Capitulo 8

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Estava no terceiro dia pós mudança e ainda não tinha conseguido organizar tudo. Eu já havia combinado com a diarista que trabalhava com minha mãe para ajudar com a limpeza e organização do meu novo lar, mas o único dia que ela teria disponível seria quinta-feira, por isso, teria que esperar. Nesse meio tempo, o restante das minhas coisas chegou e eu organizei o que pude. Tinha desfeito as malas, colocado as roupas no closet e guardado os sapatos e as maquiagens. Os itens de higiene também já estavam no banheiro e as poucas roupas de cama e banho no roupeiro. Os outros apetrechos e itens de decoração que haviam chegado no dia anterior, ainda estavam em caixas, no corredor e por lá permaneceriam por enquanto. Claro que teria dado tempo de arrumar tudo, se eu tivesse feito alguma coisa no primeiro dia, mas não tive ânimo algum de fazer nada. Não que eu tenha ficado deitada na cama, tomando sorvete e chorando até não ter mais lágrimas só porque tinha visto Shawn com sua namorada. O que aconteceu foi que eu queria curtir a minha casa e tentar voltar à rotina que eu tinha antes de ir embora. Não seria hipócrita de dizer que não fiquei aborrecida, mas depois que meu torpor se foi, eu percebi que não tinha o direito de me chatear com aquilo. Fernanda era a namorada de Shawn e o fato de não a ter visto com ele, não mudava aquela realidade. O meu problema foi me apegar demais ao que Karen e minha mãe haviam dito. Elas tinham uma perspectiva da situação, mas a realidade podia ser bem diferente do que elas achavam. Então resolvi seguir meus próprios conselhos e esperar para ver o que ia dar. Por isso, depois de tomar um demorado banho de banheira com todos os sais que tinha direito, dispensei meu pijama e me deitei na cama enorme e macia do meu quarto completamente nua, coisa que nunca tinha podido fazer, nem na casa dos meus pais e nem no alojamento da universidade, e em cinco minutos não vi mais nada. No dia seguinte acabei acordando tarde, já perto do almoço. Precavida, minha mãe tinha pedido para a Ceiça, sua cozinheira, fazer alguns pratos para os meus primeiros dias, então tudo o que precisei foi esquentar algo no micro-ondas e comer. Quando o sol esfriou um pouco, coloquei um biquíni, peguei um livro e fui para a piscina, nadar um pouco e pegar sol. Ao entrar
em casa novamente, já eram 5h da tarde e eu estava morta de fome, então fiz café e um misto-quente, depois tomei um banho e assisti vários episódios da minha série favorita, antes de o sono me vencer. Assim que acordei na manhã seguinte, resolvi arrumar um pouco da minha bagunça, mas tinha muita coisa para fazer, por isso apenas levei cada caixa para seu lugar e fiquei mais do que agradecida por saber que Maria iria me ajudar. Maria das Dores era uma nordestina arretada, batalhadora e muito querida por todos nós. Desde que chegara não parava de elogiar a casa com aquele sotaque carregado que eu adorava. Durante o período da manhã, ela tinha tirado o pó dos móveis, aspirado os tapetes e passado um pano no piso para tirar a poeira. Após o almoço, ela subiu para a minha suíte e estava terminando de organizar a minha bagunça, enquanto eu fazia uma lista do que precisava comprar.
— Vão ficar nesse chove e num molha até quando? — perguntou enquanto limpava os vidros da sacada. Ela me conhecia desde pequenininha e sabia do meu amor platônico por Shawn.
— As coisas são diferentes agora, não posso mais agir como uma adolescente inconsequente. Maria sorriu e balançou a cabeça.
— Talvez, mas cê continua apaixonada por ele. Vai deixar seu homem escapar por orgulho? Sorri da certeza dela.
— Tem muita coisa em jogo, Maria. Ele e meu pai são amigos há anos, pensa como as coisas ficariam estremecidas. Além disso, ele tem namorada, você sabe.
— Vamos por partes. Em primeiro lugar, aquele ali é um homão de verdade e vai cuidar de você; que pai não gostaria disso? E quanto à namorada, ainda num entendi por que ele voltou com ela, já era pra esse namoro ter terminado há muito tempo.
— Por que acha isso? — perguntei com a testa franzida, o coração acelerado. Ela parou o que estava fazendo e se virou para mim.
