KEMAL
-Eu vou perguntar de novo, já que talvez você ainda não tenha entendido a gravidade da situação, moça... por que você deixou a Ayla sozinha no pátio? - Bedir tomava o depoimento da jovem na sala de interrogatórios do distrito.
Do outro lado do vidro fumê embutido na parede, ouviu a garota repetir a história pouco convincente. Prometeu a si mesmo que, tão logo saísse dali, faria uma visita a Zafer. Não acreditava na versão de que a moça teria entrado para 'ir ao banheiro'. Nem muito menos na súbita falta de memória do rapaz que ficara responsável por fechar o centro cultural no fim do evento. O desenhista técnico do distrito não conseguira detalhes precisos que o ajudassem a fazer um retrato falado decente. Aqueles dois estavam mentindo e ele iria descobrir por quê.
Massageando a nuca, olhou o relógio de pulso: quase meio dia. O corpo começava a dar sinais das mais de 24 horas sem pausa para descanso. Só queria acordar e descobrir que aquilo tudo fora um pesadelo. Infelizmente, não era. Seu nível de tensão aumentava a cada minuto. O entorno de Istambul, em si, era cheio de possibilidades para alguém que quisesse se esconder. Uma equipe já tinha revirado as imediações do bairro, enquanto outra vasculhara os locais onde haviam encontrado os corpos anteriormente. O pessoal interno fizera a averiguação nos hospitais e até... necrotérios. Nada. Nenhuma mulher encontrada tinha as características de Ayla.
Isso seria muito bom, se não tivesse a sombra de uma suspeita macabra rondando o caso: cada elemento dentro da caixa branca conectava o desaparecimento com o assassino que vinha tirando seu sono. E, naquele exato momento, sua amada poderia estar à mercê de um maníaco. Sua situação não era nada confortável, já que fora afastado do caso, por questões óbvias: a vítima era sua noiva. Segundo a chefia, não teria condições de agir com a frieza e a imparcialidade exigidas. Ele entendia. Mas, não concordava. Não poderia ficar inerte aguardando o rumo dos fatos.
Mais dois dias e estariam se casando... pensou em Nene. No telefone, mais cedo, ela não parara de repetir que a neta voltaria logo, que tudo daria certo. Quisera manter a mesma positividade, mas os anos na profissão não lhe permitiam pensar ingenuamente. O caso era grave. Pedira para falar com Narin, deixando a ela a responsabilidade de avisar os convidados do adiamento da cerimônia de casamento. Tinha clareza de que não havia a mínima possibilidade de manterem os planos originais, ainda que Ayla fosse encontrada logo.
Sentiu um aperto firme no ombro. Ergueu o olhar, encontrando os olhos sagazes do comissário. O homem acompanhava pessoalmente o caso. Diante da tentativa de reconforto, cedeu. Seus nervos estavam em frangalhos, os olhos ardiam pelas horas em claro, a garganta doía pelo esforço contínuo em segurar o choro. Estava destruído pelo desaparecimento de Ayla. Uma vida inteira como inspetor da polícia não o prepararia para lidar com o pânico que enfrentava. Deu-se conta de que chorava quando sentiu lágrimas grossas descendo pela barba, alcançando a pele de seu pescoço. Enxugou-as. Entregar-se ao desespero não era uma alternativa, em hipótese nenhuma. Encontrá-la e punir quem a levara, sim.
Percebendo sua tentativa de resistência, o chefe puxou-o para fora da sala.
- Kemal - o homem iniciou assim que o çay foi servido aos dois, na cantina - você é o meu melhor homem. Não por acaso, te indiquei para a inspetoria, apesar da sua pouca idade para os padrões na função de chefe do setor investigativo. Só que, dessa vez, não tenho como ignorar o bom senso. É melhor que você fique de fora, filho.
Tentou argumentar. Precisava participar das investigações. O homem o silenciou.
- Nosso pessoal vai cuidar de tudo como se disso dependesse a própria vida, homem! Assim que liberarmos o casal, vamos voltar aos baderneiros de ontem a noite. A essas horas, o efeito dos entorpecentes já terão passado e estarão mais dispostos a abrir o bico. - fez uma pausa para bebericar o çay- Você sabe que não está em condições de lidar com isso! Vá para casa, durma um pouco, acalme a avó da sua noiva ! Só volte quando tiver descansado umas boas horas...até lá, os rapazes já terão descoberto mais alguma coisa.
- E o senhor acha mesmo que eu vou conseguir descansar?- perguntou, se esforçando para não perder o controle. O olhar do homem permaneceu firme:
- É uma ordem, Kemal! Do modo como está, você não ajudará em nada! - vendo que tinha terminado o chá, orientou - Antes de ir, dê um pulo na sala da doutora. Ela pode prescrever algo pra te ajudar.
