativamente perto da casa de Valentina. Já havia decidido, eu passaria pela casa dela primeiro e colocaria a carta na caixa de correio, era mais fácil que olha-la nos olhos e muito menos vergonhoso.
Quando passei na esquina da casa dela pude observar encostado no muro um cara alto e bem aparentado. Devia ter uns 22 anos. Tinha os braços fortes e vestia uma camisa branca, estava fumando um cigarro. Junto a ele estava Valentina, usava um moletom preto que era maior que seu corpo – provavelmente pertencia a ele —, e calças jeans escuras. Senti um aperto no peito, claro, só podia ser seu namorado. Uma garota bonita e simpática haveria de ter um namorado, provavelmente só mandara a carta porque era uma garota realmente boa, e eu me enchendo de esperanças. É estranho como um simples ato de bondade pode ser confundido com paixão.
Segui chutando uma pedra até o mercado, comprei o que minha mãe pediu e nem tive ânimo de comprar aqueles pirulitos "Chup Chups". Voltei segurando a sacola, olhando o chão seco e contando as rachaduras da calçada. Quando passei novamente pela esquina de Valentina, vi que nem ela ou o cara misterioso estavam ali. Resolvi deixar a carta, apenas por educação.
Coloquei na pequena fenda para cartas que havia no muronão muito alto, a carta deslizou com sutileza e sumiu na pequena escuridão.Voltei pra casa sem muito ânimo, sem querer realmente chegar lá, mas também semquerer ficar na rua.
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88Hz
AventuraUma garota que foi embora, três amigos inseparáveis, uma promessa e um velho rádio. 88Hz conta a história de Eduardo Caravela, um jovem de dezessete anos que, depois que o amor de sua vida vai embora, conta com a ajuda de seus melhores amigos para...