— Eu só vou falar porque é pra você, Camz. Assenti e sorri, ela sabia que podia confiar em mim e eu também me sentia da mesma forma com relação a ela. Há anos Maria fazia faxina na casa dos meus pais, assim como nas casas de Karen e de Shawn. Além disso, sempre que tinha algum evento, ela ia para ajudar, fosse sábado ou domingo, mesmo quando era na fazenda. Eu só podia imaginar o tanto de histórias que ela tinha para contar.
— Cê sabe que eu fazia faxina na casa do seu Shawn nos sábados, né? Então, eu conheci a dotora Fernanda logo que eles começaram a namorar, depois que cê foi embora. No início eu achei mesmo que fosse dar certo, sabe, ela é muito fina, nunca me tratou com intimidade, mas sempre foi educada e o seu Shawn parecia feliz. Ouvir aquilo mexeu comigo e eu precisei fechar os olhos por alguns segundos, até aquela dorzinha no meu peito passar. Não que eu quisesse que Shawn tivesse sido infeliz. Quando desejei a felicidade dele no dia da minha viagem, foi de coração, mas saber que outra pessoa realmente poderia fazê-lo feliz, me incomodou mais do que eu poderia imaginar. Mais do que eu queria.
— O ano acabou e ela teve que começar um tal de internato. Era puxado, a coitadinha tava sempre cansada, mas ele cuidava dela e os dois ainda pareciam se divertir juntos, se é que me entende — ela falou com um olhar sugestivo, e eu soube muito bem do que ela estava falando, quase tinha presenciado algumas noites atrás. Mais uma vez fechei os olhos e balancei a cabeça para dissipar aquela imagem. — Então, no outro ano, veio a tal da residência e foi aí que a coisa começou a desandar. Ela tinha que fazer muitos plantões de noite, principalmente nos finais de semana e eles num conseguiam mais se ver, e nos dias que se viam, acabavam brigando porque a bichinha parecia um zumbi dentro de casa. Eu via que o seu Shawn tentava entender, mas era complicado. No dia que ela durmia lá com ele, de sexta pra sábado, enquanto ele acordava cedo pra malhar na academia ou nadar na piscina, ela continuava durmindo e quando acordava, num tinha ânimo pra nada, e aquilo foi deixando ele chateado. Mas pra mim, o problema foi que depois de alguns meses, a dotora Fernanda já num era mais a mesma. Ela se irritava por tudo, brigava quando ele ia pra fazenda, depois chorava, dizendo que ele num entendia e nem apoiava o trabalho dela… Aí, quando ele reclamava daquilo, ela começava a dizer que precisava dele e pedia perdão, prometendo que quando a residência acabasse, tudo ia melhorar, e ele acabava cedendo. Maria parou e balançou a cabeça com uma expressão de pesar e eu só podia imaginar como devia ser deprimente.
— A Karen me disse que ela não
gostava da fazenda — comentei para ver se ela tinha detalhes.
— É, isso foi motivo de uma briga feia entre os dois. Ela chegou a ir com ele no começo, mas o que eu entendi dessa briga, que terminou com o seu Shawn pedindo um tempo, foi que sempre que voltava da fazenda, a dotora Fernanda reclamava de tudo. Ela chegou mesmo a falar que só ia por causa dele, mas que odiava aquele lugar. Eu percebi pelo tom de voz do seu Shawn, que aquilo magoou ele, sabe, e foi nessa hora que ele disse que num dava mais pra eles ficarem juntos, que os dois tavam cansados e que era melhor dá um tempo.
— E aí eles se separaram — falei.
— É, mas foi difícil. A dotora chorou, fez chantagem, implorou, mas ele foi decidido e ela acabou indo embora. Mas num pense que a mulher desistiu tão fácil não. Várias vezes, quando eu tava na casa dele, ou na sua casa, ou na fazenda, eu vi seu Shawn discutindo com ela pelo telefone, pedindo pra ela num ligar porque ele precisava de um tempo, até que ela parou. Pelo menos eu num vi mais nada. Apesar das brigas, seu Leonel ficou mal por um tempo, dava pra vê que ele tava tristinho, sabe. Mas depois ele foi se recuperando e, sei lá, um mês depois já tava bem novamente.
