O serial killer faz mais uma vítima. Kemal Aslan, investigador da polícia, segue determinado a solucionar o caso. Enquanto isso, Ayla Nehir decide fazer as pazes com o passado retornando às origens. Três destinos que se cruzam. Três vidas sujeitas à...
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Kemal
Os últimos raios do sol iluminavam o bairro de Sulukule quando chegou à cena do crime. O desgraçado fizera de novo!
Aquele era o sexto caso. A vítima, uma jovem de origem Rom, fora encontrada próximo ao local onde o último evento acontecera.
Os festivais ciganos atraiam multidões de toda Istanbul e turistas dispostos a desfrutar de boa música, danças, culinária e bebidas típicas...o lugar ideal para ver sem ser visto.
Entrou com cuidado no casarão abandonado. O risco de desabamento era eminente, conforme as placas indicativas.
A chefe da equipe investigativa forense aproximou-se, cumprimentando-o com um aceno frio. Haviam sido amantes por um tempo, mas desistira ao perceber que ela esperava mais do que estava disposto a dar. Nunca fora de seu feitio enganar mulheres com promessas sentimentais em troca de sexo descomprometido e daquela vez não tinha sido diferente. Devolveu o cumprimento no mesmo tom. A única coisa que lhe interessava agora era que ela mantivesse o profissionalismo.
Antes de tocar o corpo, vestiu as luvas de latex oferecidas por ela. Só então tocou a pele fria e enrijecida, conferindo minuciosamente as marcas arroxeadas no pescoço e outros pontos marcados no cadáver. Em seguida, averiguou os pertences da vítima buscando detalhes que pudessem ter alguma importância para a investigação do caso.
- Quais são as informações, Leyla?
- Mesmo padrão das ocorrências anteriores: estrangulamento, corpo em decúbito dorsal, lenço vermelho cobrindo o rosto, rosa na mão esquerda, mordidas nos seios e ventre, sem sinais de penetração - apontou a garrafa de vinho - uma taça e... o bilhete - com a pinça ergueu um pequeno papel pardo escrito em Romani com os dizeres 'Por minha Ece'.
Ela apontou as pontas dos dedos da vítima. Marcas de calos esbranquiçados, característica comum a instrumentistas.
- Essa era violinista. -
Outra semelhança: todas tinham envolvimento com alguma arte ligada à cultura Rom.
- Esse cara tem um gosto peculiar. E ele sabe onde encontrar o que procura, Kemal.
Concordou, preocupado.
O caso começava a despertar a atenção da imprensa, por mais que o departamento tentasse abafar os detalhes. Após fazer mais algumas anotações, saiu. Deixou o olhar vaguear pela paisagem há tempos gravada em sua memória.
Ninguém da equipe sabia, mas ali estavam as suas origens.
Outro parceiro acenou, próximo a um grupo de garotos. Alcançou-os em passos largos.
- E aí?
- Esses porcarias encontraram o corpo, mas ninguém quer abrir o bico...eu vou tomar um chá, antes que a minha paciência se acabe de vez! São todos seus! Boa sorte, abi!
Observou melhor os meninos, cinco ao todo. O menor deveria ter uns dez anos. O maior, aparentava uns quinze. Cumprimentou-os no dialeto local.
Os garotos demonstraram surpresa. Retirou algumas pastilhas no bolso da jaqueta e ofereceu. Os menores aceitaram, apesar do receio visível. O maior resistiu. Ele prosseguiu usando o dialeto para se comunicar.
- Rapazes, algo muito sério aconteceu aqui. – os garotos nem piscavam, provavelmente curiosos e impressionados pelo desconhecido falar em Rom.- tem alguém fazendo coisas muito ruins com as nossas garotas! Vocês não querem que isso continue acontecendo, querem?
Eles negaram em uníssono.
- Então é melhor colaborar. Vocês sabem de algo que possa ajudar nas investigações?
O garoto mais velho tomou a frente dos demais.
- Só viemos procurar alguma velharia pra negociar no bazar, abi!
Kemal estreitou os olhos e fez um sinal com a mão para que ele continuasse.
- A gente tinha olhado o casarão e já estávamos saindo quando Bulut viu algo no escuro. Parecia uma pessoa dormindo. Aí, eu me aproximei, vi que era uma moça... toquei o braço dela, mas... a garota estava gelada, dura...deixamos ela lá e saímos correndo! Foi só isso!
- E vocês não mexeram em nada, mesmo?
- Não, senhor.
Percebendo o olhar desconfiado e o leve tremor nos lábios do menorzinho, agachou-se puxandou-o pela mão. O menino fez cara de choro. Franziu o cenho simulando irritação e ameaçou:
- Vamos resolver isso aqui, ou vocês querem que eu procure o irmão Zafer?
A menção do nome do atual líder da comunidade fez com que o garoto maior arregalasse os olhos. Sem hesitar, o pequeno disparou:
- Mostre logo o que você achou, Ozan!
O garoto mais velho, irritado, fez menção de atacar o menor. Erguendo-se rapidamente, Kemal posicionou-se entre os dois, com a mão grande estendida. Vencido, o rapazinho buscou algo no bolso traseiro da calça. Muito a contragosto, entregou a Kemal um anel masculino de cobre puro; no topo laqueado, havia uma imagem em alto relevo - a serpente enrolada numa adaga. Entendeu a resistência dele em entregar o achado: esse tipo de joia renderia um bom dinheiro no bazar.
Certificando-se de que eles não ocultavam outras provas e após dar um sermão sobre meninos em lugares errados e na hora errada, dispensou-os. Deu uma última olhada na peça e guardou-a num pequeno envelope de plástico. Mostrou a descoberta ao parceiro que se aproximava, com dois copos de café e o homem abriu a boca, surpreso.
- Aqueles pestinhas mentirosos! Como conseguiu arrancar isso deles, Kemal? E onde foi que aprendeu o dialeto dessa gente?
Desconversando, sugeriu:
- Melhor reforçar a vigilância nesses dias, Bedir. Algo me diz que isso- mostrou o anel - vai nos aproximar do nosso maluco. O suspeito pode considerar a hipótese de voltar para pegar o que esqueceu.
Despedindo-se, deixou a área e partiu rumo ao aeroporto.