Capitulo 7

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Acordei com as risadas do meu pai pela casa e sorri nostálgica; quanta falta eu senti dos nossos sábados de manhã. Fui para o banheiro e tomei um banho, depois coloquei um biquíni preto e um shorts jeans e desci, queria tomar café e torrar no sol o dia todo. Parei no topo da escada ao perceber que Shawn estava tomando café com meus pais. A princípio eu estranhei, mas então me lembrei de minha mãe falar que, depois que viajei, ele começou a frequentar mais a casa. Ela não sabia se aquilo havia se dado para distrair meu pai, que reclamava muito da falta que eu fazia, ou porque foi o modo que Shawn encontrou de saber como eu estava e se sentir perto de mim, afinal, nós sempre fomos muito próximos e ele também devia sentir minha falta. Quando ela me falou aquilo eu revirei os olhos e preferi não especular demais, ainda tinha muitas feridas para cicatrizar e não precisava ficar esperançosa por algo que poderia estar apenas na cabeça dela. Pelo jeito, eu vou ter que me acostumar com isso, pensei, voltando a descer as escadas.
— Camz, pedi para a Ceiça fazer tudo que você gosta — mamãe disse, orgulhosa e feliz, chamando a atenção dos outros. Shawn e meu pai ficaram me olhando e imediatamente me senti embaraçada por causa da roupa que estava usando. O shorts jeans era comportado, eu havia encorpado um pouco mais depois dos dezessete anos, e como tudo o que eu colocava, evidenciava a minha bunda, comecei a comprar peças mais folgadas, mas o biquini que havia escolhido não escondia muito os meus seios, eu adorava exibi-los e nunca me preocupei com o tamanho do biquíni que usava, até aquele momento.
— Vou colocar uma blusa — falei, mas meu pai rechaçou a ideia.
— Besteira, minha filha, está um calor dos infernos e você está em casa. Ou meu pai não percebeu a forma como Shawn me comia com os olhos, ou realmente não via maldade em nada.
— Além disso, nós estamos em família — concluiu me fazendo corar e Shawn desviar o olhar. Papai realmente era passado.
— Obrigada, mãe — agradeci quando ela puxou uma cadeira para mim —, estou morta de fome — confessei enquanto me acomodava. — Então sirva-se — incentivou.
— Bom dia, Shawn — saudei, cortando um pedaço de mamão.
— Bom dia, Camila.
— Desde quando você o chama de Shawn? — papai perguntou e fiquei tensa.
— É o nome dele, ué — justifiquei colocando um grande pedaço da fruta na boca para que papai não me fizesse mais perguntas.
— Mas você sempre o chamou de Shawny. Sério que meu pai estava me fazendo passar essa vergonha?, pensei, enquanto engolia.
— Perdi o costume com os anos — ele assentiu e voltou a prestar atenção em sua comida, mas Shawn ainda ficou olhando para mim com o cenho franzido, até se voltar para meu pai, que lhe perguntava algo. Enquanto eles falavam de negócios, eu terminava de saborear meu mamão. Logo depois a Ceiça serviu uma tapioca com queijo minas derretido e eu quase gemi ao colocar um pedaço na boca. Quando meu pai subiu para escovar os dentes, minha mãe deu um jeito de desaparecer também, me deixando sozinha com Shawn.
— Convidei seus pais para passarem o final de semana na fazenda, espero que você também vá — anunciou com sua voz de molhar calcinha. Pensei no convite dele, imaginando como seria voltar àquele lugar. Eu estava com saudade de lá e principalmente de Karen, mas de forma alguma queria correr o risco de encontrar Fernanda instalada como se fosse a dona de um dos lugares que eu mais amava e de onde vinham tantas recordações.
— Vou deixar para a próxima, estou cheia de coisas para organizar — falei com um sorriso, para amenizar a negativa.
