Tradição e poder

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Kemal

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Kemal

-Ora, ora! Você quer que eu o acompanhe essa noite até a casa de Nene...essa 'visita' tem alguma coisa a ver com a nossa professora de violino, Abi?- o tom de gozação na voz rouca de Zafer era explícito.

Kemal assentiu, saboreando o café forte. Um sorriso escancarado se estampou na face enrugada do outro homem. Zafer era a autoridade máxima na comunidade. Nene o elegera como chefe do clã, após a morte do pai de Ayla. Ele era querido e respeitado por todos.

- Eu quero firmar um compromisso, irmão! Haveria alguém melhor para me acompanhar?

Recebeu um abraço forte. Ao se afastarem, percebeu a emoção nos olhos castanhos de Zafer.

- Você tem noção da importância da sua atitude, Kemal? Quando essa comunidade acatou o desejo de que não se fizessem mais casamentos forçados, muitos interpretaram como um sinal de desapego à tradição. Ainda é muito difícil fazer com que alguns membros entendam que isso não significou que abrimos mão de valores como respeito e honra.

Kemal sabia estar agindo corretamente. Esperava que Ayla entendesse sua escolha de fazer as coisas do modo tradicional. Demorara muito a pegar no sono, pensando no que sentia. O desejo o atormentava, mas, mais do que isso: tinha aquela vontade imensa de tê-la ao seu lado, dividindo a rotina. Ele também perdera os pais muito cedo e, por mais que tivesse tido a sorte de ser acolhido e amado por pessoas que o ajudaram muito, nada substituíra o aconchego de se sentir parte de uma família.

 Ela acendia nele a ânsia de experimentar algo maior. E, se  o que via no olhar doce não o enganava, com certeza ela ansiava pelo mesmo.

- Posso contar com o patriarca, para isso? - após mais uma resposta afirmativa por parte de seu anfitrião, ele entrou no tema que tanto o  preocupava.

-Zafer, o caso das garotas mortas...estamos começando a acreditar que o assassino tenha mesmo alguma fixação com os Rom.

Fez um resumo breve, pontuando detalhes que conectavam as vítimas à comunidade. O outro ouvia atento, debulhando entre os dedos um rosário de contas.

- Nosso pessoal está de olhos abertos desde o dia em que os garotos encontraram o corpo no casario. Estamos tentando descobrir algo sem alardear o fato de que esse desgraçado pode estar fixado com as nossas garotas, abi. Alimentar o pânico não serve muito nesse momento, não é?

Kemal concordou. Zafer prosseguiu:

- Vocês tem alguma informação mais clara, algo que possa servir de pista para descobrirmos quem possa estar fazendo isso?

Kemal apanhou o celular e, vasculhando a galeria, exibiu algumas imagens dos corpos encontrados.

- Me desculpe por te fazer ver esse horror, irmão.- explicou sobre os elementos presentes em cada local de encontro das vítimas, que aos olhos desatentos pareceriam banais, mas aos conhecedores da cultura Rom, adquiriam outro significado: o lenço de seda vermelho, costumeiramente oferecidos à noiva pelo noivo antes da consumação do casamento - símbolo da fidelidade e do respeito da esposa para com o marido; a rosa vermelha, associada ao fogo - símbolo da paixão e do amor entre os noivos; a única taça, onde ambos beberiam do vinho - símbolo da disposição do casal em dar e receber na mesma medida, partilhando tudo que viesse a acontecer na vida em comum.

- O que chama a atenção, Zafer, é que ele age com violência, mas não as estupra - ampliou uma das fotos, mostrando o sinal de mordidas nos seios e ventre de uma das garotas - quem quer que seja o nosso maluco, ele se dá ao trabalho de atraí-las para o que seria um encontro, arma um cenário de sedução e finaliza estrangulando-as.

Apertando os olhos na tentativa de ver melhor, Zafer apontou para uma imagem em particular:

- Me deixa ver essa foto?

O anel.

- Onde vocês encontraram isso, Kemal?- o olhar dele parecia estupefato.

- Um dos meninos achou junto da garota morta encontrada aqui, em Sulukele.

Com um suspiro profundo, Zafer pediu que aguardasse. Foi até um cômodo adjacente e voltou, alguns minutos depois, com uma pequena caixa entre as mãos. Ao abri-la, Kemal avistou uma réplica perfeita do anel depositada sobre o veludo vermelho, acompanhada por outro menor, com o símbolo um pouco diferente.

- Esse anel é o símbolo máximo de liderança dos chefes de clã, Kemal. É usado em ocasiões especiais e decisivas para o grupo. O masculino- apontou a imagem do punhal circundado pela serpente, no topo laqueado - é usado pelo homem que representa o poder do patriarca. O feminino - apanhando o anel menor, mostrou o punhal circundado por uma rosa- é usado pela  esposa, indicando liderança sobre as outras mulheres.

Kemal franziu o cenho, enquanto digeria as informações recebidas. Um pressentimento ruim causou-lhe um calafrio na espinha.

- É bom mesmo ficarmos de olho. - Zafer concluiu.

- Eu sinto que ele sabe exatamente o que faz, Zafer. Isso me assusta. E, apesar de todas as investigações, nós ainda não temos a mínima ideia de quem ele seja.

Levantando-se, se despediu. Pretendia levar as informações recebidas para a equipe do departamento, o mais rápido possível. Andaram em silêncio até o carro, o semblante carregado dos dois indicando preocupação. Já no momento da partida, Zafer o deteve para uma última informação:

- Kemal...o anel encontrado...foi do pai de Ayla. O que eu tenho recebi na cerimônia de nomeação, quando Nene me escolheu como novo líder. O  original desapareceu na mesma noite em que os pais dela morreram. Talvez isso seja importante .

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