— Quanto tempo eles ficaram separados?
— Ah, muitos meses, mais de seis, com certeza. Aí, numa manhã, eu tava aspirando a sala, e ela me aparece só de camisola. Eu levei um susto, Camz, porque eu nunca mais tinha visto nenhuma mulher lá. Mas o susto num foi por ter uma mulher, afinal, um homem daqueles num ia ficar sozinho muito tempo, mas por ser ela. Eu achei que depois daquela briga feia, eles tivessem terminado de vez, mas mordi minha língua.
— Ele deve gostar muito dela — comentei.
— Pois eu num acho, não. Desde que eles reataram, a dotora pareceu ter voltado ao que era antes; num vi mais ela reclamando, mas eles continuam se vendo muito pouco. Ela mesma me falou que tava trabalhando em dois hospitais e que por causa disso, tinha que dá plantão quase todo dia e até nos finais de semana. Só que o seu Shawn num reclama mais. Eu ouvi ele falando com o seu Davi um dia, logo depois que eles voltaram, que ele num podia obrigar ninguém a gostar do campo e que era bom ela tá trabalhando nos finais de semana, porque assim, ele podia ir pra fazenda sem briga. Mas pelo que tanto sua mãe quanto a dona Karen me falaram, eles praticamente num se veem mais. Que namoro é esse? Pra mim, ele só tá com ela por pena.
— Não consigo ver Shawn namorando alguém só por pena, Maria. Eu acho que ele gosta dela.
— Isso é porque cê nunca viu como ela é. Como é que chama aquelas pessoas que querem atenção o tempo todo?
— Carente?
— Isso, carente. Acho que só num é mais, porque o seu Shawn corta e eu percebi que ela melhorou um pouco. Mas uns dois meses atrás, ouvi ela perguntando quando eles iam casar, porque a família dela tava cobrando.
— E o que ele respondeu? — perguntei com a respiração suspensa.
— Ele disse: nós já conversamos sobre isso — ela deu de ombros. — Depois disso eu num ouvi mais nada sobre o assunto. Eu apenas balancei a cabeça, mas achava normal que depois de todos esses anos, a família dela estivesse pressionando. Afinal, não era como se eles tivessem que adquirir mais estabilidade, antes de pensar naquele assunto. Shawn já era rico, então, não tinha por que esperar.
— Eu ainda acho que cê num pode ficar parada, Camz. Eu duvido que ele vai conseguir resistir a um mulherão desse — afirmou, me fazendo rir de seu otimismo.
— Olha, se eu achasse que ele realmente gostava da dotora, seria a primeira te falar pra desencantar dele e partir pra outra. Mas num é isso que eu acho — falou com seriedade. — Eu aprendi há muito tempo que uma mulher como você, bonita, inteligente e amável, é capaz de conseguir tudo o que quiser, e o que você sempre quis foi aquele homem, num pode desistir agora e dá ele de mão beijada praquela outra. Acorda, Camz, antes que seja tarde, senão, quando cê menos esperar, ele vai tá casado e aí, é aquela dotora que vai tá vivendo a vida que cê sempre sonhou. Senti um calafrio quando ela terminou e fiquei analisando suas palavras.
Será que todo mundo estava certo, menos eu? Será que eu devia ir atrás? Já tinha sofrido tanto e levado tanto tempo para amadurecer aquele sentimento dentro de mim… Morria de medo de forçar um pouco a barra e acabar caindo no mesmo padrão de antes. Acho que eu teria que arrumar um jeito de equilibrar a indiferença e a sedução até o ponto de Shawn não conseguir resistir.
— Eu vou pensar em tudo o que falou, Maria, e se acontecer alguma coisa, você será uma das primeiras a saber. Ela sorriu e após alguns minutos, terminou de organizar tudo. Depois se dirigiu à sacada, de onde dava para ver o belo jardim do meu vizinho e eu a segui, sentando-me em uma das poltronas dispostas lá. Enquanto ela cuidava dos vidros da porta e do guarda-corpo, ficamos tagarelando e fofocando como duas comadres. Só nos silenciamos quando o Land Rover de Shawn estacionou em frente à sua mansão. Achei estranho que ele estivesse ali no meio da tarde, mas quem era eu para saber os horários dele. Quando desceu do carro, estava com o telefone celular no ouvido. Usava um terno cinza completo e óculos escuros, o que o deixava ainda mais charmoso.