— Tem certeza? — ele perguntou e eu daria tudo para ter uma foto da cara de surpresa que ele fez. No passado eu vivia me convidando para ir passar o final de semana na fazenda dele, mas agora seria diferente.
— Tenho sim, mas obrigada. Eu vou para a piscina, até mais. — Levantei-me e saí, deixando-o com uma expressão séria no rosto. Depois de ler caminhões de romances e livros de autoajuda, eu entendi mais ou menos como funcionava a cabeça dos homens e sentia muito dizer para pobre Camila de anos atrás, que ela fazia tudo errado. Ao chegar à área externa tirei meu shorts e fui até o banheiro onde mamãe guardava todos os suplementos necessários para a área da piscina. Peguei um frasco de filtro solar, outro de bronzeador, assim como uma toalha e quando saí dei de cara com Shawn.
— Minha mãe quer falar com você — disse, estendendo o celular para mim. Franzi a testa estranhando e peguei o aparelho, me preparando para falar com a minha “ex-futura sogra”.
— Karen.
— Que conversa é essa? Cadê a Camz que me chamava de sogra? Sorri, saudosa, mas não dava para chamá-la assim na frente dele, especialmente agora. Durante os anos em Boston, ela ligou algumas vezes para saber como estavam as coisas. Assim como aconteceu com Shawn, no início eu atendi, feliz por poder falar com ela, mas depois comecei a ignorar suas ligações e mensagens e acho que ela foi entendendo que eu precisava ficar sem notícias dele e começou a
entrar em contato apenas no meu aniversário, Natal e Ano-novo, para desejar felicidades.
— Ficou em Boston — brinquei, mas como sempre, ela gargalhou. Conversamos amenidades por uns
dez minutos e por fim ela informou que estava ajeitando tudo para nos receber, mandou um beijo e desligou, sem esperar resposta. Fiquei olhando para o aparelho, me tocando de que aquela espertinha tinha me engabelado direitinho.
— Sua mãe não mudou nada — falei, lhe entregando o aparelho.
— Não, está do mesmo jeito. Bom, eu já vou indo, espero vocês mais tarde — disse e saiu com o esboço de um sorriso nos lábios. Podia ser coisa da minha cabeça, mas tinha a impressão de que aquela ligação de Karen tinha dedo de seu filho. Passei a manhã toda torrando na piscina e só saí quando a fome bateu, por volta de meio-dia. Meus pais já tinham ido para a fazenda e foi difícil convencê-los a me deixar ir mais tarde no meu carro, mas insisti que queria arrumar umas coisas antes e eles se foram. Enquanto pegava sol, pensei em inventar alguma desculpa para não ir, mas depois cheguei à conclusão de que, quanto mais eu visse Fernanda e Shawn juntos, mais fácil seria me conformar com aquilo e seguir em frente novamente. Claro que iria doer, mas depois do que sofri em Boston, achava que superaria qualquer coisa com mais facilidade. Isso, entretanto, não queria dizer que eu tinha que passar dois dias inteiros vendo os dois pombinhos juntos. Por isso só iria no final da tarde, quanto menos tempo ficasse por lá, melhor. Depois do almoço tomei um banho frio, hidratei meu corpo e resolvi descansar um pouco, antes de pegar a estrada. Acordei umas duas horas depois, completamente revigorada e arrumei uma pequena mala com biquínis e roupas de verão; estávamos em pleno mês de dezembro e o calor era escaldante. Cheguei à Rodovia dos Bandeirantes ainda de dia e quando adentrei os portões da fazenda Couto Mendes, o sol tinha acabado de se pôr. Estacionei o carro e desci me sentindo uma estranha. Avistei meu pai na área da churrasqueira, bebendo e conversando com Shawn e mais dois fazendeiros vizinhos. Dei graças a Deus quando Karen apareceu para me receber.
— Minha nossa, olhe para você! — ela disse e me abraçou apertado. — Está uma mulher feita. Quanto tempo eu demorei para escutar aquilo e agora não fazia muito sentido.
