Cinco anos depois
O cheiro de churrasco que se espalhava pelo ar, só não era melhor que a visão maravilhosa que eu tinha a minha frente. Estávamos passando mais um final de semana prolongado na fazenda Mendes, que ficava a pouco mais de uma hora de São Paulo. Era sexta-feira e tínhamos chegado por volta das 10h da manhã para ficar até domingo. Eu adorava esse lugar desde pequena. Foi onde aprendi a montar e sempre ficava ansiosa quando meus pais diziam que iríamos passar o fim de semana ou algum feriado ali. Além dos cavalos, havia um rio de água límpida, que vinha de uma nascente que ficava na fazenda. Quando não estava correndo atrás de Shawn ou andando a cavalo, era para lá que eu ia. Entretanto, agora, no auge dos meus dezessete anos, mal me lembrava dos cavalos. Meus hormônios borbulhavam e a presença de Shawn só piorava a situação. Com 1m90 muito bem distribuídos em um corpo forte, mas não musculoso demais, e um rosto que poderia ter sido esculpido por Michelangelo, Shawn Mendes era um misto de cowboy com empresário. Durante a semana, ele desfilava com seus ternos bem cortados, mas na sexta-feira, colocava seu jeans surrado, uma camiseta ou uma camisa xadrez e viajava para a fazenda. Eu ainda tinha sérias dúvidas sobre qual versão gostava mais.
— Esse homem é um deus — comentei com minha amiga Rafaela.
— Não aguento mais escutar você falando dele — reclamou.
— Só falo verdades — suspirei.
— Daria um braço por uma noite com ele. Ela deu uma gargalhada.
— Sossega essa periquita, Shawn jamais ficará com você. O bom das melhores amigas, é que elas não te iludiam, e Rafaela desempenhava esse papel com maestria.
— Não custa sonhar — dei de ombros e voltei a encarar aquele pedaço de mal caminho, que naquele momento olhava na nossa direção. Quando vi meu pai entrar na casa para falar com mamãe, aproveitei para ir atrás do meu sonho de consumo.
— Posso beber? — Apontei para a garrafinha de cerveja na mão dele.
— Você sabe que não, mocinha. Fechei a cara e ele sorriu mostrando aquele monte de dentes perfeitos.
— Depois que fizer dezoito anos, prometo que a levarei a um ótimo restaurante e poderá beber o que quiser. Shawn sempre fazia promessas para quando eu fosse maior de idade, e aquilo me incentivava a desejá-lo ainda mais. Eu o faria cumprir todas elas. Para não me esquecer de nada, tive a brilhante ideia de anotar cada uma em um pedaço de papel. A princípio eu guardei os papeizinhos dentro da minha agenda, até que um dia Shawn me pegou fazendo uma anotação. Ele leu e imediatamente reconheceu suas próprias palavras. Na hora eu fiquei sem graça, mas quando não vi qualquer aversão da parte dele, confessei que havia anotado todas as promessas que ele me fizera. Ao saber disso, Shawn sugeriu que colocássemos os papéis na caixinha de madeira que havia dado a ele em um de seus aniversários. Isso tinha se tornado um hábito que levávamos muito a sério. Tanto, que algumas das promessas, ele mesmo escreveu e colocou lá dentro.
— Só vou acreditar se colocar na nossa caixa.
— Sim, senhora — concordou solenemente e depois sorriu.
— Por enquanto isso aqui deve servir — falou e esticou a mão com a intenção de colocar Coca-Cola em um copo, mas neguei.
— Se esqueceu que não bebo refrigerante? Suas sobrancelhas subiram em surpresa.
— E desde quando isso aconteceu?
— Desde que decidi que não quero uma bunda cheia de celulite na nossa lua-de- mel. Shawn soltou uma gargalhada daquelas chegando a arquear o corpo para trás.
— Você não desiste, não é mesmo?
— Óbvio que não — respondi e
lhe dei as costas. Voltei para a minha espreguiçadeira, tirei a saída
de praia que estava usando e me joguei na piscina. Talvez ele jamais ficasse comigo, mas isso não me impediria de tentar. Só desistiria, quando aquele homem estivesse casado. Naquela mesma noite tanto meus pais quanto Rafaela se recolheram cedo. O Sol estava forte demais e acabou tirando a energia de todos. As únicas pessoas acordadas eram Shawn, sua mãe e eu, é claro. Quando Sílvia terminou de dar algumas instruções ao casal que cuidava da casa da fazenda, subiu para o seu quarto, me dando a oportunidade perfeita para ir atrás dele. Shawn estava em seu escritório que parecia um breu; a única claridade vinha das imagens da série que ele costumava assistir antes de dormir. Fiquei um tempo analisando todos os seus movimentos antes de me aproximar. Quando a claridade iluminava seu rosto, era possível ver o quanto sua pele estava bronzeada. Aquilo, em contraste com seus olhos claros, o deixava ainda mais lindo, e eu, mais apaixonada.