— Que pedaço de mal caminho — Maria disse e suspirou me fazendo sorrir.
— Tenho que concordar, esse homem deve ser uma máquina na cama. Nós duas gargalhamos, e apesar de não ser minha intenção, acabamos chamando a atenção dele. Shawn se virou, tirou os óculos escuros, acenou e em seguida, continuou falando ao celular. Sua expressão aliviou por poucos segundos e logo ele voltou a esbravejar. Fiquei curiosa para saber quem estava do outro lado da linha. Seria apenas um funcionário, um fornecedor, ou ele estaria discutindo com a namorada? Deixei minhas conjecturas de lado e fui para o escritório que improvisei no
andar de baixo. Iria começar a trabalhar na Albrandaz em Janeiro, quando a empresa voltasse do recesso de Natal, e queria me
inteirar um pouco do trabalho que desempenharia lá.
— Posso entrar? — A voz calma de Rafaela me fez sorrir.
— Claro que sim, boba. Levantei-me e fui ao encontro dela. Minha amiga tinha feito luzes no cabelo e parecia bem mais magra do que o normal e isso só confirmava as minhas suspeitas de que ela estivesse apaixonada por alguém. Toda vez que ela fazia alguma mudança radical, eu podia esperar que apareceria algum gato novo na área.
— Adorei o novo visual.
— Estou apaixonada — ela confessou e se jogou em uma das poltronas.
— Novidade — zombei.
— Sério, Camz, a coisa tá tensa. Eu sempre soube como me comportar com qualquer cara, mas com esse...
— Nossa! Fale mais sobre esse deus grego — brinquei e ela começou a falar desenfreadamente.
— Quer dizer que ele é amigo de Shawn?
— Sim. Sua mãe me chamou para vir na festa de aniversário do seu homem, uns meses atrás, e ele estava lá. Eu até achei que fosse só um conhecido, mas um dia eu vi quando ele chegou no condomínio e foi direto para a casa de Shawn. Mesmo depois de eu ter viajado, a Rafaela sempre aparecia para visitar meus pais e eles sempre a convidavam quando tinha algum evento. Eu adorava aquilo.
— E já rolou alguma coisa, olhares ou algo assim?
— Nada vezes nada, nós não fomos nem apresentados. Mas na semana passada eu o vi entrando numa academia e fiquei de longe, só apreciando. No dia seguinte eu estava matriculada. Soltei uma gargalhada daquelas, então era aquele o motivo dos quilos a menos.
— Você está perseguindo o cara? —Não é bem uma perseguição, mas quem não é visto não é lembrado, oras. Rafaela era uma das pessoas mais centradas que já conheci. Apesar de namoradeira, sempre foi confiante demais para ficar correndo atrás de alguém, então eu só podia pensar que esse amigo de Shawn devia ser muito interessante mesmo.
— E qual é o nome do príncipe encantado? Ela suspirou e abriu um sorriso.
— Davi Bittencourt.
Uau, segunda vez que ouvia falar dele no mesmo dia.
— Belo nome — foi tudo o que falei.
— Isso porque não o viu pessoalmente, que homem! — ela disse, se abanando.
— Sério, Camz, eu só queria uma noite com aquele homem. Agora eu sei tudo que você passou com Shawn. Toda vez que eu falava do meu amor por Shawn, a Rafa escutava, mas eu sabia que ela não compreendia de verdade a proporção daquele sentimento. Parecia que agora isso havia mudado e eu fiquei feliz por ela realmente entender o meu lado. Isso também significava que eu havia me transformado na parte comedida daquela amizade.
— Vai com calma, amiga — foi a minha vez de dizer a ela. Ela revirou os olhos e me fuzilou.
— Olha quem fala, não é você que persegue Shawn desde criança? Abri a boca em um gesto incrédulo.
— Sua vaca, não acredito que está usando meu passado contra mim.
— Só digo verdades — ela falou, me imitando. De repente se levantou e me pegou pela mão. — Vamos tomar um banho de piscina, porque esse calor está demais — sugeriu e foi exatamente o que fizemos. Subimos para colocar biquínis e fomos para a área externa. Rafaela colocou umm música animada e foi a minha vez de dizer o que havia acontecido na minha primeira noite ali.