— Senti sua falta — confessei, com sinceridade, pois a mãe de  sempre foi uma ótima companhia, além de amiga e cúmplice.
— Venha, vamos entrar, quero saber tudo sobre os anos que morou fora. Dei um tchauzinho de longe para os homens reunidos ao redor de uma mesa e a segui. Durante quase uma hora sofri um verdadeiro interrogatório. Karen quis saber sobre tudo que tinha direito e mais um pouco, enquanto ela e minha mãe terminavam de preparar o jantar que foi servido às nove horas. Assim que me sentei à mesa, fiquei apreensiva, esperando a hora em que Fernanda apareceria e se sentaria ao lado de Shawn. Mas isso não aconteceu, e imaginei que ela deveria estar trabalhando. Aquilo tirou um pouco do peso que estava carregando, desde que Karen me convocara a estar ali. Depois de alimentados, todos foram para a varanda, mas eu não estava a fim, minha interação com Shawn não era mais a mesma e eu ainda não sabia como agir com ele. Decidi ir para a sala de TV e me joguei no sofá, procurando alguma coisa para assistir.
— Filha? — Meu pai chamou e me virei para ver o que ele queria.
— Oi, pai.
— Eu sei por que está assim — afirmou, sentando-se ao meu lado. Senti um frio na barriga. Como é que ele sabia que eu estava evitando o Shawn?
— Sabe? — perguntei, engolindo em seco. Alejandro Cabello era um homem de coração bom e por várias vezes fiquei imaginando como seria nossa conversa se ele descobrisse sobre a minha obsessão por seu amigo.
— Claro, querida, eu já fui jovem uma vez.
— Você não é velho, papai — afirmei. Ele era oito anos mais  velho que Shawn, mas tanto ele quanto minha mãe estavam muito bem, fisicamente.
— Sei — falou, sorrindo e continuou:
— Você, com certeza, deve ter deixado algum namorado em Boston, não é? Respirei aliviada, então ele achava que era isso. Eu apenas assenti de leve, não ia nem confirmar e nem negar.
— Dê tempo ao tempo, tenho certeza de que logo encontrará alguém especial. Engoli o nó que se formou na minha garganta e apenas sorri para ele. Então, para mudar de assunto, perguntei:
— Onde você vai vestido desse jeito?
— Eu e alguns vizinhos vamos passar a noite pescando, só devemos voltar de manhã. Sua mãe me deu
autorização, então eu vou aproveitar. Todos os anos o meu pai viajava para o Pantanal com um grupo de amigos para pescar, então imaginava como ele deveria estar animado por fazer algo que gostava tanto.
— Ai de você se não aparecer com peixe enorme amanhã — brinquei e ele me abraçou.
— Pode deixar. Até amanhã, querida — sorriu e se foi. Logo escutei o ronco do motor de um carro saindo com meu pai e os vizinhos de Shawn. Voltei a olhar para a TV, mas tinha perdido a vontade. Agora só restava ficar sozinha no meu quarto ou me juntar aos outros. Desliguei tudo e fui lá para fora. Achei estranho encontrar somente Karen e mamãe, mas não falei nada, apenas me sentei em uma das poltronas de vime que decoravam a varanda. Alémdas duas poltronas, havia um sofá, uma mesa de centro e duas mesas laterais de apoio. Era tão confortável, que me senti relaxar imediatamente.
— Acho que ele foi te procurar — Karen disse com um sorrisinho travesso.
— Gente, eu não sou mais aquela Camila de cinco anos atrás — falei em minha defesa, mas pela expressão delas, foi inútil.
— Você pode até querer se enganar, mas não tente fazer isso conosco — mamãe disse e continuei em silêncio.
— Lembra quando ela ficou o dia todo trancada no quarto se maquiando para a festa dele? — perguntou a Karen e as duas caíram na gargalhada.
