Festa de aniversário de Alejandro Cabello
Shawn
Eu simplesmente não conseguia acreditar no que meus olhos testemunhavam. Aquela mulher suja e descabelada, parada à porta do salão de festas, parecendo completamente desequilibrada, em nada lembrava a médica linda e inteligente com quem um dia dividi minha vida. A cena era tão surreal, que eu não consegui me mexer por vários minutos. Na verdade, só acordei do meu torpor após ter ouvido o apelo de Camila, que estava pálida e preocupada. Quando finalmente consegui arrastá-la para fora com a ajuda de Davi, tive que me segurar para não fazer outro escândalo ali mesmo. Eu estava enfurecido. Sempre fui um homem de princípios, que assumia meus atos e possíveis consequências, então, era impossível não me sentir culpado por tudo o que estava acontecendo. O circo que essa maluca armou me fez perceber o quanto fui irresponsável em não ter conversado com Alejandro antes e me culparia pelo resto da vida se algo acontecesse a ele. Coloquei-a dentro do carro e bati a porta, estava farto de todo o seu drama. Antes de entrar no lado do motorista, pedi que meu amigo cuidasse de Camila e saí de lá, não queria que mais ninguém daquela festa visse Fernanda ali. Andei apenas alguns quilômetros e parei em frente a um colégio cujo estacionamento estava completamente vazio, não precisava de plateia para a conversa que pretendia ter.
— Qual é o seu problema, Fernanda? Se queria matar o Alejandro, seria mais fácil ter dado um tiro nele, isso o teria feito sofrer menos. Tem ideia do quanto ele ama aquela filha? Eu estava tão irritado; Alejandro amava Camila incondicionalmente e escutar os fatos contados de forma tão distorcida, não devia ter sido fácil. Fernanda colocou as coisas de um jeito que fez todos olharem para Camila como se ela fosse uma qualquer.
— Eu fiz isso porque te amo, droga — respondeu entre soluços e limpou as mãos sujas de sangue na calça jeans. Passei os olhos por ela e vi com mais nitidez o quanto ela estava suja, os cabelos desgrenhados, em nada lembrando a mulher doce e angelical que conheci um dia.
— O que você sente por mim não é amor, é obsessão, sentimento de posse ou qualquer coisa do gênero. É doentio e o amor não é assim.
— Não, não fale isso, eu te amo, eu juro — insistiu. Eu não tinha a menor vontade de discutir, estava preocupado demais com Alejandro e também com Camila, podiabimaginar o quanto ela devia estar se sentindo culpada por tudo isso. Eu só esperava que meu amigo ficasse bem ou o futuro que sonhei para nós estaria por um fio. Respirei fundo. Durante os últimos meses eu tentei ser compreensivo e olha o que deu, em vez de seguir em frente, a mulher enlouqueceu, então, precisava ter uma conversa definitiva com ela. Fernanda tinha que entender que não existia mais qualquer possibilidade de ficarmos juntos, todos os meus pensamentos, sentimentos, sonhos e fidelidade pertenciam a Camila Cabello e isso não mudaria. Chega de ser bonzinho!
— Volte no tempo, Fernanda, lembre-se de como você era quando nos conhecemos, tão feliz e cheia de sonhos, e veja o que se tornou — puxei o quebra-sol para que pudesse se olhar. Ela se encarou e tentou ajeitar os cabelos que estavam embolados e cheios de poeira, como se aquilo fosse fazer alguma diferença, diante do quadro geral.
— Eu precisava tentar uma última vez.
— E achou que aparecendo e fazendo aquele circo conseguiria me convencer a voltar com você? Se sim, então você está mais doente do que eu imaginava. Ela abriu a boca, chocada com minhas palavras. Quando se recompôs, falou:
— Eu não ia entrar, queria só falar com você, te liguei inúmeras vezes, mas você não atendeu... Lembrava-me te ter visto várias chamadas dela em meu celular, mas depois de tudo o que houve, resolvi não atender, esperava que ela se cansasse e desistisse. Agora, sentia-me culpado. Se tivesse falado com ela, é provável que nada daquilo tivesse acontecido. Todavia, não adiantava lamentar pelo que já passou, além disso, nada justificava sua atitude e foi isso que lhe falei.
— Eu... eu acabei bebendo demais, no final e, quando vi, estava fazendo aquela loucura — ela justificou. Mas ouvir aquilo me fez rememorar o que havia acontecido com Camila algumas semanas atrás, o que me fez cerrar os punhos.
— Vou te perguntar uma coisa e quero que pense muito bem antes de me responder, para que não responda errado — ela balançou a cabeça, os olhos desconfiados.
— Por acaso, no dia em que Camila esteve naquela festa de calouros, você colocou alguma coisa na bebida dela? Fernanda arregalou os olhos, para logo depois os desviar e ali eu soube a resposta. Desde que a vi com aquela garrafa de cerveja na mão, a percepção que tinha sobre a mulher à minha frente mudou bastante e também me deixou com um horrível sentimento de culpa por ter duvidado de Camila.
