Capitulo 39

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Fazia uma semana que eu tinha visto Fernanda e Rodrigo no barzinho e até agora ela não havia aparecido ou feito nada. Depois de muito pensar, decidi não comentar nada com Shawn, não queria colocar ainda mais caraminholas na cabeça dele sem saber exatamente o que ela estava planejando. Mas ainda assim, minha relação com Rodrigo, que já estava remota, tornou-se praticamente inexistente. Eu ainda não sabia qual era o grau de envolvimento deles e preferi manter distância. Fernanda era uma ótima manipuladora e poderia fazer a cabeça do rapaz facilmente, mas não seria de mim que ele conseguiria arrancar fofocas. Claro que poderia ter sido só um encontro bobo, mas não consegui mais me aproximar. Sandra, entretanto, estava à par, ela era a melhor pessoa ali para vigiar e descobrir se algo estava acontecendo e ficou de me avisar se visse alguma coisa fora do comum. Parei de pensar naquilo e foquei no trabalho, minhas aulas de gastronomia começariam naquele dia e eu ainda não sabia como seria a minha rotina, se teria tempo de ir em casa antes, ou se teria que ir direto, por isso, não queria atrasar meu serviço. O curso era oferecido por uma das principais faculdades da cidade e tinha duração de um mês e meio. As aulas seriam ministradas em um anexo construído exclusivamente com o intuito de oferecer esse e vários outros cursos rápidos e workshops lançados pela faculdade. Eu teria que ir até lá três vezes por semana e aprenderia tudo sobre comida salgada. Dependendo de como fosse, iria me inscrever para o de confeitaria e panificação que seguia o mesmo padrão. Na quarta-feira foi meu segundo dia de aula. Como a primeira foi basicamente introdutória, estava bem mais animada, pois começaria a colocar as mãos na massa. Cheguei um pouco mais cedo e ocupei uma das cadeiras na pequena sala. Por ser uma espécie de curso técnico a turma era pequena, tendo no máximo dez pessoas, a grande maioria donas de casa. Nossa professora se chamava Leila e começaria introduzindo a parte teórica para depois começarmos a cozinhar. No intervalo fui até o refeitório da universidade para comprar uma salada de frutas e dei de cara com Fernanda conversando com um grupo de moças e rapazes, ela estava segurando alguns livros e usava uma roupa comportada. Segundos depois aquelas pessoas se despediram dela e escutei um deles a chamando de professora. Só podia ser brincadeira ou perseguição. Para meu azar, nossos olhares se encontraram naquele momento e ela sorriu como se estivesse realmente feliz em me ver, totalmente diferente do olhar cheio de rancor que me lançou no dia em que me viu no estacionamento com Shawn.
— Camila, que surpresa você por aqui — ela disse ao se aproximar e nos cumprimentamos com um beijo no rosto.
— Estou fazendo o curso de culinária — respondi e peguei o troco que a moça da cafeteria me entregou.
— Ouvi falar maravilhas sobre esse curso, se tivesse tempo, também o faria — ela comentou, equilibrando a pilha de livros.
— Você dá aula aqui? — perguntei, já sabendo a resposta, mas querendo me certificar.
— Sim, para o primeiro ano de medicina. Fiquei olhando para ela e pensando que ali, naquele ambiente, aquela mulher tão bonita e inteligente, parecia completamente equilibrada. Ninguém tinha ideia de como ela realmente era.
— Papai me disse que você esteve lá em casa esses dias querendo falar comigo.
— Ah, sim, estava passando por lá e resolvi fazer uma visita — ela comentou, sorridente, como se tivesse intimidade suficiente para me visitar. Antes que eu falasse mais alguma coisa, seu celular começou a tocar na bolsa. Era minha chance de escapar daquela conversa.
— Eu já vou indo — falei e comecei a me afastar.
— A gente se vê por aí — ela disse em tom amigável e atendeu ao telefone. Passei por ela e fui direto para a área externa, queria comer minha salada de frutas bem longe daquela mulher. Durante o meu lanche fiquei ponderando se devia ou não contar a Shawn. Ele estava muito cabreiro com relação a ela e ficaria pensando besteira toda vez que eu saísse de casa. Não duvidava nada que me pedisse para mudar de faculdade ou, pior, insistisse em me levar e pegar todas as vezes. Então decidi que, por enquanto, manteria segredo sobre aquilo; se as coisas ficassem insustentáveis, eu trancaria o curso.

