17

948 150 120
                                        

A L I S S A

Você e eu vamos viver para sempre.

(Live Forever Oasis)

Eu sei que as pessoas normais costumam sair nos fins de semana, mas eu estou de férias e não é todos os dias que meu namorado está disposto a passar um tempo fora do quarto. Então dane-se os fins de semana, nós vamos sair em plena segunda-feira.

São 7h30 da manhã e minha mãe já está em seu escritório, de porta fechada. Ela não me contou o que foi fazer na noite de sábado nem onde passou a maior parte do dia seguinte. Só não aproveitei para sair no domingo porque meu pai ficou em casa, e pior: ele passou o dia inteiro na sala jogando videogame com meus irmãos. Não tinha a menor chance de eu escapar sem ser notada.

Mas, durante a madrugada, Daniel falou comigo. Ele entrou no Skype e me chamou para sair. Respondeu o "oi" que eu havia enviado há semanas atrás com um "vamos sair amanhã?". É impossível não perdoar a demora para responder depois de um convite desses. Ele disse que a gente poderia ir aonde eu quisesse, como no início de um namoro, onde tudo é perfeito e as duas partes fazem de tudo para se agradar.

Então agora, às 7h30 da manhã, estou deixando um bilhete em cima da bancada da cozinha avisando sobre minha saída com meu namorado.

Vamos à praia.

Daniel está me esperando na calçada, de pé, com as mãos dentro dos bolsos da calça preta que casa perfeitamente com a camisa da mesma cor. Nós definitivamente não estamos combinando. Estou usando short jeans claro, regata branca e uma sandália rasteira com três pedrinhas cor-de-rosa. Mas não falo nada. Estou satisfeita o bastante com o fato de ele ter me convidado de livre e espontânea vontade para sair, tanto faz se ele gosta de ir à praia com um look típico de verão ou como o "diferentão" que desafia as leis da sociedade e anda de tênis na areia.

Seu rosto está do jeito que eu já me acostumei a ver: pálido, cansado e com olheiras profundas abaixo dos olhos. A maior diferença é que ele não está com a cara tão abatida. Está de cabeça baixa, observando as linhas da calçada, quando escuta minha aproximação e olha diretamente para mim.

Eu sorrio, mas ele não retribui. Mesmo que seus olhos estejam em mim, sua mente parece estar em outro lugar.

Ficamos ali por um longo minuto. Ele com o olhar vidrado em mim, mas viajando, e eu sem saber o que fazer. Até que resolvo chamar sua atenção para andarmos logo. A qualquer momento meus pais podem olhar pela janela ou sei lá, abrir a porta guiados por um instinto sobrenatural os alertando que estou em fuga.

– Então, vamos?

Ele sai do transe. Estende a mão para mim.

Sua pele não está fria. Pelo contrário, seu toque é morninho e acolhedor.

Nós descemos a rua até a parada de ônibus em silêncio. Quando chegamos, Daniel senta no banco e encara a rua, distraído. Eu começo a ficar nervosa. De repente, acho que vai dar tudo errado. Ele vai agir assim o tempo todo e me ignorar durante todo o período que passarmos fora de casa.

Como se lesse meus pensamentos, ele diz:

– Podemos ficar lá o dia todo.

E então olha para mim, como se esperasse minha aprovação.

Eu concordo.

– Sim, podemos.

No ônibus, ele senta no lado da janela e olha através dela o caminho inteiro. Eu tento puxar assunto:

AfogadosOnde histórias criam vida. Descubra agora