— E o que você pretende fazer? — quis saber. Estávamos com a metade do corpo dentro d’água e os braços apoiados na borda, cada uma com uma long neck na mão.
— Sinceramente, não sei. Minha mãe, Karen e até mesmo Maria, me aconselharam a lutar por ele, mas eu não quero voltar a ser aquela garota de antes. E mais do que tudo, não quero que Shawn fique comigo porque eu forcei a barra. Diferente daquela época, não quero só uma noite com ele.
— Pela forma como te olhava na sua festa de boas-vindas, eu tenho certeza de que ele já está interessado, mas eu entendo e concordo que não deve aceitar migalhas dele. Depois de todo esse tempo, você merece ser amada na mesma proporção.
— Estou muito confusa, amiga, não sei o que fazer — confessei, olhando para Rafa com os olhos marejados. Na mesma hora ela estendeu a mão para apertar a minha, em sinal de conforto.
— Camila, pelo que conheço do caráter de Shawn, mesmo vendo você com outros olhos agora, não acredito que ele faria algo assim. Você não é qualquer garota que ele encontrou em um bar; é filha do sócio e amigo dele. E por mais que agora seja uma mulher feita, o respeito pelo seu pai continua o mesmo, por isso acho que ele só cederia, se tivesse certeza dos próprios sentimentos. Analisei as palavras da Rafa e por tudo o que Shawn demonstrou todos esses anos, cheguei à conclusão de que ela estava certa.
— É, mas eu não vou me jogar em cima dele. Dessa vez, Shawn tem que vir atrás de mim.
— Isso não quer dizer que você não possa seduzi-lo. Morando aqui, ao
lado dele, você vai ter todas as chances para fazer isso. Lembre-se de mim, quem não é visto, não é lembrado. Comecei a rir, mas ela tinha razão.
— Mas enquanto isso não acontece — falou e levantou sua cerveja —, tudo o que nos resta é escutar música triste e sofrer juntas. Ambas gargalhamos e depois brindamos. Continuamos conversando sobre coisas aleatórias, até que vimos a silhueta de alguém se aproximando. Como estava vindo contra o sol, não conseguimos saber quem era de imediato, mas logo um despojado Shawn, usando bermuda e camiseta, surgiu.
— Escutei as risadas de vocês e vim fazer um convite — ele disse, calmamente, enquanto os olhos desciam pelo decote do meu biquíni.
— Que convite? — Rafa perguntou saindo de dentro da água e eu fiquei aliviada, estava com medo de que ele tivesse ido ali para falar sobre a outra noite.
— Vou receber um amigo daqui a pouco, para conversar e tomar uma cerveja, queria saber se não querem se juntar a nós.
— Conheço esse amigo? — perguntei, tinha certeza de que Rafaela estava curiosa para saber.
— Na verdade, não — ele se limitou a dizer, me observando sair da piscina.
— Tudo bem, nós vamos, sim — afirmei e fui pegar uma toalha em cima da espreguiçadeira para me secar. O olhar de Shawn ficou acompanhando todo o percurso que minhas mãos fizeram pelo corpo.
— Que horas devemos chegar? — perguntei.
— O quê? Ah, daqui a uma hora — ele falou, parecendo acordar.
— Estaremos lá — afirmou Rafaela com um sorriso maroto no rosto. Assenti e ele se foi.
— Meu Deus, Camila, será que é o Davi? — quis saber, eufórica.
— Capaz que sim — falei, distraída, ainda sentindo os olhos dele em mim. Subimos, tomamos banho e depois fomos nos vestir. Optei por um vestidinho de tecido leve e fluído, já Rafa vestiu o shorts jeans desfiado e a regata que havia levado. Por fim, colocamos uma maquiagem leve, apenas batom e rímel, já que não havia necessidade de uma grande produção. Saímos da minha casa exatamente uma hora depois e a Rafa começou a pular feito uma adolescente quando viu o carro de Davi estacionado atrás do Land Rover de Shawn.
— É o carro dele — disse animada. Vendo aquilo, parei e coloquei as mãos em seus ombros, para que ela prestasse atenção.
— Amiga, eu sei que está a fim dele, mas tente controlar a empolgação. Se você der na cara desse jeito, vai acabar com tudo antes mesmo de começar.
— Você está certa, me ajude se eu estiver falando besteira.