— Não — falou, ainda sem me dirigir o olhar.
— Não minta para mim, Fernanda, se eu for a fundo, vou descobrir a verdade e as coisas podem ficar feias. Eu sabia que Fernanda jamais iria admitir que fez uma coisa daquelas, mas estava convencido de que tinha dedo dela e depois do circo que armou naquela tarde, percebi que ela seria capaz de qualquer coisa.
— Todos os alunos que estavam lá naquele dia, usaram anfetamina, um deles pode muito bem ter colocado algo na bebida dela.
— E você fala isso com toda essa naturalidade? Inacreditável. Quem é você? Eu estava perplexo. Nunca imaginei que algum dia ouviria coisas tão estúpidas de uma médica, muito menos da médica que esteve ao meu lado por quatro longos anos. Eu não conhecia aquela mulher
— Saiba que, independentemente do que Alejandro decidir quando estiver melhor, eu não vou desistir de Camila. Ela me amou durante anos, aguentando, em silêncio, enquanto eu desfilava com dezenas de mulheres na sua frente e, mesmo assim, jamais ofendeu ou fez qualquer mal a nenhuma delas. Isso sim é amor e não essa loucura que você diz sentir por mim. Ela parecia atônita com minhas palavras, mas eu continuei: — Outra coisa. Não se aproxime mais de Camila ou da família dela. Tenho certeza de que alguns daqueles viciados ficariam muito agradecidos em receber um bom dinheiro em troca de informações. Mais uma vez seus olhos se arregalaram e só aquilo já me satisfez. Eu não tinha a menor intenção de ir atrás disso, mas ela não precisava saber. De repente, Fernanda pareceu se dar conta de que nada do que fez, ou fizesse, me faria voltar e começou a chorar desoladamente e, para ser sincero, era de dar dó. Se fosse em outra situação a consolaria, pois odiava ver qualquer mulher chorando. Só que das outras vezes eu ainda tinha esperança de que pudéssemos dar certo ou de que ela poderia se tornar um ser humano melhor. Mas isso não se aplicava mais. Dando nosso assunto por encerrado, segui até o hospital mais próximo. No caminho, liguei para Luciana e contei o que havia acontecido. Ela ficou horrorizada, é claro, mas garantiu que avisaria aos pais e me encontraria no hospital o mais rápido possível. Fernanda se lamuriou, se desculpou, mas minha decisão já estava tomada; ela não fazia mais parte da minha vida e se fosse preciso uma ordem de restrição para que percebesse que cada um devia seguir seu caminho, eu não hesitaria. Foi esse o recado que dei a sua irmã, após ter contado a respeito do que houve com Camila na faculdade e com Alejandro naquela tarde, só esperava que Luciana conseguisse convencer a irmã de que ela precisava se tratar. Antes de sair do hospital ainda cruzei com os pais dela, que me lançaram o mesmo olhar reprovador de sempre, como se eu tivesse culpa dos problemas psicológicos de sua filha. Mas diferente das outras vezes, eu não me senti culpado por ter deixado Fernanda para trás, estava absolutamente convencido de que fazia a coisa certa. Em vez disso, contei com detalhes tudo o que aconteceu, inclusive a minha suspeita a respeito do que ocorrera com Camila. No final, toda a altivez que eles envergavam, tinha ido embora. Estava certo de que os dois, finalmente, haviam admitido a si mesmos que a filha precisava de ajuda.Apreender aquilo, tirou o pesoremanescente dos meus ombros. Independentemente do que fizera, eu queria que Fernanda ficasse bem, mas para isso, ela precisaria se tratar e como era muito inteligente, logo perceberia que sua obsessão estava disfarçada de amor. Ela iria perceber o quanto éramos incompatíveis e daria um jeito de seguir em frente. Virei-lhes as costas e voltei a agradecer a Deus, pela décima vez, por ter acordado a tempo de não cometer a besteira de me casar com ela. Ainda assim, acho que perdi tempo demais, tempo que eu poderia estar aproveitando com a mulher da minha vida. Sim, Camila era o meu felizes para sempre, ela era tão a minha cara, gostava da fazenda, do cheiro de mato, de cavalos, enfim, de tudo que sempre fez parte da minha realidade. Ela teve que ficar longe para me fazer entender o quanto seus sorrisos e provocações me faziam sentir vivo. Camila, sem saber, havia plantado uma semente dentro do meu coração, que foi brotando com o tempo e o que aquela semente se tornou, era até difícil de explicar. Eu a amava com tudo o que havia em mim e jamais desistiria dela. Se eu tivesse o mundo e não a tivesse, não teria nada, porque eu era, irrevogavelmente, louco por ela.