Dias depois

Três semanas se passaram desde que iniciei o curso e já estava pensando em desistir. Fernanda se tornou uma verdadeira sombra, forçando tanto a amizade, chegando a ficar me esperando na porta da cozinha onde fazíamos as aulas práticas às vezes. Shawn chegou a notar que meu humor andava meio alterado nos últimos dias, mas quando me perguntou eu desconversei e falei que era TPM, porém, sinceramente, não sabia até quando conseguiria manter aquilo em segredo, estava de um jeito, que se ele pedisse, eu cairia fora de lá na mesma hora, porque Fernanda e sua amizade forçada estavam me tirando dos trilhos. Não dava para continuar fingindo que gostava do papo de medicina e boa moça que ela jogava para cima de mim. Outra coisa estranha foi o fato de ela não falar sobre Shawn, era como se ele não existisse em sua vida e isso sim estava estranho, já que todos sabiam da loucura dela pelo ex-namorado e isso só me fez ficar em alerta máximo.
— Vamos, Camila, vai ser legal — Fernanda disse quando saímos da cafeteria que ficava no refeitório da faculdade.
— Combinei de sair com a Rafa, não vai dar. — Usei minha amiga como desculpa para não ter que ir a uma festa de calouros. A tal festa aconteceria em um barzinho que ficava perto da universidade e desde quarta-feira ela estava me chamando para ir. Chamando era um eufemismo, ela estava me infernizando, como se lá fosse acontecer o evento do ano.
— Mas eu prometo que não vai demorar e se você for, tenho um motivo extra para ir embora mais cedo, também estou exausta dos
plantões, mas os alunos me intimaram e não pude dizer não. Por favor, vamos só dar uma passadinha lá — implorou pela décima vez aquela noite. Meu Deus, como Shawn aguentou essa mulher por tantos anos! Se ele soubesse o que ela estava fazendo, ficaria com ainda mais raiva, pois tinha passado em frente a faculdade na semana anterior e viu esse barzinho cheio de estudantes matando aula para beber e fumar, aí achou que eu pudesse estar frequentando o lugar quando saía da aula. Por causa disso, chegamos a ter uma pequena discussão, afinal, senti-me ofendida com a pergunta e deixei claro que não havia ido apenas por falta de vontade e não por causa dele. No final das contas, ele viu que falou besteira, me pediu desculpas e a noite terminou em sexo.
— Por favor, Camila, só dez minutos e depois vamos embora. Eu sabia que deveria negar, mas acabei concordando, a mulher conseguiu me vencer pelo cansaço.
— Dez minutos e mais nada — avisei e seguimos para fora da faculdade. Enquanto atravessávamos a rua, tomei a decisão de não continuar o
curso, não dava para ser amiguinha de Fernanda, não apenas porque não aguentava mais aquela criatura no meu pé, mas porque ia contra meus princípios morais. Eu estava namorando com o ex-noivo dela e quando isso ficasse notório para todo mundo, eu só podia imaginar como ela iria reagir, e de forma alguma iria querer algum escândalo me envolvendo ali. Assim que a viram, seus alunos fizeram a maior festa. Ela me apresentou a quem ainda não me conhecia, depois seguimos para dentro e por sorte achamos uma mesa perto do bar, já que o lugar estava lotado. Não demorou para nossa mesa ficar rodeada por calouros animados, que bebiam e dançavam como se o mundo fosse acabar.
— Bebe uma cerveja comigo? —Fernanda pediu.
— Achei que não bebesse — comentei, lembrando-me do que Karen falou a respeito dos avisos que ela dava sobre os malefícios do álcool.
— Mudei minha opinião sobre muitas coisas depois do acidente, bebida é uma delas, não vou morrer por beber uma cerveja de vez em quando — ela comentou e pediu duas long neck ao garçom. Enquanto ela interagia com o pessoal, dei uma fugida e fui ao banheiro para mandar uma mensagem a Shawn avisando que chegaria em no máximo meia hora. Quando voltei, nossas garrafinhas já estavam em cima da mesa. Sentei-me e beberiquei com pouco entusiasmo, estava louca para ir embora e me livrar de toda aquela barulheira. Quando terminei minhacerveja, fiz menção de me levantar, mas senti meu corpo pesado e estranho. Eu não tinha comido nada antes de ir para o curso, então, imaginei que minha glicose tivesse baixado.
— Fernanda, eu já vou indo.
— Eu também já vou — ela falou, levantando-se e ajeitando a bolsa sobre o ombro. Decidi ir ao banheiro antes de pagar a conta, mas a sensação no meu corpo foi ficando cada vez pior. Graças a Deus avistei um conjunto de pufes no corredor do banheiro feminino e praticamente desabei sobre um deles. Tentei me recompor, mas minha visão estava embaçada, as pálpebras pesadas, assim como meus braços. Que merda estava acontecendo comigo?
— Você está bem? — um rapaz perguntou sentando-se no pufe ao lado do meu.
— Eu não sei, mas preciso de água, minha garganta está seca — falei tentando focar meus olhos nele.
— Vou pegar para você, não saia daqui. Continuei sentada sentindo as mais incríveis reações em meu corpo. Algumas garotas passaram por mim, rindo e cochichando a meu respeito, como se eu fosse alguma bêbada prestes a vomitar.
— Aqui está — o rapaz disse me entregando uma garrafinha de água. Bebi longos goles, mas não pareceu suficiente, eu sentia muita sede, por outro lado, a moleza foi diminuindo e comecei a me sentir melhor, como se uma energia diferente começasse a atravessar meu corpo. Em pouco tempo, todo aquele mal-estar se transformou em euforia e o barulho alto da música já não me incomodava mais, muito pelo contrário, eu sentia vontade de dançar. Terminei a garrafinha de água e voltei para a mesa onde estivera sentada com Fernanda. Ela não estava mais lá, mas seus alunos me reconheceram e ficamos bebendo e conversando, o quê, eu não saberia dizer, tudo parecia meio desconexo, e percebi que eles estavam na mesma vibe que eu, dando risada de tudo. Aquela sensação de felicidade era inédita, nunca tinha sentido nada parecido, então eu aproveitei toda aquela leveza e dancei, vibrei e curti com pessoas que nunca tinha visto na vida, sem me importar com mais nada além da batida da música que fazia meu corpo balançar. Algumas horas e muitas bebidas depois, os alunos de Fernanda me convidaram para ir a um pós-festa. Meu subconsciente dizia que não, pois estava bêbada e confusa demais, mas eu não sentia vontade de ir para casa, eu nem sabia onde era minha casa? Além do mais, como eu iria? Eu estava de carro? Minha cabeça estava muito confusa e a única coisa que eu sabia, era que não queria que aquela sensação de felicidade terminasse nunca, então resolvi acompanhá-los.

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