Balancei a cabeça e voltamos a andar, nos dirigindo para a lateral da casa, que dava acesso à área de lazer do meu vizinho.
— Olá, meninas — Shawn disse ao nos ver. Ele estava sentado à uma mesa com outro homem que automaticamente se virou para nós, abrindo um belo sorriso. Ambos se levantaram para nos receber e pude ver que era alto como Shawn e tão bonito quanto, com olhos verdes e uma barba bem cuidada. Ele era sexy, mas tinha um sorriso acolhedor.
— Este é o Davi, um amigo meu — apresentou assim que nos aproximamos.
— E estas são a Camila, filha do Alejandro e a Rafaela.
— Ah, a famosa Camila. Estava ansioso para te conhecer — Davi revelou, me deixando um pouco espantada, e me deu um beijo no rosto. Em seguida voltou sua atenção para Rafaela que parecia totalmente calma, mas que eu sabia estar uma pilha de nervosismo.
— Acho que já nos conhecemos de algum lugar — ele arriscou, analisando-a.
— Tenho a mesma impressão — ela disse e franziu a testa, fingindo buscar algo na memória, então completou, como se tivesse acabado de se lembrar: — Já sei, acho que frequentamos a mesma academia — respondeu, em tom casual. Todo aquele teatro me espantou. Rafa era ansiosa demais para manter tanta frieza em frente ao boy dos seus sonhos.
— É, pode ser. Prazer, sou Davi Bittencourt — se apresentou enquanto lhe dava um beijo no rosto.
— Rafaela Coimbra — falou e lhe ofereceu um sorriso doce que quase me fez revirar os olhos. Antes que fizesse exatamente isso, voltei minha atenção para Shawn que tinha ido ao refrigerador e estava pegando cervejas para nos oferecer. Todos nos sentamos e começamos a beber e conversar descontraidamente, mas não deixei de notar a troca de olhares entre Davi e Rafaela. Deu para perceber que ele tinha ficado atraído por ela e eu fiquei feliz pela minha amiga. Enquanto isso, sentia o olhar de Shawn em mim. Ele não disfarçava e ao mesmo tempo em que aquilo me agradava imensamente, me deixava um pouco desconfortável, não estava acostumada com aquela intensidade. Para tentar desviar sua atenção, mudei de assunto, perguntando a Davi sobre o trabalho dele, e deu certo, já que Shawn entrou na conversa, animado em falar sobre a casa de shows do amigo.
— E a virada de ano, meninas? — Davi perguntou depois que o assunto morreu e percebi que Shawn, antes distraído, voltou a olhar para mim, aguardando minha resposta. Todos os anos a festa de Ano-novo era na fazenda dele e nós nunca deixamos de ir, mas isso foi antes de eu morar fora do Brasil.
— Minha família é do Rio de Janeiro e meus pais estão querendo ir para lá, mas eu ainda não sei se vou — Rafa disse e eu estranhei, ela odiava os parentes do Rio.
— Eu vou para a fazenda com Shawn este ano, se mudar de ideia, será bem-vinda — Davi comentou, claramente interessado.
— Você vai, Camila? — ela perguntou com um olhar que me dizia “diz que sim”.
— Eu não tenho certeza, Rafa, tenho que pensar, mas se eu for, você vai comigo. Eu queria ajudar a minha amiga, mas também tinha que pensar em mim. A Fernanda podia não gostar da fazenda, mas não acreditava que ela passaria a virada de ano longe do namorado e aquilo seria uma tortura para mim, não sabia se teria estômago para vê-los juntos, fazendo o que eu sempre desejei. Imaginar a cena me perturbou mais do que deveria e quando olhei para cima, encontrei os intensos olhos de Shawn sobre mim novamente. Ele estava com o cenho franzido e parecia pensativo. Levantei-me e pedi licença, precisava de alguns minutos longe dele. Entrei no banheiro que ficava no lado oposto à churrasqueira, molhei o rosto e fiquei olhando meu reflexo no espelho por alguns minutos. Eu precisava aprender a lidar com aquela nova situação, com a forma como Shawn havia começado a olhar para mim, sem criar grandes expectativas quanto ao possível significado daquilo. Sem ilusões, Camila, sem ilusões. Inspirando profundamente e endireitando a coluna, dirigi-me para fora apenas para dar de cara com aquele que agora representava meus sonhos e também minha angústia.
