Combinei de me encontrar com a Rafa no estacionamento da boate e, dessa vez, fui de taxi, não queria acordar na manhã seguinte sem meu carro na garagem. Ao me verem, Davi me cumprimentou formalmente, já Rafa, fez um escândalo por causa da minha roupa.
— Que vestido maravilhoso, amiga — elogiou.
— Comprei antes de voltar para o Brasil e achei que era um ótimo dia para usá-lo. O modelo era levemente colado ao corpo com alças bordadas de pedrinhas que capitavam muita luz. Quando o vesti, achei que pudesse ser sofisticado demais para uma boate, mas quando entrei no local, tive a certeza de que tinha acertado na escolha.
— E esse batom vermelho, não está muito vulgar? — perguntei, enquanto caminhávamos entre as pessoas para chegar ao andar superior.
— Morena e batom vermelho foram feitos um para o outro, você está linda, relaxa. Sorrimos de forma cúmplice e entramos no reservado de Davi. Lá, havia dois casais conversando e bebendo. Um dos casais foi bem simpático quando fomos apresentadas, mas o outro, foi uma contradição. Enquanto o rapaz nos cumprimentou efusivamente, a namorada não pareceu nem um pouco satisfeita com a minha presença ali, e não fez questão de esconder isso.
— Acho que a mocinha ali me detestou de cara — comentei enquanto Rafa me entregava um copo de gin com energético.
— Não liga, eles também são donos
de boates e muito assediados. Acredito que ela olhe com essa cara pra toda mulher que se aproxima, como se fosse um aviso — justificou. Enquanto os amigos conversavam, eu e Rafa ficamos em pé, olhando a movimentação da boate. Em dado momento, alguns rapazes de outro reservado começaram a nos olhar com nítido interesse, elevando seus copos, como quem oferecia uma bebida. Nessa hora, Davi se aproximou e enlaçou minha amiga pela cintura de forma possessiva e eu quase ri, especialmente quando a Rafa olhou para mim com aquela cara de sabichona, para depois lhe dar um super beijo, que não deixava dúvidas a ninguém de que estavam juntos. Ela tinha me falado que depois de ter nos visto com Miguel e seus amigos aquele dia no bar, as coisas entre eles haviam mudado. Davi ainda não a tinha pedido oficialmente em namoro, mas estava bem mais possessivo, tanto que a tinha chamado para sair em plena sexta-feira, coisa que nunca havia acontecido antes. Bom, pelo menos surtiu efeito em alguém, pena que o mesmo não aconteceu com Shawn. No momento em que pensei nisso, me repreendi, não deixaria que Shawn tomasse conta da minha mente enquanto estivesse me divertindo ali. À medida que a noite avançava, talvez por ver que eu não estava interessada em seu namorado, os olhares gélidos da garota se amenizaram um pouco e eu consegui me sentir um pouco mais à vontade e realmente curtir. Depois de três bebidas, tive vontade de ir ao banheiro, mas ao ver que minha amiga estava bem ocupada nos braços de seu amor, decidi ir sozinha. Quando estava voltando, avistei dois rostos conhecidos em um reservado perto do bar que havia no andar inferior. Miguel e Cesar estavam encostados no parapeito, ambos com uma bebida na mão, conversando. No camarote havia dois outros homens e, pelo menos, umas oito mulheres, o que me fez acreditar que eles, possivelmente, não estivessem com nenhuma delas. Homens que iam para boates com esse tanto de mulher, tinham mais a intenção de ostentá-las, mas isso não significava que no final da noite uma delas não seria escolhida para a diversão que aconteceria fora dali. Estava a ponto de seguir meu caminho, quando vi Cesar arregalar os olhos em reconhecimento. Na mesma hora ele sussurrou algo a Miguel que se voltou para mim com um sorriso no rosto e não perdeu tempo em ir ao meu encontro.
— Camila, como vai? — perguntou, cheio de charme, me cumprimentado com um beijo. — Pelo visto, gostamos dos mesmos lugares — brincou.
— É minha primeira vez nesta boate, estou com a Rafa e o namorado dela — menti, para que seu amigo não tivesse esperanças, caso visse minha amiga perambulando por ali.
— Quer se juntar a nós? — ele perguntou apontando para o camarote florido de lindas mulheres, com vestidos curtos e colados ao corpo. Algumas tinham se aproximado do guarda-corpo e olhavam com cara de poucos amigos para nós.
