Shawn
O olhar magoado que Camila me lançou quando saí do quarto me acompanhou por todo caminho até o hospital onde Luciana disse que Fernanda estava internada. Aquele olhar decepcionado me fez lembrar de como ela ficava quando era mais nova e me via com outra mulher. A garotinha havia crescido, mas suas reações continuavam as mesmas. Naquela época, Camila fechava a cara e me deixava na geladeira por uns três dias, era a sua forma de me castigar por tê-la magoado. Ela até tentava permanecer indiferente pelo máximo de tempo possível, mas no final, eu sempre conseguia reverter a situação, porque, enfim, ela era apenas uma menina. Só que agora os tempos eram outros, aquela adolescente que me seguia por todos os lados me lançando sorrisos maliciosos e olhares cheios de provocação não existia mais. Ela havia crescido, se tornado uma mulher linda, independente e cheia de autoestima; e todas essas qualidades associadas a curvas perfeitas, me fizeram perder completamente a cabeça. Só mesmo isso para explicar o fato de eu ter passado por cima dos meus princípios e valores na noite passada. Apesar de tentar parecer tranquilo para ela, minha amizade com Alejandro era importante demais; eu jamais imaginei que um dia trairia sua confiança da forma pior forma possível: dormindo com sua filha. Não que eu não a achasse atraente, muito pelo contrário, Camila sempre foi linda e sabia disso. Ela testava meus limites, armava para ficar sozinha comigo e, na maioria das vezes, eu levava na esportiva, jamais cogitei qualquer possibilidade de termos alguma coisa. Só que agora não tinha mais como agir assim, Camila já não era mais uma adolescente e depois da noite que passamos juntos, nossa situação iria ficar bem complicada. Nossa situação! Que porra é essa... Não existia nossa situação, tudo o que aconteceu foi uma noite em que deixei o desejo falar mais alto, nada mais... Pelo menos, era disso que precisava me convencer. Camila era filha do meu melhor amigo e mesmo que eu não ficasse mais com a Fernanda, não havia qualquer possibilidade de alimentar sentimentos por uma garota que eu vi crescer. Mesmo que essa garota agora tivesse vinte e três anos e fosse absolutamente linda e gostosa. Ah, droga! Isso tinha que acabar. Forcei-me a parar de pensar em Camila e seu corpo tentador quando cheguei ao hospital, precisava estar completamente focado no problema de Fernanda e somente depois de tudo resolvido, é que eu poderia pensar em outra coisa. Na recepção principal, fui informado que Fernanda Siqueira já havia sido atendida, mas que ainda não poderia receber visitas. Para evitar brigas com a moça que me atendeu, preferi ligar para Luciana e ver se receberia notícias mais precisas. Ela me disse que estavam todos na recepção do terceiro andar, então segui até lá. Meus sogros me receberam com a mesma hostilidade de sempre, apenas cumprimentos secos e polidos, mal abrindo a boca, de forma que as poucas informações que obtive sobre o estado de saúde de Fernanda, vieram de minha cunhada. Segundo ela, o acidente acontecera num ponto entre São Paulo e a cidade onde ficava minha fazenda, o que levantou a suspeita de que ela estivesse indo para lá. Luciana explicou que ela levou uma pancada forte na cabeça e estava com algumas escoriações no corpo. O trauma fez com que parte de sua cabeça ficasse inchada, por esse motivo, ela ficaria em coma induzido até que se mostrasse estável. Continuamos conversando por intermináveis minutos, enquanto esperávamos por mais informações e em nenhum momento, os pais dela me dirigiram a palavra, era como se estivessem me culpando por sua filha ter ido atrás de mim.
— Eles acharam estranho que minha irmã estivesse indo para a fazenda na madrugada do ano-novo, entende. Ela não apareceu em casa, então todos achávamos que já estivesse lá com você... — Luciana respondeu minha pergunta não verbalizada. Apesar de nova, minha cunhada era a pessoa mais sensata da família de Fernanda e sempre tive a sensação de que poderia confiar nela.
— Sua irmã aprontou mais uma na noite de Natal e nós brigamos feio. Eu fiquei muito chateado e pedi um tempo, precisava pensar na minha vida, em como as coisas estavam... Acho que já devia estar meio afetado por aquelas “resoluções para o novo ano”, sabe. Por isso, exigi que resolvesse o problema que ela mesma havia criado e avisei que, só então, voltaríamos a conversar, dessa vez, para decidirmos o que fazer da nossa vida. Desde então, não nos vimos mais. Eu sabia que não era correto colocar a culpa em uma mulher que estava em coma, sem poder se defender, mas já estava cansado de amenizar a situação para que Fernanda não fosse afetada e não iria deixar que sua irmã pensasse que a culpa de tudo isso era minha.