— Eu era só uma criança boba e apaixonada, isso acabou. Minha mãe me lançou um olhar engraçado, muito parecido com o que Karen tinha no rosto.
— Sei que nos proibiu de falar sobre ele por todos esses anos, mas vou te contar algumas coisas. Então Karen enumerou todos os altos e baixos do namoro de Shawn e depois começou a tecer os defeitos de sua nora e o porquê de não apreciar o relacionamento dos dois.
— Tem ideia do quanto é irritante uma pessoa que só quer falar sobre a profissão? Sempre admirei bastante o fato de ela ser médica, salvar vidas, mas ficar todo o tempo ouvindo sobre doença, não era agradável. Eu conheço meu filho e não acho que ele aguentará muito mais tempo. Shawn Mendes era um homem inteligente e dedicado aos negócios, mas nas horas vagas gostava de fazer coisas normais e se desligar do trabalho.
— E onde ela está? Eu achei que fosse encontrá-la aqui.
— Fernanda não gosta da fazenda, Camila. Aquilo me deixou com a boca aberta, de tão chocada. Como alguém poderia não gostar daquele lugar.
— É verdade — minha mãe afirmou. — Era até um pouco constrangedor quando estávamos todos aqui. Ela reclamava de tudo: do cheiro, dos mosquitos, do calor… Chegou uma hora em que eu e seu pai paramos de vir. Só voltamos na época em que Shawn pediu um tempo a ela. Eles ficaram vários meses separados, não foi Karen? — ela perguntou à mãe de Shawn que apenas assentiu, e depois continuou: — Agora já faz seis meses que eles voltaram, mas Fernanda nunca mais apareceu.
— E nem Shawn falou mais nada a respeito. Mas eu sei que não está satisfeito com isso. Você sabe o quanto meu filho gosta daqui, mas desde que começaram a namorar, foram poucas as vezes que ele pôde vir e aproveitar um final de semana completo, ou um feriado, como costumávamos fazer — a expressão de Karen era de desgosto.
— Graças a Deus que as coisas melhoraram de uns meses para cá.
Eu estava cada vez mais atônita.
Shawn devia gostar muito dela para aguentar tudo aquilo. Senti-me um pouco desolada.
— Ah, tinha outra coisa que deixava todo mundo irritado. Ela odeia cerveja — falou minha mãe, arrancando uma risada de Karen, que continuou o relato: — Na verdade, odeia bebida alcóolica em geral, então, quando eles vinham para a fazenda, ela ficava discorrendo sobre o quanto o álcool fazia mal. Você consegue mensurar o quanto era constrangedor ela falar esse tipo de coisa enquanto todos nós tínhamos algum tipo de bebida na mão? — Karen meneou a cabeça, parecendo se lembrar.
— Olha, eu juro que entendia o ponto de vista dela, mas acho que cada um deve decidir qual a melhor forma de morrer, não é? Nós três gargalhamos, Karen era um barato. Conversamos por quase uma hora sobre outros assuntos e então Shawn apareceu usando camiseta, bermuda e chinelo de dedo. Seus cabelos estavam úmidos e penteados para trás e ele estava lindo como sempre.
— Ainda acordadas? — ele perguntou indo se sentar na poltrona ao meu lado, seu perfume maravilhoso, misturado ao cheiro do shampoo ou loção de barbear, me deixando completamente embriagada.
— Na verdade, eu e a Elise já estávamos subindo, mas a Camila está sem sono, faça companhia a ela, meu filho. Lancei um olhar incrédulo para Karen, mas nem ela e nem minha mãe me olharam de volta, apenas deram boa noite e sumiram dentro de casa.
— Essas duas — falei e balancei a cabeça.
— Vou pegar uma
cerveja, você quer? — Ele se levantou e ficou esperando a minha resposta. Lembrei-me do desabafo de Karen sobre sua nora e resolvi aceitar.