— Obrigada, mas acho que seu camarote já está bem cheio — brinquei para pegar no pé dele. Mas a verdade era que de forma alguma me juntaria àquele harém. Miguel me lançou um sorriso lindo, perguntou o que eu gostaria de beber e pediu que esperasse um minuto. Depois que assenti, ele foi até o camarote. Não deixei de notar que, assim que entrou no reservado, duas mulheres o cercaram, mas foram logo dispensadas, o que as deixou visivelmente chateadas. Acabei sorrindo e tive que virar o rosto para que elas não vissem, uma mulher rejeitada era um perigo e eu não queria confusão, ainda mais por causa de um cara que não era nada meu. Miguel voltou de lá com duas bebidas nas mãos, ofereceu-me uma delas e me puxou para um canto onde ficamos conversando. Do lugar em que estávamos, conseguíamos visualizar o camarote, assim como as mulheres, que rebolavam tentando chamar sua atenção, enquanto me lançavam olhares ferinos. Revirei os olhos e ao olhar para o reservado de Davi, consegui ver Rafa com um enorme sorriso no rosto. Ela levantou seu drink em um brinde silencioso, feliz por me ver em boa companhia e eu assenti de leve, também elevando meu copo, discretamente. Quando nossas bebidas acabaram, Miguel pediu que eu o acompanhasse até o camarote para que pudesse reabastecer nossas bebidas. Eu concordei, mas fiquei do lado de fora. Nesse meio tempo, Cesar se aproximou de mim, deu um beijo em meu rosto e ficou conversando comigo até Miguel voltar. Dessa vez, não nos afastamos, mas também não ficamos dentro no reservado. Nos aproximamos de uma mesinha alta, localizada entre um camarote e outro, a qual usamos para apoiar nossas bebidas. Nossa conversa estava tão boa e ficamos tão à vontade um com o outro, que mal vi a hora passar. De repente, percebi que estávamos muito próximos um do outro, não de propósito, mas por causa da música alta. Notei que ele teve essa mesma percepção juntamente comigo, pois o clima entre nós mudou completamente e quando vi, eu estava com minhas mãos apoiadas em seus quadris, ao mesmo tempo em que uma mão dele segurava minha cintura e a outra, minha nuca, enquanto nossas bocas se engoliam em um beijo voraz, faminto, delicioso... Apesar da aparência de bom rapaz, Miguel era cheio de atitude, sabia beijar e tinha uma pegada firme. Em dado momento, a mão que estava em minha cintura deslizou para trás e se posicionou acima da minha bunda, sem ultrapassar nenhum limite, mas me puxando para mais perto, de forma que eu pude sentir sua excitação através do tecido fino do meu vestido. Não sei quanto tempo ficamos grudados, até alguém bater no meu ombro e interromper nosso momento. Com certa relutância, me virei para dar de cara com Rafa e Davi logo atrás de mim. Que ótimo!
— Tudo bem? — ela perguntou, zombeteira, tentando segurar um sorriso.
— Sim. Você lembra do Miguel, não é? — questionei e ela se aproximou para lhe dar um beijo no rosto, sempre segura pela mão de Davi que não desgrudava de sua cintura. Quando a Rafa se afastou, os dois homens ficaram se olhando, e a coisa só piorou quando Cesar se aproximou, chamando Rafa pelo nome e lhe dando um beijo no rosto.
— Davi — falei, tentando amenizar o clima hostil —, estes são Miguel e Cesar. Rapazes, este é Davi...
— O namorado da Rafaela — ele se adiantou, fazendo tanto eu quanto a Rafa arregalarmos os olhos e segurarmos a gargalhada que queríamos soltar. Sem outra opção, eles se cumprimentaram bem ao estilo macho alfa, com apertos de mãos fortes e cara de poucos amigos que apenas nos divertia ainda mais.
— Nós já estamos indo, Camila — Rafa avisou, assim que Cesar se afastou, querendo me dar a opção de ir com eles, caso eu quisesse.
— Tudo bem, vou ficar mais um pouco — avisei e ela me lançou outro lindo sorriso, já Davi, fechou ainda mais a cara, o que me fez questionar se aquela hostilidade se devia apenas à raiva que Rafa o fez passar quando nos sentamos na mesa deles aquele dia, ou se Shawn havia falado alguma coisa sobre nós dois a ele. Parei de fazer suposições quando minha amiga se aproximou para me dar um abraço de despedida. Mal tive tempo de acompanhar a saída dos meus amigos, pois Miguel já tinha me puxado de volta aos seus braços.