— Shawn, posso ficar com você? Ele se virou e bateu no assento ao seu lado.
— Claro, Camz. Rangi os dentes ao
ouvi-lo. Nessa fase das nossas vidas, eu odiava quando ele me chamava assim. Desde o dia em que percebi que, independentemente de como me tratava, Shawn me via apenas como uma criança, comecei a detestar o apelido que só me fez
ficar cada dia mais iludida. Como pretendia mudar aquela realidade, esqueci esse assunto e caminhei até ele, sentando-me onde ele indicou.
— Estou sem sono — comentei, enquanto me ajeitava no sofá.
— Vamos escolher um filme, então. Shawn nunca viu problema em ficar sozinho comigo, pois a maldade estava apenas na minha cabeça. Se deixasse por sua conta, tinha certeza de que ele jamais faria qualquer coisa comigo, sua amizade e lealdade ao meu pai sempre estariam acima de tudo. Ele estava relaxado durante o filme. Fez piadas o tempo todo sem nem imaginar que a minha vontade era pular em cima dele e declarar todo o meu amor, afinal, uma garota da minha idade ama fervorosamente. Quando voltei meu olhar para a TV, notei algo em cima de uma poltrona.
— O que a nossa caixa está fazendo aqui? — questionei. Como prometera no dia em que o presenteei com ela, Shawn tinha levado minha caixinha para a fazenda e a colocado sobre a mesa do seu escritório.
— Estava escrevendo sobre a promessa do restaurante. Sorri e fiquei em silêncio, apenas me deliciando com sua atitude. Não sei dizer em qual parte do filme peguei no sono, mas de repente, estava com os braços dele envolvendo meu corpo e me carregando para o quarto de visitas. Ele me colocou na cama, cobriu e depositou um beijo em minha testa.
— Boa noite, Camz.
— É Camila — resmunguei, de olhos fechados, e escutei o som de sua risada antes de pegar no sono novamente. Ao chegar à cozinha na manhã do dia seguinte, encontrei a mãe de Shawn colocando uma massa na fôrma.
— Oi, sogrinha. Ela se virou e deu uma gargalhada.
— Olá, minha nora, está com fome?
— perguntou, entrando na brincadeira.
— Sim e com saudades do meu marido, onde ele está? Karen Mendes voltou a gargalhar e foi colocar a massa dentro do forno para assar. Graças a Deus ela já estava acostumada com as minhas brincadeiras, uma vez que todas as vezes que nos encontrávamos, o assunto era sempre ele.
— Saiu a cavalo com o seu pai.
— Karen, será que algum dia ele vai olhar para mim? — Era a primeira vez que fazia essa pergunta a ela, desde que fizera quinze anos. Eu tinha decidido comemorar por insistência dos meus pais, mas fui terminantemente contra uma festa tradicional, com vestido de princesa e todas aquelas frescuras que eu achava extremamente infantis. Em vez disso, pedi que mamãe contratasse um DJ e transformamos o salão de festas do condomínio em uma verdadeira boate. Dessa vez, quando coloquei um vestido curto e colado, mamãe não se importou. Já papai, me lançou um olhar enviesado — ele realmente me via como criança. Claro que tudo aquilo tinha o objetivo de mostrar a Shawn que eu tinha crescido. Mas para minha decepção, ele apareceu com uma loira alta e linda agarrada ao braço. Fiquei sem chão e teria dado a noite por encerrada, não fosse Rafaela me convencer a ignorá-lo e mostrar o que ele estava perdendo. Sabendo que ela tinha razão, interagi e dancei a noite toda sem me preocupar com ele, pelo menos aparentemente, pois, como sempre, eu estava atenta a tudo o que ele fazia. Por causa disso, vi todas as vezes em que ele e a loira se agarraram em um dos cantos do salão. Naquele dia, minhas expectativas com relação a Shawn começaram a diminuir. Nem mesmo abri o presente que ele havia me dado, junto com um beijo na mão. Minha esperança só voltou a aparecer quando, muitos meses depois, achei a caixinha de presente que eu havia guardado no fundo de uma gaveta. Nessa época a minha raiva tinha passado e fiquei curiosa para saber o que era. Abri a caixa e arfei, sentindo lágrimas encherem os meus olhos, quando vi o colar com um pequeno relicário em formato de coração. Abri o pingente com a esperança de que ele tivesse colocado uma foto sua lá dentro, mas, claro, estava vazio. Contudo, isso não durou muito tempo, pois imediatamente escolhi uma foto onde aparecíamos juntos — afinal, eu sempre fazia questão de ficar ao lado dele nessas horas —, fui até o escritório, diminuí o tamanho, para que nossos rostos coubessem dentro da joia e imprimi. Depois a cortei e posicionei dentro da moldura, fechei e coloquei o colar no pescoço. Desde então, só o tirava quando era necessário, como para tomar banho ou quando ia à piscina, motivo pelo qual não o usei nos últimos dois dias. Na primeira vez em que me viu usando o colar, Shawn sorriu largamente e perguntou que foto eu tinha colocado lá dentro. Como já sabia que essa pergunta viria, falei o que tinha combinado comigo mesma, que iria esperar para colocar uma foto minha com meu primeiro namorado. Ele assentiu, afagou minha cabeça, como os adultos fazem com as crianças e se afastou. Despertei de minhas lembranças quando Karen se sentou ao meu lado, colocou uma xícara de café na minha frente e tocou minha mão.