— Eu sei, Shawn, minha irmã é complicada e já posso até imaginar o que ela aprontou. Ainda bem que ela sabia disso, porque eu precisaria de ajuda com a Fernanda, ou a maior prejudicada seria ela mesma.
— Não é fácil lidar com a carência de Fernanda, com a dependência que ela tem demonstrado nos últimos tempos. Eu não estou feliz, ela também não, mas simplesmente não aceita. Eu tenho pena de vê-la desse jeito e isso é uma coisa horrível para se sentir de uma pessoa que partilhou a minha vida por quatro anos Luciana curvou um pouco o tronco, a fim de olhar para os pais que estavam um pouco mais à frente, e depois se voltou para mim.
— As coisas lá em casa são meio complicadas, como você já sabe. Fernanda sempre foi a mais bonita, a mais descolada, a mais inteligente, e com sua esperteza acabou conseguindo tudo o que queria de todos, e meus pais apenas deixaram, mas não sei se isso lhe fez muito bem... Eu, tinha certeza que não. Ela parou de falar fixando o olhar nas mãos que estavam cruzadas em seu colo. Apesar do que falou, não havia amargor na voz de Luciana, apenas a constatação de um fato e um certo cansaço. Ela parecia conformada de ter sido preterida pelos pais, coisa que sempre me enervou muito, especialmente porque Luciana era uma garota doce e não merecia nada além de carinho e atenção.
— Meus pais não têm nada plausível contra você — ela afirmou, voltando a me olhar —, o problema é que o “insignificante Shawn Mendes”, até hoje não quis se casar com a filhinha deles. Na cabeça de ambos, é um verdadeiro absurdo que ela o ame e você não a ame de volta. — Dessa vez ela revirou os olhos, como se achasse aquilo ridículo, o que na verdade, era, e não pude deixar de rir.
— Sua irmã não me ama, Luciana — declarei e ela balançou a cabeça em concordância.
— Tudo o que ela quer é provar que pode me ter, por capricho, não amor. Seus pais a criaram para ter tudo o que quisesse e não conseguem enxergar o mal que fizeram, não apenas a ela, mas a você também. Seus olhos marejaram e ela virou o rosto, mas não achei que estivesse se escondendo de mim, e sim dos pais, que sempre a reprimiram, sempre a compararam com a irmã mais velha, em vez de exaltarem o que ela tinha de melhor.
— Não deixe ninguém te dizer que você não é bonita o bastante; a beleza é extremamente relativa. Por que fato de não ter olhos verdes, cabelos ruivos ou uma pele dourada, a deixaria menos bonita que a sua irmã? Não cabe a eles relativizarem a beleza de ninguém. Ela revirou os olhos, como se aquilo não tivesse importância.
— Deixe-me te dizer o que um homem vê quando olha para você. Sorri quando vi seu rosto corar de vergonha e isso me fez questionar se ela já havia tido um namorado. Por tudo o que Fernanda me disse, não.
— Para um homem, seus cabelos longos e quase pretos, fazem um contraste absolutamente perfeito com sua pele pálida. Seus olhos cor de mel, que ficam meio amarelados quando você está feliz, são uma das coisas mais bonitas que já vi. Suas bochechas e lábios, naturalmente rosados, a deixam simplesmente adorável. E seu corpo, pode parecer magro, se comparado a uma boa parcela das mulheres brasileiras, incluindo as que usaram artifícios como a cirurgia plástica, mas acredite em mim, ele é totalmente proporcional, com curvas nos lugares certos. Sob a perspectiva de um homem, todo esse conjunto a deixa com um ar etéreo, misterioso, como se fosse uma ninfa ou uma fada. Ela olhou para mim meio assustada, o rosto ainda mais vermelho e os olhos arregalados, mas sem lágrimas. Depois balançou a cabeça e eu já imaginei que ela iria se criticar de alguma forma.
— Você fala isso, mas estava envolvido com minha irmã, que é realmente maravilhosa. Quando nós saímos juntas, todos os olhares estão nela, e não acho isso ruim, muitas vezes eu mesma me pego apreciando sua beleza. O grande problema para mim são as comparações. Nós somos muito diferentes, em todos os sentidos, mas os pais não deveriam aceitar e incentivar os filhos no que eles têm de melhor? — Ela parou e mais uma vez deu de ombros.