— Vamos embora — ele sussurrou em meu ouvido, vários minutos depois. Eu até queria. Estava desde a virada do ano na seca e a cada minuto Miguel me mostrava que devia ser muito bom de cama, mas depois de ter dormido com Shawn, as coisas estavam confusas em minha cabeça e eu não queria me iludir e muito menos à outra pessoa.
— Daqui a pouco eu vou, mas sozinha — sussurrei de volta e ele sorriu, puxando-me para si, de modo que eu sentisse sua excitação, que estava cada vez mais visível, especialmente quando sua boca se aproximou do meu pescoço, beijando e lambendo minha pulsação acelerada.
— Eu sei que você é uma garota moderna que faz o que quer, sei também que está tão a fim quanto eu, então porque se privar de algo que ambos queremos. Ele estava certíssimo, desde que comecei minha vida sexual, nunca tive essas frescuras, apesar de nunca ter sido do tipo fácil, mas com Miguel a coisa era diferente. Não éramos apenas dois desconhecidos que se encontraram por acaso, ele tinha a intenção de fazer uma parceria com a Cabello, e de forma alguma eu iria para a cama com ele sem que conversássemos primeiro.
— Eu estou excitada, claro, e tenho certeza de que nos daríamos muito bem na cama — confessei —, porém, existem alguns pontos. Primeiro, por mais moderna que eu seja, não
costumo ir para a cama com um homem que mal conheço, apenas porque estou excitada. Seus olhos se arregalaram por eu ter dito que mal o conhecia e então ele sorriu.
— Bom argumento. Continua.
— Segundo, você está querendo fazer uma parceria com a empresa em que eu trabalho e nossa interação pode acabar atrapalhando ou confundindo as coisas, o que nos leva ao terceiro ponto. Eu não estou atrás de um compromisso e tenho medo de que esse relacionamento amigável que cultivamos, seja prejudicado por conta disso. A verdade é que não devíamos ter sido tão fracos — concluí, dando de ombros, esperando que ele entendesse.
— Bom, vamos lá. Apesar de querer muito te levar daqui e passar a noite com você, eu entendo completamente e respeito sua posição. Quanto ao segundo ponto,posso te garantir que sei separar minha vida pessoal da profissional e pretendo tratar qualquer assunto referente à nossa parceria apenas com seu pai ou o sócio dele — garantiu, me fazendo engolir em seco ao imaginar ele e Shawn em uma sala.
— E com relação ao seu terceiro ponto, eu não poderia concordar mais, uma vez que eu também não estou à procura de um relacionamento sério. Assim como você, estou atrás de uma boa companhia, mas não de uma namorada, não precisa se preocupar.
— Se é assim... — falei, aproximando-me dele.
— Vamos aproveitar enquanto podemos — ele completou, totalmente conformado, e voltou a me beijar. Perto das 3h da manhã, decidi que já era hora de encerrar a noite. Apesar de ter gostado de ficar com ele, era cedo demais para rolarmos numa cama, então, despedi-me sob seus protestos e menti que estava de carro para que ele não se oferecesse para me levar, na verdade, não deixei que me levasse nem até a porta, não queria ser pega na mentira. Ao me afastar dele, pedi um Uber e me dirigi à calçada, dando graças a Deus quando, um minuto depois, um carro estacionou à minha frente. Quando estávamos chegando, abri minha bolsa e comecei uma busca pelo meu cartão, mas acho que a quantidade de álcool que ingeri já estava cobrando seu preço, pois deixei todo o seu conteúdo cair, antes de conseguir achar o que procurava.
