Pra Me Lembrar

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Dois meses antes de ela ir embora.

Era dia 23 de dezembro, um dia antes da véspera de natal. Ao contrário dos filmes que passavam repetidamente ao longo daquela semana na televisão, não havia neve. Só os mesmos dias quentes e ensolarados como é costume no verão do Brasil. Eu não sabia que surpresas aquele dia me traria, mas eu queria estar com Valentina — coisa que todo garoto apaixonado faz. Aliás eu acredito que o amor é um tipo de obsessão, e não acredito que nenhuma obsessão possa ser saudável, mas na época eu era apenas um garoto vivendo seu primeiro relacionamento e tentando tirar o melhor proveito disso.

Eu havia pintado dois quadros para Valentina. Não era o melhor presente para se dar de Natal, até porque isso era algo que eu fazia com frequência, porém eu não tinha dinheiro pra comprar nada. Além disso eu havia feito uma música, mas confesso que havia ficado horrível — embora se eu tivesse tocado para ela, tenho certeza que ela sorriria de orelha a orelha e diria "É linda. Você mesmo compôs?". São os truques que as garotas usam pra não te deixar triste. Às vezes tudo que precisamos é de um elogio.

Tomei um banho demorado enquanto ensaiava meios de entregar meus presentes para Valentina. "Fui eu mesmo que pintei." "É pra você." "Eu te amo." Eram todos igualmente bobos e clichês. Eu já havia pintado Valentina, já havia feito de tudo. Nada mais era novidade. Então uma pedra atingiu a janela do meu quarto e fez ela se estilhaçar em mil pedaços. Dei um pulo de susto antes de me aproximar e olhar pela janela.

Wallace sorria com uma cara de idiota do lado de fora.

— Foi sem querer.
— O que você quer, Wall?
— Isso é jeito de tratar os amigos?

Vou me arrepender eternamente de como abandonei meus amigos no período em que eu e Valentina namorávamos. Não sendo bem justo, eu diria que de vez enquanto certas pessoas te fisgam e sugam toda sua atenção. Você se apaixonada e de repente o resto do mundo não importa. Você vive numa bolha. Mas não, eu fui muito idiota com essas pessoas que sempre gostaram de mim e deixei de lado meu melhor amigo pelo simples fato de estar namorando.

— Foi mal. Tô descendo.

Wallace estava sentado na calçada quando cheguei até a entrada de casa, perguntei e ele não gostaria de entrar, porém ele negou.

— Não cara, eu só precisava um pouco da tua companhia, sabe?
— Tudo bem. Tem alguma coisa te incomodando? — Perguntei.
— Além do meu padrasto? É, tem sim.
— O que?
— Eu gosto de alguém cara... mas não sei como falar.

Ariane, só podia ser ela.

— E quem é ela?
— O que importa? O que eu faço?
— Conta pra ela.
— É diferente Ed. Ela não é convencional.

Nisso eu tinha que concordar. Ariane não combinava em nada com Wallace, mas mesmo assim eu sempre conseguia enxergar um estranho elo entre os dois.

— Precisa tomar coragem Wall. Mas se essa pessoa estiver namorando, espere.

Ariane estava com Ricardo justamente nessa época.

— Certo, mas e você? Algo te incomodando?
— Não sei o que dar pra Valentina. Pintei uns quadros, mas sei lá.
— Meu deus. Tu é viciado nessa guria. Isso é uma doença. Bah!
— É amor.
— A pior doença. Credo.

Eu ri.

— Ed, você tinha me dito que ela gostava de flores, né?
— É, e daí?
— Acho que posso te ajudar.
— Como assim?
— Tem uma pá ai?
— Sim.
— Deixa ela preparada, eu volto de noite.

E a noite lá estavam eles. Wallace e Ariane. Quando desci para cumprimenta-los notei o ressentimento no olhar de Ariane, ao contrário de Wallace. Fingi que estava tudo bem e agi como se eu não tivesse feito nada demais. Continuamos andando em direção à praça do porto.

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