— Quero, sim. Ele abriu um sorriso e foi até a churrasqueira que ficava ao lado da varanda, onde havia uma geladeira e pegou duas long neck. Enquanto ele ia e voltava, eu fiquei analisando todos os seus movimentos. Shawn continuava tão atraente quanto eu me lembrava e aquilo estava mexendo comigo. Claro que eu já tinha imaginado como seria passar uma noite com ele. Mas as fantasias de menina não se comparavam com a vida real. Além disso, apesar de ter tido algumas boas experiências, tinha certeza de que uma noite com Shawn Mendes, não se compararia a nenhuma das que tive nos três últimos anos. Ele, com toda a sua altura e força, era daqueles homens que a gente bate o olho e já fica imaginando como seria estar gemendo embaixo dele.
— Camila? O tom de voz dele, me fez perceber que havia passado tempo demais em Narnia.
— O quê?
— Eu te fiz uma pergunta.
— Desculpe, estava distraída.
— Perguntei sobre sua vida em Boston, namorados… Puta merda! Será que eu estava dando na cara?
— Ah, foi tudo ótimo; tive que terminar um namoro para voltar ao Brasil, mas prefiro não falar sobre isso, se não se importa.
— Hum — respondeu, a testa franzida, e levou a cerveja aos lábios.
— Então seguiu o meu conselho? Cruzei e descruzei as pernas me sentindo incomodada com a conversa.
— Sim, segui. — Durante esse tempo fora, aprendi que não era inteligente deixar um homem pensando que era o único em nossa cabeça ou em nosso coração e não pretendia deixá-lo iludido quanto a isso outra vez.
— Fez certo.
— Fiz, sim — respondi e olhei disfarçadamente para ele. As coisas entre mim e Shawn estavam muito estranhas. Desde que voltei, percebi que ele me olhava de um jeito diferente, com um certo interesse, mas ao contrário do que sempre imaginei que seria, caso isso acontecesse, não me sentia bem. Primeiro porque ele estava comprometido e eu não achava legal que me olhasse daquela forma, tendo uma namorada esperando em casa. E segundo, porque eu sentia que seu interesse era apenas físico, e apesar de ter falado tantas vezes que me contentaria com uma noite, eu não sabia se estava preparada para, eventualmente, ter somente um caso passageiro com Shawn.
— Vai ficar me tratando desse jeito até quando? Minha boca se abriu com a pergunta dele.
— De que jeito?
— Desse jeito — disse apontando o indicador pra mim. Suspirei, antes de responder:
— Não sei se você percebeu, mas as coisas mudaram. Eu não sou mais uma adolescente e não vai pegar bem eu ficar te chamando de marido ou declarando meu amor. Ele estreitou um pouco os olhos, antes de falar, baixinho:
— Senti falta disso. Engoli em seco, não esperava aquela resposta.
— Falta do quê?
— De sentir que alguém gostava de mim de verdade. Suas palavras foram tão sinceras que eu tive vontade de pular no colo dele, encher aquela boca de beijos e perguntar o porquê daquilo, mas não podia agir Lassim e não queria deixar o clima ainda mais pesado, por isso brinquei:
— Um dia encontrará alguém que goste de você e que tenha a sua idade — mal terminei de falar, ele soltou uma gargalhada estrondosa que me fez rir também.
— Isso foi cruel — falou, levando a mão ao peito como se tivesse levado um tiro.
— Só falei a verdade — afirmei, mas minha vontade era perguntar o que estava acontecendo, como estava o namoro dele, se ele a amava… Mas não podia, pelo menos não agora, queria que o assunto viesse dele, então, mais uma vez, disse apenas a verdade:
— As coisas mudaram, Shawn.
— Certas coisas nunca mudam — rebateu, olhando no fundo dos meus olhos fazendo minha alma lembrar de como me sentia exultante por ganhar segundos de sua inteira atenção.
— Acho melhor eu subir — anunciei e fui me levantando.