— Aqui está — falei, quando finalmente o encontrei e pude notar que o rapaz tinha ficado meio irritado com a minha demora. Enquanto ele passava o cartão, comecei a catar minhas coisas. Depois de verificar o valor, colocar minha senha e receber minha via, agradeci e desci, mas nem consegui andar até a calçada. Meus pés estavam muito judiados das tiras finas da sandália, e ficar parada no carro durante todo o trajeto, apenas aumentou o incômodo ao colocá-los no chão novamente. Tirei as sandálias ali mesmo e senti o corpo arrepiar quando meus pés tocaram a calçada fria. Caminhei até a porta e, mais uma vez, comecei a vasculhar minha bolsa em busca das chaves. Ainda não tinha entendido por que não escolhera uma clutch e colocado apenas meu celular, documentos, dinheiro e chaves dentro. Joguei tudo na calçada e não as encontrei, percebendo que elas provavelmente tinham ficado no Uber. Que droga! Minha noite que tinha tudo para ser um sucesso estava sendo um fiasco. Juntei as coisas e me sentei nos degraus pensando no que eu iria fazer, não queria acordar meus pais no estado em que eu estava, mas ficar na rua também não era uma opção. Dei a volta na casa com esperança de encontrar alguma porta ou janela aberta, mas parei quando escutei um country americano tocando do outro lado dos arbustos. O som era baixo, mas sabia que vinha da casa de Shawn, ele adorava esse estilo de música. Continuei andando e comecei a checar as janelas, assim como a porta que dava acesso à piscina, mas para minha total desgraça não havia nada aberto. Fiquei ali, pensando no que fazer. Eu poderia ir direto para a casa dos meus pais, mesmo sabendo que levaria uma bronca daquelas, mas como sempre acontecia quando eu bebia, a Camila adolescente tinha dado as caras novamente e resolvi bisbilhotar meu vizinho, mesmo correndo o risco de vê-lo com outra mulher. Caminhei pé ante pé até as folhagens e plantas que separavam a casa de Shawn da minha e o avistei deitado em uma espreguiçadeira, com uma garrafa de cerveja em uma das mãos e o celular em outra. Agora que a Fernanda não estava mais em sua vida, jurava que ele estaria na fazenda se recuperando dos últimos acontecimentos; não fazia sentido permanecer na cidade. Talvez tenha ficado por você, minha mente tentou me enganar, mas não dei trela. Deixei Shawn com seus pensamentos e quando estava voltando vi as cortinas de voal da sacada do meu quarto dançando sob a luz do luar. Se eu tivesse uma escada, poderia chegar até lá e meus problemas estariam resolvidos. Apressei-me em direção à área de serviço, onde ficavam guardados os materiais e equipamentos de limpeza. Ali havia um pequeno cômodo, uma espécie de depósito, onde meu pai colocou várias coisas que seriam necessárias, eventualmente. Acendi a luz e passei os olhos pelo lugar até avistar a escada que Maria usava para limpar as janelas e lugares onde não alcançava. Ela era leve e não tive problemas para levá-la até embaixo da sacada. Depois de posicioná-la de maneira firme, comecei a subir devagar, com cuidado para não me desequilibrar. Estava tão preocupada em não cair, que não senti minha bolsa escorregando do ombro. Quando fui ajeitá-la novamente, ela virou e, pela terceira vez naquela noite, seu conteúdo estava no chão. Droga, teria que voltar para o chão e pegar tudo. Já tinha descido um degrau quando ouvi passos se aproximando.
— Quem está aí? — Shawn perguntou, talvez pensando que fosse um ladrão, apesar de ser bem improvável, uma vez que o condomínio era bem seguro. Mas
um barulho daqueles àquela hora da manhã, era bastante suspeito. Virei-me para olhá-lo, mas quando dei por mim, estava caindo com escada e tudo. Ainda capturei seus olhos arregalados antes de me chocar com a grama, gemendo ao sentir o impacto.
— Por Deus, Camila, o que está fazendo? — ele quis saber enquanto tirava a escada de cima de mim.
— Acho que coloquei a escada muito perto da parede.
— Isso eu percebi, mas porque estava em cima dela? — falou, me ajudando a levantar.
— Perdi as chaves de casa e estava tentando entrar pela sacada. Ele pareceu chocado com a minha explicação, e depois, irritado.
— Você podia ter me chamado, ou ligado para um chaveiro 24 horas.
— Pois é — respondi, sem jeito, sentindo-me uma criança de sete anos e eu odiava quando ele me via toda atrapalhada daquele jeito.
— Você está bêbada? A coisa só piorava.
— Não, quer dizer, eu bebi um pouco, mas estou bem. Ele balançou a cabeça, contrariado. Devia achar que eu estava me tornando uma alcoólatra.
— Venha, você pode passar a noite lá em casa e amanhã damos um jeito de chamar um chaveiro.
— Acho melhor ir para a casa dos meus pais — sugeri e ele negou.
— Alejandro não vai gostar de ser acordado a essa hora, e muito menos de vê-la nesse estado. Shawn pensou o mesmo que eu. E apesar de não querer ficar na casa dele, naquele momento eu só queria banho e cama.
— Tudo bem. Seguimos para sua casa, subimos as escadas e ele me guiou a um quarto de visita com paredes em tom de palha e móveis sob medida. Como tudo na casa dele, era lindo e aconchegante.
— Tem toalhas no banheiro, se precisar de qualquer coisa, é só chamar. Com essas palavras, Shawn me deixou sozinha. Pelo jeito, mesmo não estando mais comprometido, manteria o tratamento impessoal das últimas semanas.
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