— Nossa, que susto, Shawn! — exclamei, colocando a mão sobre o coração, que havia disparado.
— Desculpe, não foi minha intenção. Eu precisava conversar a sós com você. Ah, droga!, pensei, antes de ouvi-lo falar exatamente o que eu temia: — É sobre a outra noite…
— Shawn — interrompi. — Realmente não há necessidade de falarmos sobre isso.
— Mas eu gostaria de te pedir desculpas pelo que aconteceu, pelo que você viu. — Ele realmente parecia chateado e eu resolvi ajudar.
— Eu é que deveria me desculpar. Foi indiscrição de minha parte, não devia ter ficado olhando — admiti, envergonhada.
— Já você, não tem que me pedir desculpas por nada. Estava na sua casa com a sua namorada — dei de ombros.
— Sim, mas quero que saiba que eu não tinha ideia de que estava lá. Quero dizer, o Alejandro me falou que você se mudaria, mas eu não sabia que seria tão rápido… Se eu soubesse, nunca…
— Ei, relaxa — cortei novamente, não o queria se desculpando por estar fazendo o que era direito dele.
— Está tudo bem, sério. Ele assentiu, mas suas feições não me deixaram saber se ele estava aliviado ou chateado com a minha resposta indolente. Num surto de infantilidade, resolvi provocar.
— E não se preocupe, porque aquilo não vai mais acontecer. Se eu vir alguma movimentação, você sabe… Vou fechar as cortinas e espero que você faça o mesmo por mim.
— Como é? — Ele parecia em choque e eu tive que me segurar muito para não rir.
— Ué, eu espero que se algum dia você me vir com alguém, também feche a sua cortina — expliquei, com naturalidade, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo e vi seu rosto ficar vermelho. Desci o olhar por seu corpo e percebi que ele estava completamente tenso, os músculos dos braços retesados, as veias dos antebraços saltadas, as mãos fechadas em punho, como se estivesse esmagando alguma coisa e aquilo me fez ficar inesperadamente excitada. Se o meu lado racional não estivesse tão acostumado a tomar as rédeas das minhas ações, a minha falsa indiferença teria ido por água abaixo e eu teria me jogado sobre ele, para sentir aqueles braços fortes me apertando. Desviei o olhar e engoli em seco, com dificuldade. Ao fitar o rosto de Shawn, vi que seus olhos azuis, geralmente cristalinos, estavam enevoados, escuros de paixão. Na mesma hora percebi que ele sabia exatamente o que se passava na minha cabeça e imaginei que meus olhos deviam ser um espelho dos dele. Ficamos nos olhando fixamente; bastava um passo e estaríamos nos braços um do outro. Ele está pensando a mesma coisa, falei comigo mesma quando vi Shawn fazer menção de se aproximar, ato que foi interrompido quando seu telefone começou a tocar. Ambos suspiramos profunda e ruidosamente algumas vezes, como se não tivéssemos ar suficiente nos pulmões. Shawn se recuperou primeiro e sacou o telefone de dentro do bolso. Assim que olhou o visor, fez uma careta e quando se voltou para mim, soube na mesma hora que era Fernanda. Aquilo me fez voltar à realidade e, sem falar nada, passei por ele e regressei para junto de Davi e Rafa, que mal repararam a minha presença. Shawn voltou uns cinco minutos depois, mas ficou calado até que nossos amigos perceberam que não estavam mais sozinhos e nos incluíram na conversa. Eu terminei de tomar a minha cerveja e aceitei a outra que Shawn foi buscar, bebendo um grande gole do líquido gelado. Aos poucos, senti meu corpo relaxar e consegui interagir com mais facilidade. O mesmo aconteceu com Shawn e em pouco tempo, foi como se toda aquela tensão sexual não tivesse existido. Depois de quase uma hora de conversa, nosso quarteto já estava entrosado novamente. Davi tinha o mesmo magnetismo de Shawn, os dois falavam e dominavam a nossa atenção o tempo todo. Qualquer um que nos visse de longe, diria que se tratava de dois casais muito bem resolvidos, mas a realidade era bem outra. Contudo, se as coisas continuassem como estavam, a realidade poderia mudar drasticamente, pelo menos para uma de nós duas.

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