Kemal assentiu, vencido pelo cansaço. Sabia que o comandante tinha razão.
AYLA
O cheiro forte de combustível deu a entender que se encontravam num posto. Abrindo os olhos com dificuldade, confirmou. Tentou localizar-se melhor, mas a visão embaçada não ajudava muito. Sentia a garganta seca. A moleza nos braços a impedia de destravar o cinto e sair.
Tentou recordar algum detalhe da noite anterior. A última lembrança nítida que tinha, era do momento em que colocara o anel. Depois, só se lembrava do cheiro forte invadindo suas narinas e de mãos firmes erguendo seu corpo.
Alguém falava ao telefone. Há muito tempo não ouvia o dialeto puro, mas reconheceu as palavras para 'casamento' e 'festa'. Girou a cabeça lentamente na direção do som. O timbre familiar pertencia ao mesmo homem que a assustara naquela tarde, quando voltava das compras no mercado, assim que voltara a Istambul: Tarik.
Sua mente confusa e o corpo pesado não lhe permitiam uma reação lógica. De qualquer forma, precisava se esforçar. Visualizou um rapaz uniformizado, aproximando-se. Ao tentar falar, emitiu apenas um murmúrio embolado. Com o quê aquele desequilibrado a teria dopado? Sua pressão parecia cada vez mais baixa. Os olhos se fecharam novamente.
TARIK
O olhar intrigado do rapaz diante do seu diálogo ao telefone dava a entender que ele certamente desconhecia o dialeto.
Finalizou a conversa com o irmão acertando os detalhes finais para sua chegada e olhou para o carro, na direção do banco do passageiro. Percebeu um movimento sutil, mas nada que indicasse que ela tivesse acordado. O efeito do sonífero era muito forte. Precisava que ela continuasse adormecida, até chegarem ao lugar planejado.
Sorriu, satisfeito. Sua honra seria lavada, finalmente. Mais algum tempo e atravessariam a fronteira. Com certeza, já deveria ter muita gente atrás deles em Istambul. Quem sabe até tivessem divulgado imagens de Ayla na tv. Será que o cão de guarda e seus amiguinhos já teriam descoberto que ele era o raptor? O fato de ter dirigido sem parar em lugares movimentados, estava a seu favor. Seguia rumo à região montanhosa, já em território estrangeiro, onde seu pai se isolara após o rompimento com o clã. Lá viviam os radicais de ascendência Búlgara, que seguiam na prática os velhos costumes e respeitavam à risca as tradições.
Passara todos aqueles anos aguardando o momento oportuno para reivindicar o que era seu, por direito. Quando estrangulara a mãe dela na noite do festival, não contava com a possibilidade de que aquela velha ordinária arruinaria seus planos, enviando a neta para a Itália. Mas, agora, finalmente poderia honrar o acordo de casamento firmado. Além do seu pai, alguns dos anciãos da época testemunhariam em seu favor diante do líder. Seu casamento aconteceria, pela justiça Rom.
Notou o olhar curioso do frentista na direção de Ayla.
- Minha noiva - sorriu, calmamente - nós vamos nos casar na aldeia onde o meu pai reside.
O rapaz permaneceu sério. Aproximando-se do para-brisa, observou-a mais atentamente.
- Ela parece bem pálida, abi.
- Enjoos! A pobrezinha sofre sempre que pegamos a estrada! Dessa vez, tomou um remédio forte demais... apagou! - explicou.
Pediu algumas garrafas de água mineral e biscoitos, no quiosque anexo. Precisava tirar a atenção do homem da figura de Ayla. Ela tinha os cabelos cobertos pelo lenço que ele mesmo tinha amarrado, mas o rosto de traços delicados e marcantes era chamativo. Seria facilmente identificável.
O rapaz atendeu, dando de ombros. Tão logo recebeu o pedido, pagou pelos serviços e se dirigiu ao veículo.
Ela realmente parecia pálida. Limpou o suor frio que brotava na pela clara da testa, próximo ao tecido. Não resistindo, depositou um beijo suave na maçã do rosto perfeita. Ayla finalmente seria sua.
Ligou o carro e acelerou, determinado a chegar logo onde poderia, enfim, selar o destino.
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O anjo protetor
RomantizmO serial killer faz mais uma vítima. Kemal Aslan, investigador da polícia, segue determinado a solucionar o caso. Enquanto isso, Ayla Nehir decide fazer as pazes com o passado retornando às origens. Três destinos que se cruzam. Três vidas sujeitas à...