— Eu te acompanho. Assenti e caminhamos lado a lado para dentro de casa. Shawn fechou a porta de acesso à área externa e subimos as escadas, em silêncio, envoltos em um magnetismo que parecia pairar em torno de nós. Paramos em frente à porta do quarto onde eu geralmente ficava e, mais uma vez desde que cheguei, não sabia como agir. Justo eu, que sempre fui tão desinibida com ele.
— Boa noite, Camz — ele disse, num tom de voz carinhoso, como se quisesse me fazer lembrar de como éramos íntimos até pouco tempo atrás.
— Boa noite, Shawny. Ele sorriu, os olhos brilhando, nitidamente satisfeito por me ouvir chamando-o pelo apelido que eu lhe dera. Sorri de volta, virei-me de costas e entrei no quarto, me sentindo mais confusa do que nunca estive na vida. No domingo acordei bem cedo, coloquei uma bata, uma calça jeans e bota de montaria e fui dar uma volta pelos arredores da fazenda. Estava com muita saudade do cheiro que exalava da terra e das plantas ainda molhadas pelo orvalho. Depois de uma hora entrei na cozinha, sabendo que Karen já devia ter preparado o café da manhã. Logo depois minha mãe chegou e as duas se comportaram como adolescentes, querendo saber como tinha sido, após elas irem se deitar. Ambas estavam muito animadas com a ideia de que pudéssemos finalmente ficar juntos. Shawn apareceu cerca de meia hora depois, estava de bom humor e ficou conversando conosco até a hora em que o meu pai chegou, trazendo dois peixes que ele havia pescado. Shawn se ofereceu para limpar os peixes e se foi. A hora do almoço foi tão animada quanto sempre, especialmente por causa do seu Luiz, um dos vizinhos de Shawn; um senhor muito simpático e vivaz. Ele tinha aparecido no final da manhã com uma cesta de verduras que cultivava em sua fazenda e Shawn o convidou para almoçar conosco. Muito vivido e divertido, tinha ótimas histórias que causaram gargalhadas em todo mundo. Por diversas vezes peguei os olhos de Shawn em mim e fiquei com receio de que até papai, que nunca sacava nada, conseguisse perceber. Mas por mais que Shawn me olhasse, e que tanto minha mãe quanto Karen estivessem empolgadas e esperançosas, eu precisava me lembrar de que ainda tinha o meu pai, além de Fernanda, que ligou várias vezes no domingo para o namorado, me fazendo cair na real e me questionar se eu realmente queria entrar nessa outra vez, mesmo que ele terminasse com ela. Fernanda sabia muito bem que não poderia haver partido melhor e com certeza não o deixaria ir embora, sem antes tentar de tudo, e eu não achava que tinha saco para aguentar uma ex frustrada e grudenta. No final da tarde de domingo, cada um entrou em seu carro e voltou para cidade. As energias estavam recarregadas por ter passado aquele tempo em meio à natureza e na segunda-feira estávamos os três bem descansados.
— Pai, eu pensei em comprar um apartamento aqui perto, acho que já estou meio velha para ficar morando com vocês — falei, enquanto tomávamos o desjejum.
— Mas você acabou de chegar, filha! Mal tivemos tempo de nos acostumarcom a sua presença e já quer ir embora? — mamãe parecia horrorizada, prestes a ter um infarto.
— Não faça drama, mamãe, eu apenas me acostumei a morar sozinha. O que você acha, pai?
Alejandro Cabello continuou em silêncio, pensativo, e quando eu já estava aflita, quase repetindo a pergunta, ele sorriu.
— Acho que tenho uma solução para esse impasse — disse, animado, deixando eu e mamãe curiosas.
— Fale logo, homem — ela pediu,
agoniada.