— Vai, sim, querida, mas você precisa crescer mais. Karen sempre me encorajava. Segundo ela, um amor jamais poderia ser ignorado.
No fundo, eu achava que ela desejava aquilo tanto quanto eu.
— Estou contando os dias para fazer dezoito anos.
— Camila, aproveite cada fase com calma e não esqueça de que o que tiver que ser, será — ponderou, ela não gostava da minha pressa para que o tempo passasse rápido.
— Eu amo o seu filho. Ela me puxou para junto de si e deu um beijo na minha cabeça.
— Eu sei, meu anjo, mas não se esqueça de que em poucos meses, você terá que sair daqui para estudar e precisa focar nisso. Desde que uma prima se formou com honras e pompas no exterior, meus pais colocaram na cabeça que sua filha faria o mesmo. Eu tinha argumentado e tentado tirar essa ideia da cabeça deles de todas as formas possíveis, mas foi inútil, estava tudo acertado e não sabia o que fazer.
— Se Shawn disser que quer ficar comigo, eu desisto. Karen me afastou e encarou meu rosto com uma expressão séria.
— Primeira regra para conquistar o meu filho: jamais faça tudo que ele quiser, nunca! Homem nenhum gosta disso. Shawn não a valorizaria se desistisse de tudo por causa dele. Murchei feito um maracujá de gaveta e a única coisa que me consolava era saber que a cada dia, estava mais perto de me tornar adulta.
— Não é à toa que ele ainda está solteiro — ela continuou e eu apenas assenti, desanimada, já que solteiro não significava sozinho.
Shawn Mendes era cheio de admiradoras e parecia não se importar nem um pouco com isso. Continuamos conversando até
que Rafa se juntou a mim para tomar café. Depois de alimentadas, fomos para a área da piscina, onde permanecemos por toda a manhã. Após o almoço, meus pais decidiram voltar para a cidade, uma amiga de minha mãe estava fazendo aniversário e eles teriam que comparecer. Mas eu, não, e obviamente, implorei para ficar com Karen e Shawn. Sabendo que eu ficaria emburrada, caso fosse obrigada a voltar para a cidade antes da hora, eles deixaram, como de costume. Claro que isso só acontecia porque meus pais tinham total confiança em Sílvia e apenas por causa dela eles faziam a minha vontade. Nós vivíamos como uma grande família, mas tinha certeza de que se Shawn estivesse sozinho, eles não permitiriam, por mais emburrada que eu ficasse. Depois que eles saíram, voltamos para a piscina e Rafaela fritou no sol. No final do dia, ela lanchou e foi dormir, completamente esgotada, já eu, fiquei fazendo companhia a Camila. Após o jantar, fomos para a sala de jogos, onde Shawn se juntou a nós, e ficamos jogando cartas até a madrugada. Entre uma rodada e outra, ficava observando sua expressão fechada e concentrada no jogo. Tinha aprendido a ler todos os seus sorrisos e trejeitos, não existia ninguém na face da terra que soubesse mais sobre ele do que eu. Eram quase três da manhã quando Karen se rendeu ao sono e subiu. Jogamos mais duas partidas e então ele anunciou que ia dormir.
— Fica mais um pouco — pedi e dei a volta na mesa, sentando-me em seu colo. Shawn já estava acostumado com as minhas investidas, por isso deixou, me olhando com uma cara divertida.