— Será que quando sai com ela, você não permanece de cabeça baixa tempo demais, não? Ou prestando mais atenção em sua irmã do que com o que acontece ao seu redor? Tenho certeza de que no dia em que parar de se esconder ou de supervalorizar a Fernanda, vai perceber que há olhos fixos em você, sim. Como um representante do sexo masculino, posso te afirmar que nem todos gostam de ruivas ou loiras. A maioria não curte mulheres malhadas demais, na verdade, o consenso é de que preferem mulheres mais naturais. O que importa é que não existe consenso total em absolutamente nada, e é aí que está a graça da vida. E por trás de todo esse discurso, a verdade é que as mulheres não têm que se basear no que os homens acham ou gostam. Elas têm que ser suficientes para si mesmas, sem precisarem da aprovação de ninguém e muito menos de um homem do lado para serem felizes. Enquanto eu falava, Luciana permaneceu com a cabeça baixa, mas eu podia ver, através de suas bochechas que ela estava sorrindo.
— Quanto à inteligência, bom, eu acho que não há problema algum com a sua. O fato de você não querer cursar medicina como seus pais e sua irmã, não a faz menos capaz, pelo contrário, tenho certeza de que nenhum deles é que não é capaz de fazer o mesmo que você. Então, pare de dar ouvidos a críticas feitas apenas para te ferir. As pessoas que gostam de você, vão fazer críticas construtivas, as quais você pode ouvir e guardar, se achar que vale a pena, ou apenas descartar. Ao terminar, ela levantou a cabeça com o maior sorriso que eu já tinha visto em seu rosto e deu um empurrãozinho no meu ombro com o seu. Eu também sorri, esperava que Luciana parasse de achar que havia algo de errado com ela. Depois disso, não falamos mais nada, apenas esperamos ser liberados para poder visitar minha “noiva”. Após uma breve discussão com os pais de Fernanda, passei a noite no hospital com ela e quando o neurologista que a atendeu apareceu para passar a visita, fiz uma verdadeira sabatina, mas não havia nenhuma novidade e nenhuma previsão de quando ela
iria acordar. Fiquei feliz, no entanto, em saber que ela tinha todas as possibilidades de se recuperar e, no momento, era só isso que importava. Quando saí do hospital, estava exausto, mas foi só entrar no carro para a imagem de Camila surgir em minha cabeça. Dessa vez não foram lembranças de sua adolescência e sim do seu corpo delicioso embaixo do meu. Encostei a cabeça no volante e viajei até minha fazenda, para o exato momento em que ela se entregou a mim. Ainda podia sentir o calor de seu corpo sob meu toque e o som dos gemidos que escapavam de sua boca. Passei anos e anos vendo Camila desfilar com roupas curtas e biquinis indecentes, me provocando, testando minha paciência para ver até onde eu aguentaria. Mas ver e tocar seu corpo nu, foi uma experiência quase surreal e não sabia como lidar com isso. Quando Camila era adolescente, minha razão andava de mãos dadas com o bom senso, ela era menor de idade, filha do meu melhor amigo e havia centenas de outras mulheres no mundo, então, era bem fácil resistir, mas agora... Por que ela, meu Deus? Era essa a pergunta que me fazia toda vez que um pensamento malicioso passava por minha mente. A única coisa que sabia era que o retorno de Camila estava mexendo bastante com a minha cabeça, tanto a de cima quanto a de baixo. Queria poder explicar o tesão que ela estava me fazendo sentir, era como se meu corpo soltasse faísca toda vez que olhava para ela. Mas não valia a pena perder uma amizade tão importante e verdadeira, por causa de alguns dias de prazer momentâneo. E se não fosse apenas isso? Eu sentia como se houvesse duas vozes duelando dentro de mim. Uma queria seguir o fio de razão ao qual eu me apegava desde que ela voltou ao Brasil, já o outro, queria mandar tudo para o espaço e se perder naquelas curvas sem pensar nas consequências. Quando desencostei a cabeça do volante, os pensamentos ainda estavam confusos e nenhuma decisão havia sido tomada, mas uma coisa era certa; eu precisava conversar com Camila. Nós iríamos começar a trabalhar juntos em alguns dias, e não seria bom que ficássemos nesse impasse. E mais importante, eu precisava me convencer de que aquela noite foi um erro, pois independentemente de qualquer coisa, não poderia lidar com isso agora. Fernanda estava desacordada sobre uma cama, e de certa forma, a culpa era minha. Eu deixei que as coisas fossem longe demais, mesmo sabendo que não estava dando certo, apenas por ficar com dó, e olha o que aconteceu. Por isso, querendo ou não, minha prioridade seria ela, pelo menos até que acordasse e se recuperasse. Depois disso, eu sabia que minha cabeça daria uma guinada e eu tinha medo do que poderia acontecer. Não, o que eu sentia por Camila era tesão e eu tinha fé de que logo iria passar.
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