— Tem uma casa desocupada no final da rua. Terminamos a reforma há poucas semanas e ela está pronta para morar. Você poderia se mudar para lá, assim teria seu próprio espaço e ainda ficaria perto de nós. É naquele terreno que ficou vazio por vários anos. Hum. Era uma ótima ideia, se o terreno ao qual ele se referiu, não ficasse ao lado da mansão de Shawn. Se já era difícil conviver com ele a uma boa distância, imagina sendo sua vizinha de muro?
— Não tenho certeza, pai, uma casa dessas deve ter um gasto enorme, eu vou começar a trabalhar agora, não sei se consigo pagar tantas despesas. Meu pai sorriu amoroso e minha mãe me lançou um olhar conhecedor. Ela sabia exatamente o motivo da minha recusa.
— A casa é minha e com o que vai ganhar na empresa conseguirá pagar tranquilamente suas despesas. Pense com carinho e me avise o quanto antes. — Falando isso ele beijou a minha mãe, depois afagou meu ombro e se foi.
— Não acredito que esperou a vida toda para estar com Shawn e agora vai ficar nesse chove e não molha — minha mãe reclamou com ar de contrariedade.
— As coisas não são tão simples como a senhora pensa, dona Elise. Independentemente do que Karen acha, Shawn está namorando. Ela revirou os olhos me tirando sorrisos.
— Filha, eu vi o jeito que ele olhou para você. Se as coisas com a Fernanda já não estavam bem, agora mesmo é que ele não vai continuar empurrando esse namoro com a barriga. Shawn não está feliz com ela. Eu sabia que ela podia ter razão, mas tinha levado tantos foras dele no passado que achava melhor não criar expectativas, talvez ele só estivesse interessado na novidade. Além disso, não me entregaria de bandeja a ele. Shawn teria que vir atrás de mim.
— Vamos deixar que as coisas aconteçam no seu tempo. Ela concordou, sabendo que eu tinha
razão, e mudamos de assunto. Na parte da tarde resolvi passar na
Albrandaz para pegar as chaves da casa que estava desocupada, iria vê-la primeiro, antes de descartar totalmente. De lá, segui direto para o condomínio, mas deixei meu carro em minha casa, desceria a rua andando. Ao passar em frente à mansão de Shawn, foi impossível não me lembrar de quantas vezes havia me imaginado como a Srta. Camila Cabello. Os anos se passaram e o máximo que eu conseguiria era me tornar vizinha dele, isso se eu aceitasse a oferta do meu pai. Continuei a passos largos até chegar em frente a uma imponente casa com arquitetura moderna, muito vidro e um jardim impecável. Aquilo já me fez amar um pouquinho mais aquele lugar e o curto caminho até a porta foi feito entre sorrisos e suspiros. Entrei na casa e fiquei impressionada com a quantidade de luz que entrava por todos os lados. Atravessei a sala com piso de carvalho reluzente e me deliciei com cada detalhe que via. Os ambientes já estavam ricamente decorados e fiquei pensando que talvez meu pai já tivesse antecipado o meu desejo de morar sozinha, pois cada detalhe parecia ter sido feito de acordo com o meu gosto; era coincidência demais para ser aleatório. Visitei toda a área comum e depois subi para conhecer os quartos. A suíte principal era bem grande e possuía uma varanda em L, de onde eu conseguia enxergar tanto a entrada quanto uma parte da área de lazer da casa de Shawn. Ela também ficava de frente para o quarto dele e aquilo me deixou em cólicas, como seria dar de cara com ele abrindo as cortinas pela manhã, ou tomando seu desjejum na sacada? Ainda não tinha certeza disso. Perambulei por mais um tempo, observando todos os detalhes, e depois de muito pensar decidi que iria me mudar. Havia me acostumado a cuidar de mim mesma e tomado gosto pela liberdade de fazer o que tivesse vontade, e o quanto antes pudesse voltar a essa rotina, melhor. Quando me encaminhava de volta para a, agora, casa dos meus pais, fiquei pensando nas implicações da minha decisão. Será que me tendo tão perto, Shawn