— Sim, eu não desisto — soltei antes que ele falasse sua frase preferida. Fiquei admirando os longos cílios sombreando os dois diamantes azuis que ele tinha, enquanto a cascata de cabelos negros caía em volta do rosto esculpido por Deus. O tempo passava e minha loucura por esse
homem só aumentava, e eu sabia que nunca conseguiria tirá-lo da cabeça. Talvez, se ficássemos juntos ao menos uma vez, essa obsessão fosse embora, pensei. De modo irrefletido, aproximei nossas bocas, dei um selinho nos lábios dele, mas não esperei para ver sua reação, saí correndo feito uma louca e só parei quando cheguei ao meu quarto, completamente ofegante e morrendo de vergonha. Droga, o que eu fiz?! Domingo de manhã, o sol estava forte e entrou com tudo pela janela do meu quarto. Abri os braços e me espreguicei com vontade.
— Camila? Virei-me sorrindo ao escutar a voz de Rafaela.
— Bom dia.
— Espero que sim, porque Shawn pediu para você ir até seu escritório e não parece nem um pouco satisfeito, se a cara péssima dele for algum indício. Droga! Fechei os olhos, só então me lembrando do que tinha feito na noite anterior. Tive vontade de ainda estar dormindo para não ter que enfrentar Shawn.
— Camila! — ela chamou mais uma vez, sem paciência.
— O que você aprontou,
sua maluca?
— Nada de mais. Você pode avisar que já estou indo? Rafa revirou os olhos, mas concordou e se foi. Como não poderia fugir do que iria ouvir, resolvi me apressar. Tomei um banho na velocidade da luz e fui procurar algo para vestir. Num ato de desafio, coloquei um biquini preto, um shorts jeans de cintura baixa, curto e desfiado nas pernas, e resolvi não pôr nenhuma blusa. O biquini não era pequeno, mas meus seios, de tamanho médio, sempre pareciam voluptuosos, especialmente com a minha cintura fina. Sorri, maliciosa, ao me olhar no espelho. Se ele queria me dar uma bronca, teria que ser do meu jeito. Desci as escadas e fui direto para o escritório.
— Mandou me chamar?
— Sente-se, por favor — falou, sem tirar os olhos dos papéis que estava examinando e fiz como pediu.
— Shawn… — comecei, me preparando para argumentar, mas o olhar que ele lançou ao meu rosto me fez congelar na cadeira.
— O que você fez ontem foi muito grave — apontou, largando os papéis, espalmando as mãos enormes sobre a mesa e me encarando com seus olhos de diamante.
— Você sabe o quanto seus pais confiam em mim, mas em momento algum pensou em como eles se sentiriam caso soubessem o que aconteceu. Engoli o nó da garganta, enquanto ele balançava a cabeça. Era nítido que estava furioso, mas parecia decepcionado também e foi isso que me impactou.
— Em momento algum você pensou em como eu me sentiria.
— Shawn, você sabe o que eu sinto e tem horas que não consigo controlar. Ele abaixou a cabeça e suspirou demonstrando cansaço.
— Você precisa se apaixonar por alguém da sua idade.
— Eu já tentei! Você acha que eu queria me sentir assim? Shawn me fitou mais uma vez.
— Então tente mais. Você está iniciando a melhor época da vida, quando pode aproveitar tudo ao máximo e beijar quantos rapazes quiser. No entanto, está perdendo tempo com essa… paixão. Ele praticamente cuspiu a palavra e isso me magoou. Shawn não acreditava nos meus sentimentos.
— Mas não quero me envolver com um moleque bobo e sem graça, eu quero você — falei para que ele soubesse que não era brincadeira. Mais uma vez ele abaixou a cabeça, fechou os olhos e ficou em silêncio por vários segundos; quando voltou a falar, parecia ainda mais sério:
— Camila, você é linda, está se transformando em uma mulher e tanto, mas precisa tirar essa obsessão da cabeça ou terei que me afastar da sua família. Uma tristeza enorme tomou conta de mim. Não conseguia imaginar meus finais de semana sem Shawn por perto. Mesmo com o nosso placar no zero a zero, eu me divertia com a presença dele, seria terrível se nos afastássemos.
— Não faça isso, eu vou me comportar. Ele suspirou e quando me encarou novamente, seu olhar estava mais brando.
— Minha mãe levará vocês embora; vou ficar por aqui até amanhã. Concordei em silêncio, me levantei e comecei a caminhar para a porta.
— Shawn — falei, virando-me de repente e quase me engasguei quando vi seu olhar fixo na minha bunda.
— Sim — respondeu e podia jurar que ele havia corado por ter sido pego em flagrante. Minha vontade era de sorrir largamente, mas se fizesse isso, ele voltaria a ficar com raiva e cumpriria sua ameaça, por isso fingi que não tinha visto e falei:
— Me desculpe.
Ele assentiu e voltou a olhar os papéis em sua mesa, me dispensando.
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