tomaria alguma atitude mais concreta? Talvez. Claro que não dava para saber se essa decisão seria favorável ou não a mim, entretanto, era melhor descobrir logo o que ele realmente queria, para não voltar a me iludir à toa. Quando meu pai chegou em casa, fiz questão de dar a notícia pessoalmente. Ele, obviamente, esperava que eu aceitasse sua sugestão e ficou feliz em saber que eu não sairia completamente de debaixo de suas asas. Depois de acertar tudo com ele, subi e voltei a arrumar minha humilde mudança. Quase todas as minhas roupas já haviam sido guardadas em malas que estavam dispostas no corredor, apenas esperando para serem colocadas no carro, e na medida em que o meu guarda-roupas se esvaziava, a ansiedade aumentava; não via a hora de ir para o meu canto. Claro que parte daquilo se dava por estar indo morar tão perto de Shawn. Enquanto eu separava alguns objetos pessoais, fiquei repassando todos os anos em que fui louca por ele. Se não estivesse enganada, minha paixonite havia começado antes mesmo dos doze anos, uma coisa boba, que foi ganhando força e proporção. Na minha cabeça, não existia homem mais lindo e gentil. Shawn me tratou como uma princesa desde sempre e talvez aquela fosse a maior de suas qualidades. Apesar de ser uma pirralha insolente que o atormentava com frequência, ele
fazia de tudo para que eu me sentisse bem. Mesmo depois que cresci. Foram tantas as vezes em que avancei o sinal e dei em cima dele, que só de me lembrar já ficava envergonhada. Sentia-me grata por estar bem mais sensata. Hoje eu sabia que ir com muita sede ao pote poderia atrapalhar as coisas, por isso, teria que administrar tudo muito bem, para não cair na minha própria armadilha. Com isso em mente, terminei de guardar o que daria para levar naquele primeiro momento, mamãe mandaria o
restante nos próximos dias. Meus pais foram comigo até minha nova casa para ajudar com as malas. Mamãe já tinha feito uma compra de itens básicos para a cozinha e depois me ajudou a organizar algumas coisas, deixaria para arrumar o restante no dia seguinte. Quando eles foram embora já passava das 21h e eu estava cansadíssima, tudo o que queria era tomar um banho relaxante e dormir. Assim que cheguei à minha suíte, abri uma mala de mão onde eu havia colocado tudo o que precisaria naquela primeira noite: toalha, pijama e vários artigos de higiene. Antes de ir tomar meu banho, fui até a janela fechar as cortinas e percebi a luz que emanava do quarto de Shawn. Saber que ele estava ali, a poucos metros de mim, fez a ansiedade que havia arrefecido voltar com força total. Um minuto depois, ele apareceu em sua janela. Vestia apenas o que parecia uma calça de pijama cuja cintura ficava bem baixa deixando à mostra uns poucos pelos escuros. Ele falava ao telefone, alheio à minha presença. Aquilo me deu liberdade para apreciar a cintura estreita, o peito forte e os braços másculos que por tanto tempo desejei em volta de mim. Ele ainda estava ao telefone quando a luz do quarto se apagou, sobrando apenas uma leve claridade, proveniente de um abajur, talvez. Então, percebi uma certa movimentação atrás dele e, de repente, dois braços o envolveram fazendo-o ficar nitidamente tenso. Logo em seguida uma das mãos espalmou seu peito, enquanto a outra foi se encaminhando para baixo, até romper a barreira do cós. Eu estava atônita com a cena que se desenrolava à minha frente, mas devo ter feito algum barulho, ou um movimento mais brusco porque, de súbito, ele estava olhando diretamente para mim. Ambos ficamos nos encarando pelo que pareceu uma eternidade, até que ele saiu do transe em que se encontrava e abruptamente fechou as cortinas. Eu ainda consegui ver um vulto ruivo, antes que também acordasse e me desse conta do que estava acontecendo a poucos metros de mim.

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